Stateline, South Lake Tahoe, California
Não podia conter minha surpresa com tudo que Levi falou. A vida dele simplesmente virou de cabeça para baixo e ele só tinha vinte e um anos!
Conforme a conversa evoluiu, ficou claro que ele sequer sabia o que realmente ocorreu com a loira e isso quase me deu nos nervos — alguém devia ter falado!
Bastou a primeira cerveja para o azul olhar do loiro demonstrar sono. Levi ainda tinha aquele mesmo jeito jovial dos seus dezesseis anos.
A diferença era muito grande, claro! Cresceu muito e ficou mais forte, já tinha herdado aquele corpão do avô, mas a guerrilha trabalhou bem nele.
Levi tinha o cabelo cortado. A barba bem feita dava um ar mais adulto do que quando saiu de casa.
A marca dos assassinatos era forte em seu olhar e eu nem sabia se deveria sentir orgulho ou tristeza.
— A quarta, Joe! — pedi nossa rodada.
— Porrä, quer me deixar doidão!? — Levi riu.
— Pois é. Talvez eu te carregue a um puteirö para ver se você transä com umas meninas e deixa essa loira de lado — dei de ombros, irônica.
— Nem é que eu não tenha tentado! — Ele riu com muita melancolia. — Eu amo Lindsay... — Meneou a cabeça, terminando sua garrafa.
— Seu pai ficou de conversar contigo, eu imagino — falei com certa preocupação e ele assentiu com a cabeça. — Entendo... Não vou tomar o lugar dele, então.
Ele me indagou com o olhar, acabou soluçando.
— Que isso, loiro! — Acabei rindo dele. — Não bebeu um gole de nenhuma cachacinha na tal missão?
— Fiquei muito estressado. Tipo, me preparei muito para ir, não acho que tive dificuldade, nem nada. Só não bebi nada por disciplina, sabe!?
Levantei uma sobrancelha, tentando não ironizar o quanto ele soava santo com aquilo — o pai dele seria muitas vezes pior que isso num Exército.
— O fodä de lidar com eles atacando as moças é que nem tinha necessidade. — Ele soou pensativo. — Desde que vesti a farda, tudo pareceu mais fácil... no sentido social... sabe!? — Ele deu um acanhado sorriso.
— Quem não curte um soldado fortão!? — brinquei e ele acabou rindo. — Tem gente que vê os caminhos mais fáceis e não consegue evitar, loiro.
— Às vezes eu acho que deveria ser um pouco assim, sabe!? — Ele fitou meus olhos. — Por que eu preciso bater cabeça e fazer direito? É uma merdä!
— Bom, foi uma escolha que você fez e, com certeza, você tinha seus motivos ao fazê-la. Precisa lembrar quais foram sempre — aconselhei.
— É! — Ele se recostou na cadeira.
Joe veio chegando com a quarta rodada e já tirei o dinheiro para pagar as quatro. Eu não era a melhor amiga do mundo para aconselhar com coisas morais.
Bebemos a última rodada em silêncio. Ele estava pensativo e não era meu intuito encerrar suas reflexões com palavras que poderiam não ser boas no momento.
— Vamos!? — Eu o convidei quando terminei.
Levi assentiu com a cabeça e levantou, pegou sua garrafa para continuar bebendo enquanto andássemos.
— A moto ficará por aqui, Joe... Volto logo! — comuniquei e ele apenas assentiu com a cabeça com um largo sorriso. — Boa noite para ti.
Levi não trocava as pernas, mas andava bem devagar. Era impossível saber o que ele pensava com a forma como olhava para a frente.
— Nem perguntei do trabalho... Como está?
— Cometendo um crime federal em nome da América! — Ele deu de ombros. — Ainda estou me ajustando à delegacia... preciso de tempo.
— Que coisa... — Olhei-lhe e ele apenas arfou.
— Estamos tentando lidar com uma organização que pode estar instalada em toda a Califórnia, polícia, o jurídico e até a inteligência pode estar comprometida.
— Jaula de Veludo... — Foi o nome que me veio em mente automaticamente e ele me olhou com surpresa.
— O-onde ouviu?
— Isso que dá não visitar puteirö nenhum! — ri. — É um lugar badalado perto da Baía. Se está falando de influência... está falando desse pessoal, com certeza!
— Ainda não atendi nada lá para Baía, nem faço ideia de como está hoje. — Ele voltou a ficar pensativo. — É um nome que repete muito no dossiê.
— E não disseram ser uma casa de massagem!? — ri. — Julgaram óbvio ou só omitiram por canalhice?
— Pode nem ser para eu ir! O grupamento tem dez homens... Não nos comunicamos, mas temos uma missão em comum, cada um num canto.
— Se querem infiltrar, mudem de ideia! — alertei. — Não vai dar certo... papo de quem já conheceu — ri. — Quase não saí com vida daquela merdä...
— Incomodaria em ajudar? — Ele me perguntou. — Não agora, mas amanhã. Eu arrumo uma desculpa para não ir à delegacia e você me dá o que sabe.
— De boa, loiro! — dei de ombros. — Todo bom policial tem um bom informante! — ri. — Você tem uma boa informante que é muito gostosä.
Ele acabou rindo. Era impressionante como era transparente com o que sentia, sua preocupação com o colega ficou muito óbvia enquanto caminhava.
— Porrä, eu odeio isso! — Ele meneou a cabeça.
— Nem inventa de arrumar trabalho! — Eu o repreendi. — Você entrará em casa e dormirá. Posso pernoitar, assim a gente se fala na manhã.
— Obrigado, ruiva... Tomara que dê tempo.
“Provavelmente já foi...”, lamentei comigo.
Levi destrancou a porta e foi direto ao sofá. Sentou com uma postura bem relaxada para terminar sua cerveja e eu cuidei de fechar a porta.
A sala da casa de seus pais tinha dois sofás, o que me permitiu apenas me jogar no segundo. Virei em sua direção para me mostrar acordada, presente.
Ele não demonstrou vontade de conversar. Ao fim da cerveja, deixou a garrafa sobre a mesa de centro e só tirou a parte de cima da farda para se deitar.
— Já visitou seu apartamento? — perguntei.
— Não. Acho que se eu for no apartamento, não vou conseguir me impedir de ir atrás dela. — Ele falou meio embolado. — Mas, nem sei o que fazer ainda...
— Pode ouvir o conselho da ruiva e só deixar essa mina para lá. Tem coisa melhor por aí! — aconselhei.