Capítulo 11. Superar ou Morrer...

1042 Words
Bijou, South Lake Tahoe, CA Comprei o apartamento num prédio privilegiado às margens da Praia de El Dorado. No terceiro andar, a visão era linda a qualquer hora do dia. O edifício tinha o próprio estacionamento, estava perto de tudo que era tipo de comércio. Não era necessário usar apenas escadas, dado o elevador. Éramos vizinhos de dois hotéis: um três estrelas e um quatro estrelas. Os vizinhos eram agradáveis em maioria — nós éramos os desagradáveis na época. Lindsay era bem ciumenta, então os surtos de ciúmes sempre eram motivo de incômodo a todos. O pai dividiu o pagamento comigo. Toda a mesada que eu apliquei foi usada naquele apartamento. Cheguei para fazer uma limpa. Tudo que era dela e permanecia no apê foi para o lixo. Uma empresa de mudanças costumava alugar carregadores e tirei até parte dos móveis, com foco nos estofados de casa. Comprava outros, mas não queria arriscar ter algo que poderia ser o lugar onde ela fez um filho com o único desgraçado que eu já julguei amigo na vida. O ruïm era o misto de tristeza e raiva que só acumulou, entalou na garganta. A vontade era gritar para tentar desafogar meus pulmões daquela agonia. Terminando, eu me sentei na entrada do prédio. O calor terrível já me afetava de novo. O mínimo desequilíbrio emocional fazia o corpo tremer sem parar, como um maldito ataque nervoso. Respirei fundo por algumas vezes. Subi ao apê usando as escadas, crendo que as janelas ajudariam com o calor — funcionou um pouco. Tomei um banho para ir à academia do prédio. Não era habitual que eu fosse antes, já que ela era muito visitada pelas mulheres do lugar. Mas, eu já não precisaria me importar com essas coisas. Tirei cerca de duas horas, mas o telefone tocou. Era uma mensagem do sargento na delegacia, me convidando para falar de uma tentativa de homicídio. Não fazia a menor ideia do que ele falava. Num primeiro momento, pensei que Natasha decidiu agir contra Lindsay e algo deu errado no processo — já que era uma tentativa, não um homicídio. “Vou em qual condição?”, respondi. “Testemunha, por ora.” A resposta soou ainda pior, mas não insisti. Corri escadaria acima para me arrumar de forma um pouco casual, mas não vesti a farda — nem gostava daquilo. Estava com o carro do pai, um Mercedes que chamava mais atenção do que Natasha andando de lingerie na rua — se acontecesse, é claro. Esperava encontrar qualquer coisa na delegacia, ser chamado por qualquer motivo, mas cheguei na sala do sargento e Van era quem estava lá com ele. Não o encarei para a raiva que borbulhou em mim não piorar. Fechei os olhos e suspirei duas vezes. — Entra, Rodrigues! — O sargento chamou. Cerrei os punhos e respirei fundo uma última vez para fechar a porta e ir à segunda cadeira disponível. Obviamente, me afastei para não perder a cabeça. — Não sabia que tinha voltado. — Van falou. Estudamos juntos. Éramos dois nerds, filhos de estrangeiros. Precisávamos de proteção, mas éramos opostos: ele era mais brigão e eu era mais na minha. Sabíamos nos proteger e acabamos nos unindo. Filho de uma colombiana e um alemão, Van era esguio como a mãe, alto como o pai. De olhar castanho-claro, cabelo cortado e um bigode safado — que acabou incitando minha raiva, sem ter realmente um motivo. — Do que estamos tratando? — perguntei. — Meu filho e um suposto comprimido. — Van falou. — Não sei o que houve, mas Lindsay disse que você estava lá e ajudou com Heimlich. O que houve? — Caralhö. Não acredito que, de todos, Van, você foi o filho da putä que decidiu fazer isso comigo! Se não falasse aquilo, eu explodiria. — Vocês têm problemas? — O sargento arguiu. — Estou tentando não ter — falei ao sargento. — De qualquer forma, sim, eu estava na casa da Lindsay. Convidei para um vinho e ela aceitou o almoço. — Quê!? — Van perguntou. — Se você tivesse tirado uma única daquelas malditas cartas para me dizer que você estava com ela, eu juro que eu não estaria tão puto agora, Van! Cerrei os punhos, ameaçando com o olhar. — Porrä, como que eu faria isso!? — Com a porrä das mãos que você usou para tirar a roupa dela e fazer um filho. Que tal!? — ironizei, rindo. — Ei, ei! Não é sobre vocês — disse o sargento e eu só bufei de raiva, mas assenti. — Siga, Rodrigues... — A gente estava no sofá quando eu ouvi o choro a primeira vez. Ela não pareceu ouvir, então pensei ser longe. Levantei para ir ao armário, onde ela disse ter camisinha, e eu ouvi de novo mais nítido. — Filho da putä! — Van ficou ofendido. Acabei rindo alto, mas não respondi. — Corri até lá e o garoto estava com um óbvio inchaço na garganta. O chiado era sinal de dificuldade para respirar, lidei com isso há um tempo... — Aí realizou a manobra? — O sargento arguiu. — Sim, não sabia o quanto poderia ajudar, mas ainda ajudaria. Não dava para ver o que causava a situação, então só pensei em fazê-lo expelir. — Pensou rápido. Isso é bom! — elogiou. — Pedi que Lindsay chamasse a ambulância e conseguisse ipeca para administrar, caso a manobra não desse em nada e o socorro demorasse. — O uso de ipeca é perigoso! — Van falou. — Sei, ele é muito pequeno, mas seria preciso arriscar salvá-lo ou deixá-lo agonizar. Na terceira tentativa, ele colocou as coisinhas brancas para fora. — Identificaram um benzodiazepínico na criança e bate com o material achado no quarto. Por ora, julgamos ser uma tentativa de homicídio. — Perguntem à desgraçada, ‘ué! — dei de ombros. — Qual é a situação dos dois? — O sargento perguntou. — Por favor, não se matem no processo. — Eu estava no maldito Congo e esse filho da putä decidiu comer minha noiva. Essa é a situação, senhor! — Olhei ao sargento e engoli seco. — Lava a boca ao falar da mãe. — Van disse. — Fodä-se, Van! — esbravejei, ficando com mais raiva.
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