Lake Valley, South Lake Tahoe, CA
Foi uma boa refeição. Tentei ajudar para ele não se acanhar, mas era incrível como era calorento, não tardando para deixar a parte de cima do roupão cair.
— Podemos usar sua folga — sugeri. — São três?
— Sim. Sábado, domingo e segunda — assentiu. — O que tem em mente? Não pode ser problemático...
— Problemático, não garanto. Mas tem um evento amanhã à noite. É uma festinha de um mafiosinho qualquer. Consigo sua entrada para você ver o povo.
— Odeio o ambiente, mas gosto da ideia — sorriu.
— Sempre tem muita gente que dá mole ao frequentar esse tipo de lugar. Eu nos consigo um ponto bom e você pode fazer sua observação à vontade.
— Tudo bem. Só preciso ir em casa. Não tenho nada muito decente para vestir. — Ele riu. — Não que qualquer uma das minhas roupas seja realmente.
— Ah, não seja mäl. Veste qualquer uma que os braços vão fazer o trabalho de se exibir por você — impliquei e ele acabou olhando os braços. — Bobinho!
Terminamos a refeição e seguimos ao asseio. Soltei o cabelo de novo enquanto seguia com Levi de volta para a sala. Ele foi direto ao seu telefone.
— Quantas vezes ela já ligou? — ri.
— Vinte. Nem consegui ficar para ajudar a levar o garoto. — Meneou a cabeça, parecendo sentir culpa.
— Incrível como é bonzinho. Ela nunca te mereceu de verdade. — Eu me joguei no sofá para olhá-lo. — Tem que tomar cuidado daqui para frente, loiro.
— Sempre me cuido! — Ele deu de ombros.
— Sério, loiro. Não deixa essa porrä mexer muito com a sua cabeça. Conheço desilusão e sei que é fodä!
— Vou me esforçar mais, ruiva. É o que dá! — Ele suspirou, digitando no telefone. — Não será simples, mas ela escolheu por nós dois... Não posso fazer nada.
— É a parte ruïm dos relacionamentos — dei de ombros. — Exige muito mais responsabilidade do que as pessoas costumam saber ou até ligar. É fodä!
— Por isso nunca casou? — Levi terminou o que fazia no telefone e o deixou sobre o armário para se aproximar, sentando ao chão e recostando no sofá.
— Também. Tentei, mas não achei ninguém que despertasse essa vontade! — menti, claro. — Olha que eu ainda tentei com homens e mulheres. Só não deu!
— Casando, precisaria mudar de vida... Deixar o trabalho ou ter sorte de encontrar alguém tolerante.
— Pff... difícil! — gargalhei. — Eu até entendo que precisaria mudar de vida, nesse caso. Mesmo que alguém se mostre tolerante, não duraria para sempre...
Voltei a enlaçar os dedos nos finos e pequenos fios loiros para acariciar enquanto olhando para o teto.
Ele riu, talvez do que pensou e o silêncio voltou para nos assombrar. Lucas voltou aos meus pensamentos. Abusado, nem pedia permissão para isso.
— Ruiva? — A voz de Levi chegou me confundir.
Voltando à realidade, olhei na direção para me ver fitada pelo olhar azul, herdado do homem que me tirou a capacidade de raciocínio por instantes.
“Não, não...”, meneei a cabeça. “Seria uma cretina se fizesse isso!”, me repreendi, voltando a olhar o teto.
— Não é nada — falei.
— Tudo bem... Isso é cara de apaixonada — riu. — Confia em mim. Na prisão, tudo era metálico e essa era a cara que eu sempre tinha após sonhar acordado.
Acabei rindo e nada comentei.
— Estava pensando em só focar no trabalho. Deixar isso tudo para lá, sabe!? — falou. — Talvez buscar ajuda médica poderia ajudar... não sei — suspirou.
— É bom. Seu pai lutou contra um vício que ele desenvolveu principalmente como consequência de violência, abusos e intervenção medicamentosa.
— Eita! — Soou surpreso. — Q-quando?
— Começou na infância, mas as consequências vieram na pré-adolescência... perduraram por anos! Até hoje, os hábitos de Lucas são diferentes por causa disso.
— Nossa! — engoliu seco. — Viciado?
— Sim, ninfomaníaco — ri com a velocidade com a qual ele me olhou. — A condição hipersexual não era só psicológica, mas piorava com a disfunção hormonal.
— Tenso! — Ele riu. — Nem consigo imaginar... Sei que não sofro disso, já estou sobrevivendo há quase dois anos sem sexo... está tudo bem por enquanto.
— ‘Tá amarrado, loiro! — ri alto. — Se eu fico esse tempo todo sem transär, meu peito provavelmente cai.
Acabamos rindo bastante.
— Olha que é levemente siliconado, mas cai!
— Ah, isso é exagero! — Ele riu.
— Menino, dois anos? Você tem vinte e um, sabia?
— Sim, eu sei a minha idade! — Revirou o olhar para falar o óbvio. — É a vida, ‘né!? — Ele deu de ombros.
— Já avisei aos seus pais sobre o carro, tudo bem? Enquanto você dormia mais cedo, mandei mensagem para avisar que estaria comigo.
— Estava mandando mensagem para a mãe antes — falou. — Talvez eu vá até o apartamento amanhã, arrancar tudo que é dela da minha casa!
— Você tinha um carro, ‘né!?
— O pai sugeriu vender e eu concordei. Posso pegar outro. Talvez um conversível — ri. — É bem praiano e combina com minha idade, ‘né!?
— Empolgado como um morto! — impliquei.
— Sei lá. O último carro já foi pensado em caso de gravidez surpresa. Nunca fui muito disciplinado, carregando camisinha comigo, sabe?
— Menino, que perigoso! — alertei.
— Nunca deixei de usar. Comprava pacotes para deixar onde a gente costumava transär — riu com certa nostalgia. — Isto é, quando ela deixava, ‘né!?
— A loira era ruïm, ‘né!? — gargalhei e ele acabou silenciando, mesmo virando o rosto foi possível ver que ele estava começando a avermelhar pela timidez.
— Não tenho muito parâmetro, ‘né!? — deu de ombros. — Ela foi a única mulher que eu tive. Não era insatisfatório, nem satisfatório, sabe como é?
— Isso, com certeza! É aquele negócio mais ou menos. Você consegue curtir os hormônios e a euforia, mas ainda parece faltar algo no final... Como sei!
— É estranho, eu sei... mas ainda assim eu amei muito! — A melancolia retornou. — Porrä, amei...