Bijou, South Lake Tahoe, CA
Após cozinhar algo para ele, não o acompanhei ao quarto, mas garanti que esse fosse seu destino: só queria que ele deitasse e descansasse.
Minha expectativa era que ele deitasse e ficasse pensando na vida. Felizmente, foi ao doutor e ele o faria repensar tudo que Levi fez desde sempre.
Isso era ótimo!
Estranhei que Matheus estivesse fora por tanto tempo, mas ele chegou à tarde. Tinha um sorrisinho safado no rosto, a boca estava rosada e ele estava suado.
— Aprontando, ‘né? — Eu ri.
— Foi um contratempo na academia. — Ele acabou rindo também. — Como ‘tá a senhora e meu irmão? — Ainda olhou toda a sala em busca de Levi.
— Estou bem e consegui fazer seu irmão dormir.
— Como ele ‘tá? Se dormiu a essa hora é porque não ‘tá bem! — Ele meneou a cabeça, se juntando ao sofá e ligando a televisão. — Os problemas do pai?
— Acho que parte. Ele buscou um doutor hoje. Ficou bem pensativo e eu estimulei que deitasse...
— Saquei... — Ele assentiu com a cabeça.
Ele colocou num jogo de futebol qualquer.
— Fiz a comida, se quiser. — Eu o olhei.
— Porrä, valeu... A senhora já comeu?
O lado ruïm de falar com Matheus é que sempre me tratava como a tia gostosa — era bom e ruïm.
Bom porque ele me respeitava muito.
Ruïm porque ele me fazia sentir velha.
— Sim, já comi! Logo vou partir...
— Soube que tem trabalhado com Levi, tia... — Soou preocupado. — Qual é a da treta? Posso ajudar?
— Eu tinha uma menina a recuperar e seu irmão está, basicamente, combatendo uma máfia de tráfico de influência ou algo parecido. Coincidiu...
Ele só ficou me olhando, ainda preocupado.
— Recuperei minha moça e ele segue com o trabalho dele. Não sei se você pode ajudar... Se bem que, estando em Sacramento, ajudará em algum momento.
— Dessa parte, já ‘tô ciente... mas Levi é igual o pai, viciado em trabalho e até mente pelo próprio vício, se necessário — riu, meneando a cabeça.
— Acho que a tal terapia tem chance de mudar isso — ri. — Ele já estava em dúvida se devia tirar férias. Obviamente, isso é coisa do Wallace.
— Que bom! — Ele riu. — Esse doutor é milagroso. Fez o pai se tratar... Está quase fazendo o irmão tirar férias...
— Pode me ajudar? — Eu o olhei. — Não posso vir sempre, mas não quero que ele exagere com o trabalho. Lidamos com algumas crianças... escravas sexuais.
— Eita! — Ele suspirou.
— Não quero que ele perca o controle sobre si e infelizmente sei o quanto ele se comove com crianças.
— Vou ficar um tempo. Fico de olho! — sorriu.
— Obrigada. Temo que ele só saia por aí, tipo um justiceiro... Na minha vez de passar por isso, não tinha ninguém ‘pra me parar... mas ele tem.
— Estou aqui, tia. Imagino que ‘cê nem consiga parar ele com essa régua moral toda torta — riu.
— Que horror! — gargalhei e ele também.
Recostei para matar o tempo com a televisão.
Matheus teve sua refeição e foi uma ótima companhia. Esperei umas duas horas para ir ao quarto de Levi observar o seu sono.
Para minha surpresa, o loiro estava acordado. Quieto, o olhar azul fitava o teto. Perdido na própria mente, sequer me percebeu quando entrei.
Estranhei que estivesse coberto, mas só fechei a porta devagar. Ele finalmente me olhou e sorriu.
— Sem sono?
— Cochilei... talvez por dez minutos... e o sono me deixou — riu, voltando a olhar para o teto.
— Sente algo? — Eu me aproximei para pousar a mão em sua testa. — Está um pouco febril...
— Não sinto nada. — Ele meneou a cabeça.
— Estou saindo... — Acariciei seus cabelos. — Tenta sossegar, okay? Sem trabalho, sem estresse extra.
— Talvez eu saia para tomar um vinho com a Lombardi — riu. — Não tenho muita vontade de ser boêmio por aí... mas eu me preocupo demais.
— Isso é efeito da terapia, loiro? — brinquei.
— Acho que sim — assentiu com a cabeça, rindo. — Concordo que me preocupo demais... Penso demais... Eu tenho vinte e um anos. Não posso fazer isso comigo.
— Ah, jovem Levi... onde você estava? — ironizei.
— Dormindo, eu acho. — Ele fitou meus olhos. — Abracei responsabilidades demais e isso acabou com a minha concepção de juventude... Isso é doido, ruiva!
— Não seja cruël com você enquanto tem essas reflexões, ouviu? ‘Tá proibido! — Eu o repreendi, apontando o dedo. — Se estiver febril, não sai de casa!
— Sabia que você é linda?
Ele me silenciou do nada.
— Tipo... linda. — Ele tomou minha mão e beijou.
— Que isso, garoto!? — Foi o que consegui arguir.
As maçãs do rosto queimaram e, sem jeito, eu acabei me afastando dele. Respirei fundo e ele riu.
— Foi só um elogio. — De fala mansa com um sorriso despreocupado, ele continuou me observando.
Quase sugando meu ar...
— Se cuida, ruiva. — Voltou a olhar para o teto. — Vou realmente tentar descansar mais... mesmo que só consiga olhar para o teto... É bom, ‘né?
— S-sim... Muito bom! — falei rápido e saí.
De repente, o corpo se rebelou — era só o que me faltava, foi o que pensei enquanto passava pela sala.
— Até mais, tia. Tudo bem? — Tinha até esquecido que Matheus estava na sala até ouvi-lo.
Ele me olhava com certa preocupação.
— S-sim. Está tudo bem. Levi está acordado, mas disse que ainda ficará no quarto tentando dormir... se cuida, hein, moleque! — sorri amarelo.
— Tudo... bem. — Ele me olhou com estranheza.
Só me apressei para fora. Ouvi-lo falar tornou a ecoar em minha mente, me deixando ainda mais acanhada e isso me fez apressar os passos.
Acabei indo para casa andando — chamaria um carro, mas me distraí. Quando lembrei de chamar, eu já estava perto, só abandonei a ideia.