Lake Valley, South Lake Tahoe, CA
Nem percebi quando dormi.
O distante som da bateria me levantou assustado. Foi estranho olhar ao redor e não saber onde estava.
— Calma, loiro! — Ouvi Natasha e respirei fundo. — Não está tendo pesadelos de guerrilha, não, ‘né!?
— Não... — Meneei a cabeça. — Só falta de hábito.
Esfreguei os braços, sentindo um pouco de frio.
— Ótimo. — Ela acabou rindo. — Ainda tem dose...
— Porrä! — reclamei, meneando a cabeça.
Eu me ajeitei ao seu lado e o cheiro de sexo era forte. Olhei-lhe e ela ainda estava vestida, mesmo que não tivesse modos com aquele vestido curto.
— Não me diz que-
— Não. — Ela acabou corando.
Sem maquiagem, era fácil ver o rubor consumir seu rosto, mas só virei o rosto, aliviado pela resposta.
— Foi só um sonho muito... desnecessário! — riu, se levantando para ir ao corredor. — Já volto!
Ainda estava bêbado, mas me encorajei para pegar o telefone e ver a hora. Tinha inúmeras chamadas perdidas de Lindsay. Eram dez da noite.
“Que bom que amanhã é dia de folga...”, pensei.
A melancolia acabou voltando e eu peguei duas doses para afogá-la. Muito pensei e, na verdade, o álcool não me permitiu lembrar de nada do que pensei.
Estava pegando a terceira dose quando ela saiu do banheiro, vestida no roupão. Os cabelos molhados estavam enrolados na toalha e Natasha sorriu largo para falar num tom animado:
— Eita, já começou sem mim?
— Foi só para ajudar — justifiquei, rindo.
— Ainda tem disposição, loiro? — Ela levantou uma sobrancelha. — Hoje comecei um trabalho e imagino que ele te interessa bastante.
— Qual?
— Um policial daquele seu mapa tentava contato comigo há um tempo. — Ela deu de ombros. — Não sei se só quer transär ou tem algo mais envolvido...
— Hm... entendo. Encontrou o homem? Quem?
— Smith. John. — Ela falou. — Particularmente, nem me lembro da patente e não fará muita diferença.
— Sargento em Stateline, se não me engano...
Ela sentou ao meu lado para pegar as doses e dividir entre nós. Acompanhei e ela seguiu a fala:
— Se conseguir qualquer coisa, te aviso. — Ela sorriu. — Como foi com o superior? Teve problemas?
— Nenhum. Nada ele disse. Deve fazer suas mudanças, mas só saberei o que for necessário para minha missão — dei de ombros. — Não ligo muito.
— Conhece os outros homens que estão com você nessa? — Ela soou preocupada. — Ajudaria bastante...
— Sim, tenho rostos e nomes. Sem endereços ou telefones por não ser correto nos comunicarmos.
— Pelo menos está dentro da especialização que queria, ‘né!? — Ela riu. — É meio atabalhoado, eu acho, mas é melhor do que simplesmente perder tudo.
— Com certeza! — assenti. — Obrigado pela ajuda!
— Se eu te ajudar, eu ainda me ajudo...
— Bem-vinda à equipe! — brinquei.
— Brindamos! — Soou animada e pegou as doses.
— É assim que se conserva, ‘né!? — ri e ela apenas deu de ombros. — Já não aguento mais beber... Podemos comer algo, não? Que seja salada... — Franzi o cenho.
— Odeio sair da dieta, mas você obviamente precisa comer muito mais do que salada! — Ela falou. — Só para manter esse braço todo.
Acabei rindo e ela tentou apertar meu braço com ambas as mãos. Riu ainda mais na tentativa, falando:
— Minha mão nem fecha!
— Faz tempo que não cozinho nada decente, mas posso ir à cozinha, se quiser — ofereci, olhando-a.
— Posso cortar carne na finura de um carpaccio, isso me basta, nem precisa de sal — riu.
Era incrível como após tanta vodca o olhar verde era tão vívido. Talvez a vida de bonzinho estivesse me estragando e pensar isso me fez sentir mäl comigo.
Existia um fato inevitável se aproximando: ao descobrir traição, a tendência era eu me sentir menor.
— Ei, não se perde em pensamentos. — Natasha chamou minha atenção e eu apenas assenti. — Essa cara volta a ficar horrível numa velocidade rápida!
— D-desculpa...
— Só vamos! — Ela levantou rápido e me estendeu a mão. — Não vou realmente ajudar a levantar, ‘né!? Mas, é um esforcinho para o seu espírito — riu.
Apenas tomei sua mão e me levantei para seguirmos à cozinha. Dei uma olhada no que ela tinha na despensa e pensei em algo rápido para nós.
Massa foi o que aprendi a fazer com o pai.
Ele era louco por massa e só sabia cozinhar isso, acabou me ensinando o que sabia na adolescência e a praticidade me conquistou com muita velocidade.
— Seu pai adora isso. — Natasha riu.
— Por isso que eu sei! — Também ri. — É bom com vinho, mas já bebemos tanta vodca que não recomendo.
— Idem!
Bastou começar a cozinhar para o estômago começar a reclamar de fome. Paralelo ao cozimento do molho, eu fiz só uma omelete para comermos.
Natasha pareceu tão faminta como eu, apesar de comer menos — com a desculpa de evitar inchaços.
— Precisa de um banho, loiro! — Ela falou. — Deixa que eu termino e vai lá. Deve ter um roupão, se quiser ficar preguiçoso igual eu.
— Sabe que eu jamais faria isso! — ri.
— Deveria tentar. Por que não pode!? — Ela levantou uma sobrancelha. — O que realmente te impede de ser só um carinha solteiro na casa da amiga?
Sim, eu pensei em Lindsay primeiro. Talvez pela vodca, eu tenha só optado por tacar o fodä-se e seguir ao meu banho não me importando com isso.
Claro que eu fiquei com uma vergonha enorme de estar desfilando de roupão na casa de Natasha — isso era um nível de intimidadë grande demais.
Felizmente, ela decidiu ajudar e não teceu nenhum comentário sobre isso. Já estava de cabelo preso enquanto cuidando da refeição.
Eu só me sentei para observar.