Capítulo 25. Doce e Amargo

1040 Words
Tahoe Valley, South Lake Tahoe, California Ficamos juntos por parte da manhã. Ela propôs uma caminhada e eu gostei da ideia, ainda me lembrava de algumas trilhas e apresentei uma. — Natasha falou que estão tentando te acusar de tentar matar o bebê. — Ela foi quem acabou puxando o assunto, já que eu não tinha uma forma de fazer. Achei errado me aproveitar e isso me impediu. — O doutor ficou feliz. Espalhou por todo o hospital sobre você e a manobra. — Abaixou a cabeça com chateação. — Como é que pode alguém ser assim? — Tudo indica que a criança consumiu algum comprimido... benzodiazepínico... o que só me faz pensar em remédio de doido. — Meneei a cabeça. — Não sabia que ela tinha o menino? — Eu esperava reatar com ela. Fiquei cerca de dois anos fora. Nesses dois anos, eu nunca olhei para uma mulher — suspirei. — Era ela que eu queria! Olhei-lhe e ela parecia surpresa. — Ela terminou o noivado comigo por uma carta. Quando eu a reencontrei, não só pensei em reatar, mas eu sentia saudade de beijá-la, de tocá-la... — Dois anos! — Ela acabou rindo e eu também. — Pois é. Não queria ser um canalha e estar lá por isso, mas ela correspondeu ao meu beijo e foi inevitável que eu só explodisse em desejo, sabe!? Não pude me impedir de ficar acanhado. — Aí ouvi o menino e depois ouvi o menino ainda mais nítido, porém cansado. Corri e tentei salvá-lo... Você deve ter visto, já que estava na recepção, o momento em que eu tirei a dúvida sobre ele. — S-sim. Desculpa. Eu vi e ouvi. — Acabei sendo emocionado ao fim, acontece — dei de ombros. — Não é como se mais da metade da cidade não soubesse dessa história. — Será que não é ela? — Ela me olhou. — Parte da ideia era pedi-la para ver os registros do hospital. É o único na cidade. Eu só me desencorajei — ri. — Não seria correto pensar em usá-la. — Ajudarei uma criança e um bom homem. Não me incomodo — riu. — Esperava que Natasha me colocasse em outra furada, mas ela não mentiu. Paramos para tomar nossa água. Era um pedaço mais alto da trilha, então a paisagem era muito bela. — Ela é terrível! — ri. — Sei. Ela disse que era diferente, bom... e realmente, você parece um bom homem, Rodrigues. — Sua doçura é marcante, Lombardi. Ela apenas sorriu, se aproximou para um beijo e acabamos namoricando por ali. Ainda nada quente. — Precisarei estar no serviço por volta de uma hora. Se quiser vir, eu observo os registros. Não é muito legal, eu sei, mas posso te dar uma cópia. — Obrigado. Prometo que ninguém saberá que foi você quem me deu! — sorri-lhe. — Resisto à tortura! — Nem duvido... — Ela gargalhou. — Meu objetivo no Exército era me tornar um agente de elite, forças especiais. Larguei a faculdade de Educação Física para me formar militarmente. — Uau! — Ela arregalou os olhos. — Corajoso! — Tenho certeza que só estou conseguindo lidar com o caos por causa disso — suspirei. — Vamos? Ela assentiu e seguimos ao acampamento. Desmontamos tudo para eu levá-la em sua casa. Não aceitei entrar, fiquei no carro. O caminho até o hospital foi muito tranquilo e o tal médico me cumprimentou novamente com o mesmo entusiasmo. Acompanhei Lauren até a recepção. Suas colegas ficaram ouriçadas ao chegarmos juntos e se ouriçaram ainda mais ao ter certeza que eu a acompanhava. Nunca gostei de chamar atenção, então nem olhei muito apenas para evitar que se sentissem convidadas a uma interação indesejada. — Espera um pouco. Eu já volto! — Ela sorriu. Apressou-se para o interior, provavelmente para trocar a roupa e se preparar para assumir. Sentei à recepção de braços cruzados e ela nem se demorou. Já chegou vestida com o uniforme que muito se assemelhava a um terno feminino de cor branca — daqueles que tem a saia justa no lugar da calça. Assumindo seu lugar, ela ainda papeou algo com a recepcionista que estava rendendo. A moça saiu e ela demorou uns cinco minutos para me chamar. — Preciso que me dê seus documentos, senhor! — falou com o seu melhor sorriso. — Acredito que não será um problema, se eu marcá-lo para a sexta-feira. — Nenhum. — Eu mexi na carteira, acabei lembrando que me comprometi a visitar um doutor, mas preferi deixar isso para um outro momento. Entreguei o documento e ela digitou por alguns instantes. Não demorou para algumas folhas serem imprimidas. Ela pegou um envelope para colocar as folhas — usando como desculpa não ter grampos. Provavelmente para não ter os papéis filmados. — Será uma honra revê-lo! — sorriu acanhada. Retribuí o sorriso, peguei o envelope e o documento para sair. Fui ao estacionamento do meu prédio para ver o histórico do menino. Para a surpresa de zero pessoas, ele chegou a dar entrada por cinco vezes no hospital. O motivo era o mesmo e eu confesso que fiquei muito triste. Crianças têm algo especial, que é só delas. São muito frágeis, mas também são o corpo mais protegido desse mundo — ao menos, foi essa a minha conclusão. Era impossível ele sobreviver tanto! Observei a hora e era tarde para encontrar Van saindo para o trabalho, mas eu poderia encontrá-lo na delegacia — nossas folgas não coincidiam. Ainda entrei em contato com o perito para ele me dizer onde ele estava: “Contanto que não arrume briga, eu te ajudo a achar”, foi só o que ele exigiu. Estava sozinho na ronda, seu parceiro ainda estava fora e não era habitual a troca de parceiros — para evitar atritos no período de adaptação. Ele estava próximo às montanhas de esqui. Estacionado, tomava um café do lado de fora do carro e eu apenas segui para estacionar ao seu lado. — Sei que estava fora — falei ao abaixar o vidro. — Espero que ame o garoto. Não quero me arrepender. — Tirei os papéis do envelope e joguei em sua direção. — Q-quê- — Não fiquei para ouvir. Só saí.
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