Capítulo 50. Linda!

1033 Words
Bijou, South Lake Tahoe, CA Após cozinhar algo para ele, não o acompanhei ao quarto, mas garanti que esse fosse seu destino: só queria que ele deitasse e descansasse. Minha expectativa era que ele deitasse e ficasse pensando na vida. Felizmente, foi ao doutor e ele o faria repensar tudo que Levi fez desde sempre. Isso era ótimo! Estranhei que Matheus estivesse fora por tanto tempo, mas ele chegou à tarde. Tinha um sorrisinho safado no rosto, a boca estava rosada e ele estava suado. — Aprontando, ‘né? — Eu ri. — Foi um contratempo na academia. — Ele acabou rindo também. — Como ‘tá a senhora e meu irmão? — Ainda olhou toda a sala em busca de Levi. — Estou bem e consegui fazer seu irmão dormir. — Como ele ‘tá? Se dormiu a essa hora é porque não ‘tá bem! — Ele meneou a cabeça, se juntando ao sofá e ligando a televisão. — Os problemas do pai? — Acho que parte. Ele buscou um doutor hoje. Ficou bem pensativo e eu estimulei que deitasse... — Saquei... — Ele assentiu com a cabeça. Ele colocou num jogo de futebol qualquer. — Fiz a comida, se quiser. — Eu o olhei. — Porrä, valeu... A senhora já comeu? O lado ruïm de falar com Matheus é que sempre me tratava como a tia gostosa — era bom e ruïm. Bom porque ele me respeitava muito. Ruïm porque ele me fazia sentir velha. — Sim, já comi! Logo vou partir... — Soube que tem trabalhado com Levi, tia... — Soou preocupado. — Qual é a da treta? Posso ajudar? — Eu tinha uma menina a recuperar e seu irmão está, basicamente, combatendo uma máfia de tráfico de influência ou algo parecido. Coincidiu... Ele só ficou me olhando, ainda preocupado. — Recuperei minha moça e ele segue com o trabalho dele. Não sei se você pode ajudar... Se bem que, estando em Sacramento, ajudará em algum momento. — Dessa parte, já ‘tô ciente... mas Levi é igual o pai, viciado em trabalho e até mente pelo próprio vício, se necessário — riu, meneando a cabeça. — Acho que a tal terapia tem chance de mudar isso — ri. — Ele já estava em dúvida se devia tirar férias. Obviamente, isso é coisa do Wallace. — Que bom! — Ele riu. — Esse doutor é milagroso. Fez o pai se tratar... Está quase fazendo o irmão tirar férias... — Pode me ajudar? — Eu o olhei. — Não posso vir sempre, mas não quero que ele exagere com o trabalho. Lidamos com algumas crianças... escravas sexuais. — Eita! — Ele suspirou. — Não quero que ele perca o controle sobre si e infelizmente sei o quanto ele se comove com crianças. — Vou ficar um tempo. Fico de olho! — sorriu. — Obrigada. Temo que ele só saia por aí, tipo um justiceiro... Na minha vez de passar por isso, não tinha ninguém ‘pra me parar... mas ele tem. — Estou aqui, tia. Imagino que ‘cê nem consiga parar ele com essa régua moral toda torta — riu. — Que horror! — gargalhei e ele também. Recostei para matar o tempo com a televisão. Matheus teve sua refeição e foi uma ótima companhia. Esperei umas duas horas para ir ao quarto de Levi observar o seu sono. Para minha surpresa, o loiro estava acordado. Quieto, o olhar azul fitava o teto. Perdido na própria mente, sequer me percebeu quando entrei. Estranhei que estivesse coberto, mas só fechei a porta devagar. Ele finalmente me olhou e sorriu. — Sem sono? — Cochilei... talvez por dez minutos... e o sono me deixou — riu, voltando a olhar para o teto. — Sente algo? — Eu me aproximei para pousar a mão em sua testa. — Está um pouco febril... — Não sinto nada. — Ele meneou a cabeça. — Estou saindo... — Acariciei seus cabelos. — Tenta sossegar, okay? Sem trabalho, sem estresse extra. — Talvez eu saia para tomar um vinho com a Lombardi — riu. — Não tenho muita vontade de ser boêmio por aí... mas eu me preocupo demais. — Isso é efeito da terapia, loiro? — brinquei. — Acho que sim — assentiu com a cabeça, rindo. — Concordo que me preocupo demais... Penso demais... Eu tenho vinte e um anos. Não posso fazer isso comigo. — Ah, jovem Levi... onde você estava? — ironizei. — Dormindo, eu acho. — Ele fitou meus olhos. — Abracei responsabilidades demais e isso acabou com a minha concepção de juventude... Isso é doido, ruiva! — Não seja cruël com você enquanto tem essas reflexões, ouviu? ‘Tá proibido! — Eu o repreendi, apontando o dedo. — Se estiver febril, não sai de casa! — Sabia que você é linda? Ele me silenciou do nada. — Tipo... linda. — Ele tomou minha mão e beijou. — Que isso, garoto!? — Foi o que consegui arguir. As maçãs do rosto queimaram e, sem jeito, eu acabei me afastando dele. Respirei fundo e ele riu. — Foi só um elogio. — De fala mansa com um sorriso despreocupado, ele continuou me observando. Quase sugando meu ar... — Se cuida, ruiva. — Voltou a olhar para o teto. — Vou realmente tentar descansar mais... mesmo que só consiga olhar para o teto... É bom, ‘né? — S-sim... Muito bom! — falei rápido e saí. De repente, o corpo se rebelou — era só o que me faltava, foi o que pensei enquanto passava pela sala. — Até mais, tia. Tudo bem? — Tinha até esquecido que Matheus estava na sala até ouvi-lo. Ele me olhava com certa preocupação. — S-sim. Está tudo bem. Levi está acordado, mas disse que ainda ficará no quarto tentando dormir... se cuida, hein, moleque! — sorri amarelo. — Tudo... bem. — Ele me olhou com estranheza. Só me apressei para fora. Ouvi-lo falar tornou a ecoar em minha mente, me deixando ainda mais acanhada e isso me fez apressar os passos. Acabei indo para casa andando — chamaria um carro, mas me distraí. Quando lembrei de chamar, eu já estava perto, só abandonei a ideia.
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