Tahoe Valley, South Lake Tahoe, CA
— Visita inusitada — disse o pai, me medindo de cima a baixo, olhando de soslaio. — Bom dia, meu filho!
— Dia, meu pai. Sua benção!
— Que Deus te abençoe. — Ele fechou o caderno que tinha no colo e se virou em minha direção. — Como meu filho está nesse início de semana?
Quando acordei, Natasha já não estava na cama. Procurei e não a encontrei no apê, mas ela deixou um bilhete carinhoso, dizendo que nos veríamos depois.
Meu irmão ainda descansava, então nem o incomodei. Antes de pensar em ir até o hospital, pensei primeiro em ir até o pai para pedir sua ajuda.
— Bem... Um pouco...
Quando cheguei, o pai estava no sofá com seu caderninho de anotações e o telefone ao lado. Ainda não tinha ligado o PC e o chá estava ao seu lado.
— Um pouco? — Ele desconfiou.
— Vou procurar um médico e queria sua ajuda. — Eu o falei, seguindo para sentar ao seu lado. — Não é nada demais... Só... Eu não tenho muita certeza.
Seu semblante ficou imediatamente preocupado.
— Quer me contar? — Ele suspirou. — Não, não conta. Vou falar com o doutor e vamos até o escritório dele. Lá, você conta para ele, tudo bem?
— Obrigado, meu pai.
Ele se levantou. Beijou minha testa ao passar por mim e subiu. Nem se demorou para descer arrumado.
— Cadê a mãe e a pequena? — estranhei.
— Saíram cedo! — Ele riu. — Ela é sempre a primeiro a se consultar em dias de médico, então as meninas madrugam para chegarem a tempo.
— Entendo... As manias da Chloe? — ri.
Ele só assentiu com a cabeça, rindo.
— Estou de carro. O senhor nem precisa dirigir — falei enquanto ele trancava a porta. — Só precisa dizer onde vamos... nisso, estou bem perdido.
— Ajudo e agradeço! O que houve?
Ainda fiquei silenciado por algum tempo, tentando pôr em palavras o que havia realmente. Ajudei que ele entrasse e segui ao banco do motorista.
— Hm, eu- — suspirei. — Só tenho tido dificuldade com o foco, em maioria, eu acho. Mas, exagerei... um pouco... senti um incômodo... dor no peito.
O pai manteve o silêncio, me olhando.
— Muito aflito... eu acho... Por isso, ir ao médico.
— Quem foi? — Foi a pergunta dele, objetiva.
— O quê!? — Estranhei, olhando-o.
— Alguém começou isso... é responsável por tirar seu foco de alguma forma difícil de lidar. — Ele arfou. — Por isso, a pergunta: quem foi?
— Ela, ‘né, pai!? — assumi com vergonha. — Não consigo não sentir falta dela... e ela... manda foto... vídeo... isso me dá vontade de correr até ela.
O pai apenas respirou fundo.
— Tive com Natasha... Ela me aconselhou muito, só que... sei lá... sabe? — Eu o olhei e ele apenas sorriu.
— Tudo bem. Só não se machuca! — alertou.
— Ela ficou preocupada e eu também estou, não vou mentir... isso tudo com a Lindsay está mexendo com a minha cabeça... estou muito estressado... tudo só piora, eu acho... então, estou seguindo os conselhos.
— Gosto que busque ajuda. — Ele assentiu. — Seu pai demorou... se permitiu afundar... Não recomendo.
— Nem quero, meu pai! Pode ficar tranquilo, não é meu intuito me deixar abater por nada. Sou soldado!
Ele acabou sorrindo e se recostou.
— É o nosso orgulho! — suspirou aliviado.
Acabei me acanhando com a fala, mas dei partida para seguir enquanto o pai guiava o caminho. Não foi tão distante da cidade, mas já saindo rumo à costa.
Chegamos num consultório relativamente simples de beira de estrada. Não tinha nenhum outro negócio próximo — o que me fez estranhar.
O ambiente ainda era bonito. Em meio a área desértica, era o único lugar que tinha flores e tudo mais.
Tudo era em cores claras e até branco.
Entrando, havia uma recepcionista. Senhora de idade que sorriu com seu ar maternal e disse para aguardarmos que ela buscaria o doutor.
O ambiente tinha o som de uma música clássica qualquer ao fundo. Nós nos sentamos e o pai se recostou, respirando fundo e olhando ao redor.
Um senhor de idade, pardo e alto, saiu do local de atendimento. Pareceu surpreso ao ver o pai, mas abriu um largo sorriso e se aproximou:
— Quem te viu, quem te vê! — falou.
— Bom dia, doutor. — O pai lhe sorriu. — Não teve contato, mas esse é meu filho, Levi! — apresentou.
O doutor me olhou com ainda mais surpresa.
— Olá, senhor. — Eu lhe sorri.
— A compleição não é sua, nem de Sofia! — O doutor riu. — Olá, rapaz. Levi... eu me chamo Wallace.
— Quero que o analise, doutor. — O pai soou preocupado. — Novos problemas, mas não tão novos assim... Já enviei os exames da infância e adolescência.
— Eu vi! — O doutor riu. — Vem comigo, Levi?
Assenti e o pai deu o passo atrás.
Acompanhei o doutor ao interior do consultório.
— Bom, minha especialização é a saúde mental. Ao menos, foi o ramo em que iniciei. Acabei desviando o curso aos hormônios com o caso do seu pai.
— Soube que as coisas com ele eram tensas — falei, indo até o divã para me sentar. — Não me aprofundei tanto com o que ocorreu com o pai...
— Já fez terapia? — O doutor riu, indo ao seu lugar. — Tenho certeza que sei a resposta.
— Nunca fiz! — Acabei rindo também.
— Há uma coisa que deve saber sobre terapias: o sigilo. Nada do que falar numa sessão será aberto a qualquer outra pessoa, nem que me peça.
Observei-lhe e ele transmitia confiança.
— Isso é bom, doutor. É um dos meus receios — falei. — Não porque faço coisas erradas, nem nada, mas meu trabalho é perigoso e exige sigilo!
— Pode contar comigo! — sorriu. — Bom, pude ver seus exames de outrora. Ainda solicitarei novos, mas podemos iniciar com o clássico: como se sente?
— Estou muito estressado... doutor.
Assim começou a primeira terapia da minha vida — para tentar lidar com a minha mente perturbada.