Stateline, South Lake Tahoe, California
— É complicado. Eu até tentei, mas ainda não tenho confiança para essas coisas. — Matheus falava, bebendo sua cerveja e olhando para a estrada.
— Eu tive confiança e deu no que deu — dei de ombros, olhando-o. — Esperto é você que não arrisca.
— Cada um tem seu tempo. — O pai falou.
Estávamos só nos três. Como planejei com a ruiva, ela saiu com a mãe e a pequena enquanto nós ficamos em casa acompanhados de churrasco e cerveja.
O pai só tomou a primeira e voltou ao seu chá.
— Demorou para eu achar alguém como Sofia. — O pai riu. — Até tinha minha melhor amiga, mas a gente não conseguiu dar certo como casalzinho.
— E o que deu errado? — perguntei.
— Eu a traí. Pior, ela me pegou traindo, mas eu já tinha traído muito mais vezes. Eu não tinha controle de absolutamente nada na minha vida.
— Era bem complicado, ‘né? — Matheus o olhou.
— Já traiu a mãe? — Tornei a perguntar.
— Não, nunca tive vontade também. Não só porque me apaixonei de verdade, mas porque eu reassumi o controle do meu corpo. Aí mudou.
— Entendo... Estou para buscar um médico — suspirei e o pai me olhou com preocupação. — Tive um... aquela sensação... — Tornei a respirar fundo e silenciei.
Senti todo o corpo arrepiar, só de lembrar.
— É bom buscar ajuda. — Matheus falou. — O pai passava muito mäl. Era difícil, ‘né!? — Olhou para o pai, que apenas assentiu com a cabeça, sorrindo. — Vocês precisam me avisar mais das coisas — repreendeu.
— Porrä, tem tanta coisa... — falei.
— Chama que eu venho. São só duas horas de carro. Largo o trabalho! — Soou preocupado. — Não tem tempo ruïm comigo, sempre vou vir por vocês.
— Não há necessidade. Seu pai pode ajudar! — Ele falou com tranquilidade. — Não existe problema grande demais. Nunca vai existir! Eu lido.
— Não conheço muito da sua vida, meu pai, mas não precisa pisar fora da linha que já traçou um dia, tudo bem? — falei e ele me olhou com certa apatia.
— Isso é conversinha de Natasha, ‘né!? — riu.
— Ela não falou muito, mas soou preocupada com você. Eu estou preocupado com você; a mãe está preocupada. A Chloe acha que tem alguém morrendo.
— Aposto que essa empatia toda é da sua avó, mãe de Sofia. — O pai riu alto e Matheus acabou assentindo. — Dona Aurora... — Os dois ficaram melancólicos.
— A mãe sempre falou muito dela. Ouvir do senhor é uma raridade — ri. — E a vó, sua mãe?
— Infelizmente viva — deu de ombros. — Enfim, meninos... precisam se comportar e nada de arrumar mais moças problemáticas por aí — falou para mim.
— Vou me esforçar...
— Indo nessa maré que está é difícil. — O pai disse e eu franzi o cenho. — Não se faz de desentendido.
— Hm... já tem um novo amor? — Matheus riu.
— Não. — Meneei a cabeça, acanhado.
— Cuidado. É só isso que peço. — O pai disse.
— Eu tento.
— Se lidar com uma mulher de meia-idade, que parece com seu pai, apenas ignora, por favor. — Ele pediu. — Não se deixa ouvir baboseiras de fantasmas.
— A vó — concluí e ele assentiu. — Okay.
— Na próxima semana tem a festa da sua irmã. Sua mãe já esquematizou tudo. Vai ser aqui mesmo. Podem aparecer, ‘né!? — Ele nos observou.
— Folgo sábado, domingo e segunda — falei.
— Estou de férias. Só vou partir quando voltarmos do Brasil. Quero ver o memorial da irmã.
— Melhor ainda... Só faltaria Levi. — O pai riu.
— É provável que não irei. Muito trabalho.
— Fica para uma próxima, não tem problema. Só seja comportado enquanto estivermos fora. Não arruma filho, nem outra loira daquelas, okay? — riu.
— Sim, senhor! — assenti com a cabeça, rindo.
Nós ainda jogamos meia dúzia de conversa fora e, na hora de partir, o pai e Matheus acompanharam até o apartamento. O pai foi quem dirigiu.
Assim que Matheus entrou, apontei ao quadro com os rostos de policiais e ele se aproximou para observá-lo com atenção, franzindo o cenho.
— Trabalho de casa? — O pai foi retórico.
— Sim.
— Posso dizer o que eu sei deles. — Matheus apontou aos policiais localizados em Sacramento. — Os sargentos são os mais perigosos. O resto é mais fácil.
— Defina mais fácil — pedi.
— Pequenas infrações. Um boquete para pagar multa, esse tipo de coisa infantil — deu de ombros. — Os sargentos fazem vista grossa para merdas maiores.
— Então começar por você pode ser bom... — Pensei alto. — Aqui é uma merda, não sou o melhor em socializar e me envolvi em uma merda maior também.
— No quê? — O pai perguntou.
— Escravidão sexuäl. Eu vou matar todo mundo! — Senti o olhar lacrimejar, mas respirei fundo. — Não importa o quanto eu pense ou repense... fico com raiva!
O pai e o irmão se entreolharam, mas nada falaram. Era complexo e eu sabia, mas estava entalado na garganta e parecia que me afogaria.
Chamei a atenção do irmão de volta ao mapa para seguirmos o trabalho. Isso tornava mais fácil diluir o incômodo assunto que os silenciou.
Matheus ajudou com os agentes de Sacramento até conhecia um pessoal da inteligência. Nenhum dos rostos que estavam no mapa, mas gente boa.
O que foi melhor ainda para mim.
A área de atuação era grande demais, eu era só um e só podia contar com angariar informações e levar essas informações ao meu superior.
Felizmente, eu poderia ir a Sacramento sem pensar em represálias, afinal, ainda era a California.
— Vai ficar o mês? — Eu o perguntei.
— Sim, ainda vou ter uns dias depois de voltar da viagem. — Matheus assentiu. — Conta comigo.
— Se quiser ficar aqui. Posso usar sua ajuda.
Ele olhou o pai que apenas deu de ombros. O pai estava com o pensamento distante, apenas nos observava enquanto trocávamos figurinhas.
— Então traz tudo... e fica.