Lake Valley, South Lake Tahoe, CA
Era só um pequeno pedaço de chão onde haviam pessoas demais, todas amontoadas umas sobre as outras, fazendo o que estavam habituados a fazer.
O pai com seus gráficos e seu caderno... A mãe com suas risadas... Chloe com seus desenhos... Matheus vestindo sua farda, sempre vigilante.
Lindsay estava com a criança no colo e Van estava às suas costas, envolvia sua cintura e beijava seu pescoço, sorria e olhava em minha direção.
O major que me dava ordens no Exército; o sargento que me dava ordens no Departamento de Polícia; o perito e alguns dos policiais todos enfileirados.
Os dois soldados que matei estavam desfigurados no chão, exatamente como lembrava que os deixei após o que eu julgava um justo acesso de raiva.
Não me sentia mover tão bem, como se o corpo estivesse lento. Ainda buscaria abrigo na minha família, mas duas moças pararam à minha frente.
Congelei.
— Por que não me salvou? — A mais nova, de aparentes dez, perguntou com lágrimas nos olhos.
Engoli seco e senti meu olhar lacrimejar.
A pele negrä estava desidratada e ela era bem magra. Ainda estava nua, tinha o cabelo bagunçado e um inchaço no rosto de um provável golpe.
Sangue escorria por entre suas pernas.
A outra era mais velha, mas ainda não estava em idade de realmente se relacionar com ninguém — muito menos um homem formado, como eram os soldados que eu vi removerem o resto de inocência delas.
— Atrasado... — Foi a fala da outra. — Loiro...
***
— Loiro! — Natasha me acordou no susto.
Ela me agitava e parecia apreensiva.
Sentia um calor do inferno e o caminho de uma lágrima no rosto. A sensação era que o ar estava faltando, mas isso diluiu até rápido.
— Calma... — Ela engoliu seco.
Olhei ao redor e eu ainda estava deitado no sofá.
— Manhã? — Notei a pouca luz entrando na sala.
— Quase... — Ela riu. — Bom dia!
— Madrugada ainda? — Franzi o cenho, sentando. — O que houve? Caiu da cama? — Tentei brincar.
— Acordo cedo — riu. — Você estava muito agitado, vi as lágrimas e fiquei preocupada. — Ela enxugou meu rosto. — Não é habitual, ‘né!?
— Incomum mesmo. — Respirei fundo.
— Estou terminando de fazer o café. Já aviso que a refeição é ultra saudável! — gargalhou. — Se tiver alguma objeção, peça algo na cafeteria.
— É razoável! — ri.
— Como foi com Lauren? Ela adorou, pelo que ouvi falar por aí — falou com certa despretensão.
Levantei para acompanhá-la à cozinha, que já estava perfumada com o cheiro de café e pães salgados.
— Razoável. Ela é uma pessoa interessante, doce e muito inteligente. Acabamos... ‘né!? — dei de ombros, acanhado. — Nada muito... forte, mas... não neguei.
— Hm... o que seria algo forte? — Ela riu.
— A cabeça ainda me prega peças... Faz eu sentir que estarei traindo Lindsay se eu decidir ter com alguém, sabe!? — suspirei. — Sim, eu sei que é idiotä!
— Claro que é. Até porque nós transamos...
Fugi o olhar para tentar disfarçar o quanto lembrar disso me deixava acanhado de estar ali.
— Não adianta... Eu não esquecerei! — riu alto. — Por que não dormir com ela? Aposto que ela ficou cheia de fogo... um homão desse... provavelmente ela queria.
— Só não consegui avançar.
— Tenho que dar aulas de como chegar numa menina e transär com ela!? — brincou, se aproximando com a cafeteira para servir as duas xícaras.
— Não tenho o menor interesse de me envolver com muitas mulheres. — Meneei a cabeça. — O corpo precisa e eu sei, mas não posso me tornar refém disso.
— Hm... que maduro!
— Quando deixará a ironia? — arfei, incomodado.
— Quando você decidir ser o maior safado dessa cidade e comer todas as vagabundas! — Ela me olhou, como se fosse um pecador por não fazer aquilo.
— Não vai acontecer! — Acabei rindo.
Ela acabou rindo, mas sentou à mesa.
— Sei que não, loiro! — Seu tom ficou mais casual e menos jocoso. — Poderia tentar. Sexo casual faz parte da vida... Tem muita moça que gosta.
— Nem estou habituado a andar com camisinha por aí — dei de ombros. — As coisas são bem mais metódicas na minha cabeça do que parecem.
— Você ainda quis transär comigo. Só precisei assumir o controle para te impedir de gozar dentro.
— Ainda não é o mais ideal e sei. Pode não parecer, mas sou responsável! — sorri. — Apesar de você tentar quebrar meu senso de responsabilidade há anos!
— Ah, eu tento te fazer relaxar — sorriu. — Você é sempre muito sério, sempre muito focado. Não é ruïm, mas te dá outras fraquezas de difícil superação.
— Discordo. — Tomei a xícara para beber.
Ela se aproximou rápido e parou o rosto perto do meu enquanto descendo uma carícia pelo meu peito.
Fitando o verde olhar era possível ver o traço luxurioso e predatório da noite em que tivemos. Seu lábio se aproximou apenas para os hálitos se chocarem.
— R-ruiv- — Um incontrolável gemido me interrompeu quando sua mão despertou uma ereção.
Senti os olhos revirarem num piscar. O corpo estremeceu enquanto um arrepio se alastrou. Trinquei os dentes e ela ainda tinha os olhos fixados nos meus.
— O que eu faço não é exclusividade minha, loiro! — falou, permitindo que nossos lábios se tocassem. — Do contrário, é uma profissão muito competitiva.
— Q-que... — Não pude tecer uma frase com ela iniciando outra carícia quando abri a boca para falar.
Dessa vez, eu apenas esqueci.
— É bom ser reservado, cuidar de sua saúde, mas você precisa de experiência de vida para evitar que uma filha da putä como eu arruíne sua vida — aconselhou.
— E-entendi — assenti com a cabeça.
— Não é maldade, loiro! — Ela subiu a carícia ao meu rosto. — Você não será um cretino por isso. Será só jovem, como realmente é, vivendo sua vida.