Capítulo 54. Águas Passadas

1025 Words
Lake Tahoe Airport, South Lake Tahoe, CA — O voo é só ‘pra mim mesmo. — Lucas deu de ombros. — O doutor já está a caminho. Não julgo sábio ir sem ter ninguém para me amparar minimamente. Ele parecia um pouco cansado. Estava lindo com seu terno finíssimo. O perfume era forte. Do tipo que mexia com a cabeça, mas eu consegui manter a linha. Acabei passando a noite com DG, cuidando da guarda da casa e esperando que Lucas saísse. Quando ele disse que viajaria, eu só me convidei para ir. Ele ainda foi paciente e esperou que eu me trocasse na minha casa. Vesti um terninho bem sóbrio, o objetivo era fazer papel de segurança dele. — Não identificaram quem seguiu Sofia pela noite, mas também não ocorreram novas movimentações suspeitas perto da sua casa. Eu vi. — Não dorme mais, anjo? — Ele riu. — Fiquei preocupada. Idiotä! — retruquei. — Quem vai encontrar? — É o pessoal agricultor. — Ele me olhou de soslaio. — DG precisa de uma ajudinha e eu acredito que consigo com eles — deu de ombros. — Achei que já não se envolvia... Tentei não soar preocupada. — Não vou arriscar minha família por pouca merda. Posso me envolver em qualquer coisa ‘pra ninguém tocar num fio de cabelo dos meus — falou. — Você está sob ameaça, Lucas? — perguntei. — Não é possível que esteja só sendo precavido, cara... Ele silenciou e não me respondeu. Antes que eu pudesse falar, deixou o carro para seguirmos ao interior do aeroporto. Apenas segui atrás e tornei a silenciar. Wallace estava muito bem. Virou um coroa gato. Ele me mediu de cima a baixo e eu apenas lhe sorri de canto de boca. Nem o dirigi a palavra para manter o meu papel de segurança séria. — Não devia se expor a situ- — Sei disso, doutor. — Lucas o interrompeu. — Cadê Sofia ou... sei lá? — arfou. — Sofia precisa cuidar de Chloe. Está tudo bem, doutor. Não é necessário que o senhor fique chateado nem nada parecido, tudo bem? — Olhou para ele. — Nós já passamos por isso... — Wallace falou. Lucas não insistiu. Apenas se apresentou ao guichê e nosso voo já estava nos aguardando. No avião, eu fui ao lado dele, observando-o com cautela. O silêncio imperou enquanto o avião levantava voo. Lucas olhou em minha direção e pediu: — Calma, anjo. — Como fico calma? — retruquei. — Clara apareceu por aí. — Ele meneou a cabeça. — Parece que quer dinheiro. Não sei bem o que ela quer, na real. Depois veio com a ideia de conhecer os netos. — Sua mãe está na América? — Wallace arguiu. — Eu não me sinto bem com a ideia de ela chegar perto dos meus filhos. Vai que a loucura dela pode pegar nos outros! — Ele recostou e fechou os olhos. — Ela quer dinheiro... Ela falou isso? — perguntei. — A essa altura, ela ainda está inteira ‘pra andar? — ri. — Dinheiro, ‘né!? — riu. — Teve uma dificuldade com a casa no Norte. Parece que o PCC se instalou por lá e ela perdeu a casa nesse processo... Não sei qual é. — Treta, ‘né? — perguntei. — Com certeza. Nunca me envolvi com esses caras e nem pretendo. Hoje sou mais leal à minha família, mas ainda quero conhecer esse problema. — Hm? Aí entra essa reunião de agora? — Só vou dar o contato do DG ‘pra um rato velho da agricultura. Ele tem ótimos terrenos na Colômbia, se me entende! — Olhou de soslaio. — Entendo... — Assenti com a cabeça. — Sei que esse pessoal paulista tem um bom conchavo com um monte de cartel. Todo mundo racha o Porto de Santos na amizade — deu de ombros. — Entendo. Aí DG chega nesse cara, suposto contato dos caras, ‘pra ver se extrai algo? — arguí. — Por aí. Claro, sem contar uma possibilidade de ganhar mais um espacinho da rota da seda — sorriu. — Okay. Vejo o que posso fazer ‘pra ajudar — suspirei. — Seu medo é ela ter vindo devendo, ‘né? — Pior. É ela vir devendo e achar que pode pagar com a porrä da minha família. — Deu para vê-lo engolir seco. — Então, antes de ajudar, eu quero entender. — Isso é esclarecedor. — Wallace falou. — Desculpa, doutor. — Meneou a cabeça. — Estou... — Ele fechou os olhos e abaixou a cabeça. — Medicado, Lucas? — Wallace perguntou. — Não. O remédio mexe um pouco com meu raciocínio e preciso estar bem para a reunião. — Estava indo bem demais... — Wallace riu. — Lucas, não pode ser teimoso! — Eu falei. — Não vou. Trouxe o remédio. Posso tomar assim que a reunião acabar. — Ele nos olhou. — Ainda não perdi completamente o juízo. — Esperamos! — suspirei. — Obrigado por vir, anjo. — Ele sorriu para mim. Fugi o olhar rápido e me recostei. Realmente não queria instigá-lo num momento tão suscetível. Aqueles olhos fechados e cabeça baixa indicavam intensidade. Era uma tortura lidar com aquilo, mas eu foquei em manter a postura de segurança. Quando o calor foi forte demais, deixei a cabine e fiquei no corredor. De braços fechados, olhando pela janela do avião, a minha cabeça foi realmente muito longe. Eu só conseguia pensar nele e isso era horrível, me sentia má. Afinal, que amiga olharia para um amigo passando mäl e se sentiria tentada a transär com ele? — Não estamos bem? — Wallace me assustou. — Porrä, Wallace! — briguei com ele. — Calma! — riu. — Está ótima. — Ele tornou a me medir de cima a baixo, fechando a cabine após sair. — Você continha ótimo também — ri. — O que houve? Ainda nessa? — Ele se recostou do lado, olhando pela janela. — Nem dá ‘pra acreditar. Nem consegui respondê-lo. Nós até tentamos namorar há alguns anos. O namoro acabou quando chamei ele de Lucas no sexo. Uma merda!
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