Capítulo 2. Boa Amiga

1074 Words
Stateline, South Lake Tahoe, California Não podia conter minha surpresa com tudo que Levi falou. A vida dele simplesmente virou de cabeça para baixo e ele só tinha vinte e um anos! Conforme a conversa evoluiu, ficou claro que ele sequer sabia o que realmente ocorreu com a loira e isso quase me deu nos nervos — alguém devia ter falado! Bastou a primeira cerveja para o azul olhar do loiro demonstrar sono. Levi ainda tinha aquele mesmo jeito jovial dos seus dezesseis anos. A diferença era muito grande, claro! Cresceu muito e ficou mais forte, já tinha herdado aquele corpão do avô, mas a guerrilha trabalhou bem nele. Levi tinha o cabelo cortado. A barba bem feita dava um ar mais adulto do que quando saiu de casa. A marca dos assassinatos era forte em seu olhar e eu nem sabia se deveria sentir orgulho ou tristeza. — A quarta, Joe! — pedi nossa rodada. — Porrä, quer me deixar doidão!? — Levi riu. — Pois é. Talvez eu te carregue a um puteirö para ver se você transä com umas meninas e deixa essa loira de lado — dei de ombros, irônica. — Nem é que eu não tenha tentado! — Ele riu com muita melancolia. — Eu amo Lindsay... — Meneou a cabeça, terminando sua garrafa. — Seu pai ficou de conversar contigo, eu imagino — falei com certa preocupação e ele assentiu com a cabeça. — Entendo... Não vou tomar o lugar dele, então. Ele me indagou com o olhar, acabou soluçando. — Que isso, loiro! — Acabei rindo dele. — Não bebeu um gole de nenhuma cachacinha na tal missão? — Fiquei muito estressado. Tipo, me preparei muito para ir, não acho que tive dificuldade, nem nada. Só não bebi nada por disciplina, sabe!? Levantei uma sobrancelha, tentando não ironizar o quanto ele soava santo com aquilo — o pai dele seria muitas vezes pior que isso num Exército. — O fodä de lidar com eles atacando as moças é que nem tinha necessidade. — Ele soou pensativo. — Desde que vesti a farda, tudo pareceu mais fácil... no sentido social... sabe!? — Ele deu um acanhado sorriso. — Quem não curte um soldado fortão!? — brinquei e ele acabou rindo. — Tem gente que vê os caminhos mais fáceis e não consegue evitar, loiro. — Às vezes eu acho que deveria ser um pouco assim, sabe!? — Ele fitou meus olhos. — Por que eu preciso bater cabeça e fazer direito? É uma merdä! — Bom, foi uma escolha que você fez e, com certeza, você tinha seus motivos ao fazê-la. Precisa lembrar quais foram sempre — aconselhei. — É! — Ele se recostou na cadeira. Joe veio chegando com a quarta rodada e já tirei o dinheiro para pagar as quatro. Eu não era a melhor amiga do mundo para aconselhar com coisas morais. Bebemos a última rodada em silêncio. Ele estava pensativo e não era meu intuito encerrar suas reflexões com palavras que poderiam não ser boas no momento. — Vamos!? — Eu o convidei quando terminei. Levi assentiu com a cabeça e levantou, pegou sua garrafa para continuar bebendo enquanto andássemos. — A moto ficará por aqui, Joe... Volto logo! — comuniquei e ele apenas assentiu com a cabeça com um largo sorriso. — Boa noite para ti. Levi não trocava as pernas, mas andava bem devagar. Era impossível saber o que ele pensava com a forma como olhava para a frente. — Nem perguntei do trabalho... Como está? — Cometendo um crime federal em nome da América! — Ele deu de ombros. — Ainda estou me ajustando à delegacia... preciso de tempo. — Que coisa... — Olhei-lhe e ele apenas arfou. — Estamos tentando lidar com uma organização que pode estar instalada em toda a Califórnia, polícia, o jurídico e até a inteligência pode estar comprometida. — Jaula de Veludo... — Foi o nome que me veio em mente automaticamente e ele me olhou com surpresa. — O-onde ouviu? — Isso que dá não visitar puteirö nenhum! — ri. — É um lugar badalado perto da Baía. Se está falando de influência... está falando desse pessoal, com certeza! — Ainda não atendi nada lá para Baía, nem faço ideia de como está hoje. — Ele voltou a ficar pensativo. — É um nome que repete muito no dossiê. — E não disseram ser uma casa de massagem!? — ri. — Julgaram óbvio ou só omitiram por canalhice? — Pode nem ser para eu ir! O grupamento tem dez homens... Não nos comunicamos, mas temos uma missão em comum, cada um num canto. — Se querem infiltrar, mudem de ideia! — alertei. — Não vai dar certo... papo de quem já conheceu — ri. — Quase não saí com vida daquela merdä... — Incomodaria em ajudar? — Ele me perguntou. — Não agora, mas amanhã. Eu arrumo uma desculpa para não ir à delegacia e você me dá o que sabe. — De boa, loiro! — dei de ombros. — Todo bom policial tem um bom informante! — ri. — Você tem uma boa informante que é muito gostosä. Ele acabou rindo. Era impressionante como era transparente com o que sentia, sua preocupação com o colega ficou muito óbvia enquanto caminhava. — Porrä, eu odeio isso! — Ele meneou a cabeça. — Nem inventa de arrumar trabalho! — Eu o repreendi. — Você entrará em casa e dormirá. Posso pernoitar, assim a gente se fala na manhã. — Obrigado, ruiva... Tomara que dê tempo. “Provavelmente já foi...”, lamentei comigo. Levi destrancou a porta e foi direto ao sofá. Sentou com uma postura bem relaxada para terminar sua cerveja e eu cuidei de fechar a porta. A sala da casa de seus pais tinha dois sofás, o que me permitiu apenas me jogar no segundo. Virei em sua direção para me mostrar acordada, presente. Ele não demonstrou vontade de conversar. Ao fim da cerveja, deixou a garrafa sobre a mesa de centro e só tirou a parte de cima da farda para se deitar. — Já visitou seu apartamento? — perguntei. — Não. Acho que se eu for no apartamento, não vou conseguir me impedir de ir atrás dela. — Ele falou meio embolado. — Mas, nem sei o que fazer ainda... — Pode ouvir o conselho da ruiva e só deixar essa mina para lá. Tem coisa melhor por aí! — aconselhei.
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