HQ da Força Nacional, Sacramento, California
— Tudo já foi organizado para não precisar ir ao Departamento de Polícia no dia de hoje, soldado. — O major falava enquanto lia o que eu coletei.
— Sim, senhor! — Fiquei de pé com os braços para trás, perna levemente espaçada e postura ereta. — Consegui isso recentemente e creio que colaborará.
Ele manteve o silêncio enquanto lendo. Natasha foi bem detalhista com seu relato, incluindo até mesmo suas impressões sobre as pessoas com quem lidou.
O major já era um homem maduro, mas não aparentava tanta idade. Tinha compleição forte, cabelo cortado, estatura alta e não usava barba.
De pele bem clara e queixo quadrado, tinha pinta de europeu, mas o sobrenome não evidenciava tanto.
— Não posso saber quem lidou com isso? — O major me mediu de cima a baixo. — Deveria confiar mais em seu superior, Rodrigues.
— Garanti à fonte que ela estava segura — falei com toda minha sobriedade. — Perdão, senhor!
— Pode ir! Bom trabalho... — Ele falou.
Assenti e voltei ao carro. Deixei uma muda de roupa separada para tirar a farda no carro, então me troquei e segui ao centro para buscar a mãe.
Ela estava se preparando para um stand-up com brasileiros. Bastante eufórica, não só pelo evento, mas também por eu ser seu motorista pela manhã.
A mãe era sempre muito agradável. Tinha seus momentos de superproteção — o que nunca mudou —, mas, no geral, era uma pessoa muito mais divertida, além do fato de ser uma mãe coruja.
Segui ao bar e estacionei, saí do carro com os óculos escuros — desde a prisão, o sol incomodava muito! — e me recostei na porta de braços cruzados.
Mesmo a agitação daquele horário não era suficiente para observar a cidade e não a entender como um lugar calmo demais, até pacato.
Muitos rostos que eu conhecia passavam, das moças aos rapazes, e principalmente os mais velhos, que ainda passavam perguntando como eu estava.
Ali, tínhamos uma grande comunidade latina e isso fazia com que o bairro tivesse aquele ar de maior receptividade do que se costumava ver por aí.
Estava terminando de responder uma senhora que me viu crescer, quando a loira parou ao meu lado.
Queria fingir que não vi, mas seu perfume embaralhou os meus pensamentos. A senhora apenas arregalou os olhos, nos olhando, e saiu rápido.
— Levi? Quando voltou? — Ela perguntou.
Virei em sua direção para olhá-la. Lindsay não tinha o mais invejável dos corpos, era esguia e não tinha o corpo tão farto. Tinha vinte e três anos.
Usava maquiagem leve; um vestido bem suave para o dia de calor que exibia as pernas, um leve decote.
— Cheguei essa semana — respondi.
— N-nossa! — Ela respirou fundo.
— Espero que esteja bem — sorri-lhe.
— C-claro! — Soou ainda mais surpresa.
Observando meu corpo, ela não conseguiu tirar os olhos da aliança pendurada no colar. Sem blusa, eu nem tinha como esconder aquilo — o que me fez sentir um idiotä ao quadrado por alguns instantes.
Não sabia o que falar enquanto a observando e ela também ficou imóvel. Acabou estendendo a mão e eu apenas a tomei para beijá-la.
— A-ainda usa- — Ela se interrompeu, tomando a mão onde estava a aliança. — N-nossa! — Ela arfou.
— Ainda trabalha na cafeteria? — perguntei.
— S-sim. Estava... pensando em... não sei — riu.
— Hoje eu estou de folga... Se está por aqui, é porque está de folga também... A gente podia tomar um vinho? — Acabei me encorajando para convidar.
— N-não sei. — Meneou a cabeça, dando um passo atrás. — Deve fazer um ano agora? — Franziu o cenho.
— Por aí — dei de ombros. — Se resolver aceitar, meu número não mudou. Só avisa e eu te busco.
Acabei me aproximando, mas consegui me impedir de buscar um beijo, desviando a rota e beijando seu rosto, bem perto da boca.
O coração pareceu que saltaria para fora e ela ficou parada por alguns instantes até se apressar para sair, sem sequer me falar nada.
Tive uma breve sensação ansiosa, levemente agonizante, mas a mãe me salvou de simplesmente afundar naquela sensação ao chegar.
— Não estamos bem? — Ela me perguntou.
— S-sim, estou. — Assenti ao voltar para o corpo. — C-como foi lá? Já está tudo pronto para o espetáculo?
— Nossa! Espetáculo é forte demais, meu amor —gargalhou —, mas... tudo pronto! Agora, é só esperar.
— Ótimo! Hoje eu volto para casa — ri.
— Que chique! É tipo uma folga extra? — riu.
— Sim, tipo isso — assenti com a cabeça. — Vou aproveitar para dormir, eu acho. Não estou com a cabeça muito boa para muita coisa — suspirei.
— Gosto que descanse!
Segui de volta para casa. O pai estava focado em seu trabalho e eu nem o incomodei, apenas segui ao quarto para me trancar e me deitar.
Era raro sentir os impactos da minha parada vida sexuäl, mas lidar com Lindsay chacoalhou a corpo e a mente, me fez buscar alívio comigo.
Do tempo de internato, quando entrei na força armada, até aquele dia, deviam ser aproximados dois anos sem nem tocar uma mulher.
Lidar com aquilo sem surtar exigia nervos de aço.
O treinamento para Operações Especiais ajudou a fortificar a mente para isso, mas eu não era de ferro.
A pior parte de estar tão refém naquela situação é que eu sabia do potencial que aquilo tinha de mexer ainda mais com meu estado emocional.
Era pouco antes do almoço, eu estava cochilando quando recebi a ligação de Lindsay que apenas disse:
— Podíamos almoçar.
— E-eu posso te buscar... — sugeri.
— Não precisa. Vem na minha casa — desligou.
Nunca será motivo de orgulho pensar que só dei um pulo da cama, me arrumei rápido e, em cinco minutos, eu já estava pronto para sair.
— Estou pegando o carro. Volto para o jantar! — falei ao passar pela sala e o pai apenas assentiu.