Capítulo 27. Juventude

1027 Words
Lake Valley, South Lake Tahoe, CA Era só um pequeno pedaço de chão onde haviam pessoas demais, todas amontoadas umas sobre as outras, fazendo o que estavam habituados a fazer. O pai com seus gráficos e seu caderno... A mãe com suas risadas... Chloe com seus desenhos... Matheus vestindo sua farda, sempre vigilante. Lindsay estava com a criança no colo e Van estava às suas costas, envolvia sua cintura e beijava seu pescoço, sorria e olhava em minha direção. O major que me dava ordens no Exército; o sargento que me dava ordens no Departamento de Polícia; o perito e alguns dos policiais todos enfileirados. Os dois soldados que matei estavam desfigurados no chão, exatamente como lembrava que os deixei após o que eu julgava um justo acesso de raiva. Não me sentia mover tão bem, como se o corpo estivesse lento. Ainda buscaria abrigo na minha família, mas duas moças pararam à minha frente. Congelei. — Por que não me salvou? — A mais nova, de aparentes dez, perguntou com lágrimas nos olhos. Engoli seco e senti meu olhar lacrimejar. A pele negrä estava desidratada e ela era bem magra. Ainda estava nua, tinha o cabelo bagunçado e um inchaço no rosto de um provável golpe. Sangue escorria por entre suas pernas. A outra era mais velha, mas ainda não estava em idade de realmente se relacionar com ninguém — muito menos um homem formado, como eram os soldados que eu vi removerem o resto de inocência delas. — Atrasado... — Foi a fala da outra. — Loiro... *** — Loiro! — Natasha me acordou no susto. Ela me agitava e parecia apreensiva. Sentia um calor do inferno e o caminho de uma lágrima no rosto. A sensação era que o ar estava faltando, mas isso diluiu até rápido. — Calma... — Ela engoliu seco. Olhei ao redor e eu ainda estava deitado no sofá. — Manhã? — Notei a pouca luz entrando na sala. — Quase... — Ela riu. — Bom dia! — Madrugada ainda? — Franzi o cenho, sentando. — O que houve? Caiu da cama? — Tentei brincar. — Acordo cedo — riu. — Você estava muito agitado, vi as lágrimas e fiquei preocupada. — Ela enxugou meu rosto. — Não é habitual, ‘né!? — Incomum mesmo. — Respirei fundo. — Estou terminando de fazer o café. Já aviso que a refeição é ultra saudável! — gargalhou. — Se tiver alguma objeção, peça algo na cafeteria. — É razoável! — ri. — Como foi com Lauren? Ela adorou, pelo que ouvi falar por aí — falou com certa despretensão. Levantei para acompanhá-la à cozinha, que já estava perfumada com o cheiro de café e pães salgados. — Razoável. Ela é uma pessoa interessante, doce e muito inteligente. Acabamos... ‘né!? — dei de ombros, acanhado. — Nada muito... forte, mas... não neguei. — Hm... o que seria algo forte? — Ela riu. — A cabeça ainda me prega peças... Faz eu sentir que estarei traindo Lindsay se eu decidir ter com alguém, sabe!? — suspirei. — Sim, eu sei que é idiotä! — Claro que é. Até porque nós transamos... Fugi o olhar para tentar disfarçar o quanto lembrar disso me deixava acanhado de estar ali. — Não adianta... Eu não esquecerei! — riu alto. — Por que não dormir com ela? Aposto que ela ficou cheia de fogo... um homão desse... provavelmente ela queria. — Só não consegui avançar. — Tenho que dar aulas de como chegar numa menina e transär com ela!? — brincou, se aproximando com a cafeteira para servir as duas xícaras. — Não tenho o menor interesse de me envolver com muitas mulheres. — Meneei a cabeça. — O corpo precisa e eu sei, mas não posso me tornar refém disso. — Hm... que maduro! — Quando deixará a ironia? — arfei, incomodado. — Quando você decidir ser o maior safado dessa cidade e comer todas as vagabundas! — Ela me olhou, como se fosse um pecador por não fazer aquilo. — Não vai acontecer! — Acabei rindo. Ela acabou rindo, mas sentou à mesa. — Sei que não, loiro! — Seu tom ficou mais casual e menos jocoso. — Poderia tentar. Sexo casual faz parte da vida... Tem muita moça que gosta. — Nem estou habituado a andar com camisinha por aí — dei de ombros. — As coisas são bem mais metódicas na minha cabeça do que parecem. — Você ainda quis transär comigo. Só precisei assumir o controle para te impedir de gozar dentro. — Ainda não é o mais ideal e sei. Pode não parecer, mas sou responsável! — sorri. — Apesar de você tentar quebrar meu senso de responsabilidade há anos! — Ah, eu tento te fazer relaxar — sorriu. — Você é sempre muito sério, sempre muito focado. Não é ruïm, mas te dá outras fraquezas de difícil superação. — Discordo. — Tomei a xícara para beber. Ela se aproximou rápido e parou o rosto perto do meu enquanto descendo uma carícia pelo meu peito. Fitando o verde olhar era possível ver o traço luxurioso e predatório da noite em que tivemos. Seu lábio se aproximou apenas para os hálitos se chocarem. — R-ruiv- — Um incontrolável gemido me interrompeu quando sua mão despertou uma ereção. Senti os olhos revirarem num piscar. O corpo estremeceu enquanto um arrepio se alastrou. Trinquei os dentes e ela ainda tinha os olhos fixados nos meus. — O que eu faço não é exclusividade minha, loiro! — falou, permitindo que nossos lábios se tocassem. — Do contrário, é uma profissão muito competitiva. — Q-que... — Não pude tecer uma frase com ela iniciando outra carícia quando abri a boca para falar. Dessa vez, eu apenas esqueci. — É bom ser reservado, cuidar de sua saúde, mas você precisa de experiência de vida para evitar que uma filha da putä como eu arruíne sua vida — aconselhou. — E-entendi — assenti com a cabeça. — Não é maldade, loiro! — Ela subiu a carícia ao meu rosto. — Você não será um cretino por isso. Será só jovem, como realmente é, vivendo sua vida.
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