Spring Creek, South Lake Tahoe, CA
— Não temos tido dificuldades. Ela é muito calma e muito doce — falava a doutora. — Às vezes acorda com pesadelos e essas coisas. Nada a se preocupar.
— Imagino que seja habitual. Infelizmente. — Respirei fundo. — Posso ajudar com alguma coisa?
— Fico feliz que tenha vindo! — A médica sorriu. — Ela perguntou bastante de você. Você marcou a vida dessa menina, senhor. É uma honra conhecê-lo!
Só assenti com a cabeça. Peguei o caderno para me reunir com Natasha, que tomava seu vinho na sala.
— Estamos prontos para ir, loiro? — Natasha me olhou com um sorriso de canto de boca.
— Estou! — assenti. — Seu cliente não vem?
— Hoje, não viemos ter com ele e isso já foi conversado entre nós. Está tudo bem. — Ela sorriu.
— Ele não está vivendo por aqui?
— Não tenho certeza — deu de ombros, terminando a taça e se levantando. — Deve estar tão pilhado ainda que fica o dia fora.
— Se encontrar com ele, tenta fazer ele se cuidar — pedi. — É complicado passar por isso e ele deve estar pensando besteira... eu estaria no lugar dele.
— Vou cuidar disso depois. Agora, loiro, ‘cê vem comigo ‘pra casa e vai terminar de usar sua folga como qualquer um faz... dormindo! — Soou repreensiva.
Nem respondi, só respirei fundo e a segui à porta.
— Falo com o boy da segurança e já volto. Pode esperar no carro. — Ela fez uma carícia em meu braço.
Segui ao carro para ligar e manobrar. O caderno que Thereza deu estava ao lado e eu só o observei de longe enquanto respirava fundo e esvaziava a mente.
Ou tentava...
Natasha não demorou muito e entrou no banco de trás. Sentou no banco do meio para passar uma das mãos em meu ombro e me olhou sorrindo.
— Qual o plano com o que a mocinha deu? — Ela olhou para o caderno. — Já pensou sobre isso?
— São os nomes das vítimas, ainda não olhei para saber se posso fazer algo realmente — dei de ombros, dando partida. — Vejo isso mais tarde.
— Vai me ouvir e descansar? — riu surpresa.
— Quero ter uma folga em paz. Nem consegui levar a pequena no colégio, já que ela saiu cedo com a mãe... Não sei se tenho estômago para isso também.
— Não se deixa abater, hein! — aconselhou com preocupação. — Imagino que não seja fácil. A menina partiu meu coração também, mas, fica de boa.
— Vou ficar... Acha que... — Diminuí a velocidade para olhá-la sobre os ombros. — Acha que eu devia tirar férias ou algo do tipo? — Franzi o cenho.
Isso era realmente algo que estava martelando na minha cabeça. O médico disse que uma pausa poderia me fazer bem, mas eu não tinha certeza.
— Se puder, seria realmente bom, ‘né?
— Não acho que sou controlador ou algo do tipo — falei com estranheza, franzindo o cenho.
— Isso é coisa do médico, ‘né? — Ela riu.
— No trabalho, eu até entendo... Mas, não acho que isso passa para minha vida pessoal realmente.
— Ele mexeu contigo, ‘né?! — Natasha gargalhou, se deitando no banco de trás. — Relaxa, loiro! Se você está pensando, ele cumpriu com o trabalho dele.
— Ele me deixou neurótico, ruiva! — Franzi o cenho, meneando a cabeça. — Eu me esforço para não ser desagradável e não sei se sou agora.
— Desagradável não te define, ‘né?
— Sei lá. — Engoli seco.
Voltei a me ater na direção para voltar ao apê. Subindo, a porta estava trancada e Matheus não estava.
— Lido com seu almoço enquanto você olha o caderno, o que me diz? — Ela sugeriu. — Confesso que estou morrendo de fome! — riu.
— Raridade!
Segui com ela à cozinha onde ela começou a preparar as coisas e eu me encorajei para ler o que a mocinha anotou em seu caderno.
Era realmente focado nas outras vítimas com quem ela lidou, mas também tinha o nome e descrição de alguns clientes, que preferiam por esse ou aquele.
Colocou os nomes dados pelos criminosos e os nomes que as crianças lembravam de ter antes — nem todos realmente lembravam o verdadeiro nome.
Algumas tentativas de desenho exibiam diferentes partes do corpo com marcas, não ficou tão claro o que eram e nem Natasha entendeu bem.
— Depois eu pergunto.
O pior das anotações foram as descrições dos tais clientes, que ficaram no final. Ela anotou tudo, incluindo o tom de voz e o quão ruins eles eram.
— Hm... tem vodka aqui, loiro? — Natasha foi quem me redespertou para a realidade. — Essa sua cara não está bem mesmo! — Ela torceu o rosto.
— Deve ter cerveja, eu acho... Não sei.
Fechei o caderno e respirei fundo.
— Posso comprar — ofereci.
— Depois eu trago, tudo bem. O que houve?
— Clientes... — Meneei a cabeça.
— Tentamos identificar depois. — Ela falou.
— Algumas descrições são mais fáceis do que outras. Vou dar uma olhada pelos nomes das crianças, talvez nossa listinha de desaparecidos tenha eles.
— Alguns são óbvios nativos de outras terras, isso vai me obrigar a ter, pelo menos, com os federais — arfei. — Vou ter que ir na base primeiro.
— O lado bom é que federal você já é! — riu.
— Só não sou policial, ‘né!? — Meneei a cabeça. — Eles vivem em cabo de guerra. FBI e CIA. Não soube de uma ocasião onde as Forças Armadas se envolveram...
— Cabo de guerra... Tipo, conflito mesmo?
— Disputando poder. Nem é novidade nas Forças. Nosso envolvimento nesse caso quase me dá certeza que estamos entrando na disputa. Uma merda!
— Perigoso, não? — Ela soou apreensiva.
— Muito mais perigoso do que posso imaginar. O ponto importante é: a quem interessa isso? — arfei. — Sou peixe muito pequeno para me envolver...
— Tarde, ‘né, loiro?