Capítulo 4. Apenas Amigos...

1085 Words
Stateline, South Lake Tahoe, California Usei o PC dele para dar o máximo de detalhes possíveis da fracassada operação que tive no Velvet. Era por volta das onze, quando Levi vestiu a farda e saiu. Usou o carro da mãe e Sofia aproveitou a carona do filho para ir ao bar onde faria seu próximo show. Acabei ficando só na casa e isso foi bem desconfortável. — Lucas queria falar com você. — Sofia falou, antes mesmo do loirinho acordar e isso me manteve na casa, apesar de eu me sentir apavorada. O tempo fez bem para Lucas. Meu loiro já estava grisalho; ganhou certa compleição com o passar dos anos e a altura não mudou nada, talvez pela postura. Já usava óculos dado o tempo que gastava em frente a telas, lendo letras pequenas. Ao chegar, ele vestia um fino smoking, sempre exibindo bom gosto. Os fortes olhos azuis sempre me tiravam o ar. — Bom dia, anjo! — Ele sorriu. — Dia... — Apenas suspirei, engolindo seco. — Sofia já saiu? — perguntou, passando por mim para beijar minha testa e seguindo sua agitada manhã. Ligou a televisão, que tinha muitos gráficos da bolsa de valores; ligou um notebook e um tablet sobre a mesa, onde provavelmente tinha a mesma coisa. — Saiu com Levi. Devem voltar juntos — respondi. — Poderia ter falado comigo do que houve com ele... —Não falei com Sofia sobre isso. — Seu semblante se chateou. — Foi infernal, mas eu só tentei preservá-lo. Ele se aplicou tanto para aquilo — meneou a cabeça. — Ele conversou comigo à noite. Como você está? — Estou melhor agora que o caos passou — riu, indo à cozinha. — Mesmo não querendo, Chloe acabou percebendo que tinha algo errado... então imagina! Demorou, mas ele voltou com uma xícara de chá para se sentar ao sofá e observar a televisão. Tirou um bloco de notas da mesinha ao lado do sofá. — Precisa de algo? — Fiquei preocupada com ele. — Devemos fazer uma graça qualquer no aniversário da Chloe. Seria bom se viesse. — Ele me olhou com certa melancolia, me fazendo engolir seco. Adoraria inventar uma desculpa qualquer, mas ele me impedia de pensar rápido. Eu era feliz por ver o homem da minha vida feliz, mas não era para tanto. Lucas construiu uma família linda. O filho mais velho, na verdade sobrinho de Sofia, se tornou policial e estava em Sacramento; Levi entrou para o Exército; a mais nova sonhava em ser estilista. Longe de mim querer o fim da família, mas não era sempre que eu conseguia sorrir ao ver o casal. — Tudo vai depender do meu tempo. Sabe que a vida tem estado bem agitada ultimamente — falei. — Não custa tentar convidar — riu. — Você faz bastante falta na minha vida e espero que saiba disso. Abaixei a cabeça, engolindo seco. — Só pensa sobre, tudo bem? — Ele sorriu. — O-okay — assenti com a cabeça. — Ainda não falou com Levi sobre a filha da putä e o amigo dele? — Mudei o assunto para outro tão desagradável quanto. — Amanhã é folga dele. É o dia que vou tirar para isso. Não quero encher a cabeça dele de merdä num dia em que ele estará armado o dia inteiro, sabe!? — riu. — Soube que ele tem observado a menina... é tenso! — Não confia? — perguntei, rindo. — Ele é do tipo bonzinho, anjo, mas o gênio ruïm ainda está lá! — Lucas deu de ombros. — No lugar dele, eu mataria os dois... mas, sei que ele não gostaria. — É incrível como você colocou um garoto tão bonzinho no mundo — gargalhei e ele também riu alto. — Sabe-se lá o que eu fiz, deu certo, ‘né!? — Pois é. O ruïm de ele ser bonzinho é que todo mundo acha que pode fazer de trouxa. Ela ainda não soube da volta dele? — perguntei, curiosa. — Não que eu saiba. Mexi uns pauzinhos para mandar o tal colega para Nevada. Deve ficar fora mais algumas semanas... deve ser suficiente. — Sabe que ele está investigando desvio de influência na polícia, ‘né!? — ri, meneando a cabeça. — Imagina o conflito que ele teria de prender você ou não. — Não deixei rastro para isso. Pode ficar tranquila! — Lucas sorriu de canto de boca. — Não é porque estou quieto que perdi o jeito para a coisa. — Só me preocupo — dei de ombros. — E sua vida, como está? — Ele me arguiu, deixando seu bloco de lado após tomar algumas notas e se recostando no sofá para beber o tal chá. — Ainda estou naquele mesmo caso. Confesso que não evoluí muito. Vendo as informações de Levi até entendo o porquê da dificuldade em avançar... — É o mesmo pessoal!? — Lucas franziu o cenho. — Pois é. Talvez diferentes raison d’être, mas ainda envolvidos com o mesmo pessoal do tal puteirö. — Precisando, sabe que pode contar comigo. — Lucas deu de ombros. — Ainda uso aqueles mercenários para a segurança de Chloe... Posso pagar outros. — Prefiro trabalhar sozinha. — Meneei a cabeça. — O senhor LA já tem quatro carinhas que não servem para porrä nenhuma. Não preciso de mais! — ri. — Tudo bem. Toma cuidado, anjo. Assenti com a cabeça, lhe sorrindo e o silêncio imperou. Nem tardou para eu ficar incomodada com aquele silêncio. Odiava ter que olhar para ele. As mãos já suavam e o coração ainda errava as batidas. Ficava ansiosa perto dele e isso destruía minha capacidade de raciocínio — simplesmente ridículö. Nossas vidas mudaram muito em vinte anos, mas eu não consegui só desencanar. Incomodava e eu me sentia uma cretinä por isso, mas nada podia fazer. Muito me esforcei, mas nunca fui capaz de estar com alguém e não comparar — isso era, na minha cabeça, o que provavelmente estragava tudo sempre. Mesmo buscando, entre homens e mulheres, eu acabava buscando um Lucas neles e não encontrar era sempre frustrante demais para eu lidar. Um inferno na terra! — É melhor eu ir. — Finalmente tomei coragem. — Pensa com carinho no que pedi. — Ele assentiu, sorrindo com gentileza. — Se quiser pernoitar mais vezes, é sempre bem-vinda, tudo bem? Eu me levantei e ele foi rápido ao também levantar e me abraçar. Era muito fraterno e sempre muito carinho, algo que eu amava e odiava!
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