Capítulo 8. Samba Nosso

1076 Words
Tahoe Valley, South Lake Tahoe, CA Como já era exoticamente comum, encontrei com Levi saindo do hospital e ele não tinha uma lágrima no olhar, apesar de estar nitidamente triste. Desci da moto correndo para me aproximar. “Maldito atraso!”, xinguei mentalmente enquanto me aproximando para abraçá-lo. “Putä merda!” — Loiro! — Eu o chamei e ele parou de andar. Ao abraçá-lo, senti seu corpo trêmulo. Levi respirava fundo e devagar. O olhar azul estava tão triste que eu me senti triste ao fitá-lo. — Vem! — convidei e ele apenas assentiu. — Vou avisar seus pais e eles buscam o carro, não se preocupa. Ainda vi a loira na entrada do hospital e eu juro que eu a fuzilei com o olhar, desejando que ela morresse assim que se afastasse dos médicos. Consegui levá-lo comigo até o meu apartamento. — A gente vai tomar todas as necessárias, okay? — falei enquanto guiando-o até o sofá da sala. — Juro que tentei te salvar, mas foi pior que pensei, ‘né!? — Não sei! — Ele se recostou. — O que houve? Já liguei o ar-condicionado e ele nem se fez de rogado em tirar a blusa, enxugou o suor do rosto na blusa mesmo e fechou os olhos, respirando fundo. Segui à cozinha para pegar as duas caixas de copos de dose que eu tinha. Antes de começar a namorar a mocinha, já éramos amigos de copo. Levi se dedicava demais aos estudos e eu tentava ser o mäl caminho controlado, que ajudava com o lazer. Coloquei as caixas no chão, perto da mesa de centro, e já busquei as garrafas de vodca para me sentar sobre os joelhos e montar a mesa da cachaça. — Eu estava longe... — Levi respirou fundo. Observei e ele estava com as mãos no rosto. Segui servindo em silêncio enquanto ele murmurava às vezes. Para impedir o silêncio de imperar, coloquei uma coletânea de sambas-enredo — nada de tristeza! — Primeira! — falei alto e ele se ajeitou no sofá. — Desgraçada! — Ele trincou os dentes, tirou um colar do pescoço e a aliança que ainda tinha no dedo. Pegamos nossa primeira dose para beber. Após beber, ele jogou o colar e a aliança pela janela do apê. — Lucas falaria com você na sua folga. Temia que reagisse agressivamente a isso tudo — falei, olhando-o. De pé, ele apenas ergueu a cabeça, colocando ambas as mãos no rosto e respirando fundo de novo. — O fodä de já ter matado muita gente é que fica fácil concluir matar de novo — falou num tom calmo. — Vem para a segunda, loiro. — Peguei sua mão e o puxei de volta ao sofá para entregá-lo outra dose. Pelas doses seguintes, abri a boca para enumerar a dose seguinte e nada ele falou, quase apático. — Não pode dormir! — ri e ele só assentiu, ficou nitidamente chapadinho na terceira. — Já sei! — falei. Aquela era a oitava dose. Corri ao quarto para trocar a roupa, pondo um vestido mais solto e um salto. — Vem! — Eu o puxei para dançar. Levi nasceu nos Estados Unidos, isso significava zero talento para dançar. Era ainda pior com o samba. Funcionou e consegui fazê-lo rir algumas vezes. Não era para ser realmente bom ou para ele superar tão rapidamente, mas para ser agradável e mudar o foco de seus pensamentos. Cansamos, suamos e rimos bastante. — Uma dose! — pedi, indo ao sofá. — É uma boa... Eu me joguei no sofá — sem muitos modos. Ele sentou ao chão, como já tinha o hábito, e me ajudou pegando a minha dose para me entregar. Tomamos e ele pegou o copo para colocar ao lado dos vazios. Recostou a cabeça e respirou fundo, falando: — É incrível como você tem disposição. Nossa! — É o que acontece quando se vem do inferno — gargalhei e ele acabou rindo também. — Não gostaria que estragasse sua vida, loiro... — Fiquei mais séria. Enlacei os dedos em seu cabelo para acariciar. — Você tem um futuro brilhante pela frente! Se quiser, eu derrubo a vagabunda e você só segue sua vida... Não se mete nisso, não, tudo bem? — pedi. — Não seria certo, ruiva. — Finalmente vi o olhar azul marejar. — Por mais que realmente esteja doendo demais, não seria certo... — Ele meneou a cabeça. — Parte meu coração te ver assim — ri. — Tinha um sonho, ruiva... é só isso! — suspirou. — Sou soldado... Eu vou sobreviver a essa merda — deu de ombros. — É a única escolha... sobreviver. — Próxima! — falei e ele apenas assentiu. Ajeitou-se para pegar as doses e eu fui ao chão para sentar ao seu lado. Só me toquei que não tinha modos alguns quando sentei e senti o chão gelado. — Ai! — Fui rápida ao ajeitar a saia do vestido. — Devia vestir um short! — Ele não olhou, me dando uma das doses. — Uma blusa larga também. — Continua assim que eu tiro. — Peguei minha dose. — Que abuso... é a minha casa e eu posso tudo! — Sim, senhora! — riu. — Ainda recomendo que se vista! — insistiu. — Não tem trabalho nenhum hoje? — Hoje, meu trabalho é cuidar de você. Já cuidei de mim. Claro, se eu tivesse adiado, teria chegado antes do fiasco que foi o tal encontro com a loira! — Meu pai te avisou? — riu. — Claro. Sua mãe é tapada, lembra!? — Bastante! — Ele riu ainda mais alto. — Pelo menos comeu a vagabunda? — perguntei. — Que horror, ruiva! — Acanhou-se. — Ah, para! — Virei em sua direção após pegar nossas doses. — Vai ficar com vergonha a essa altura? — Ouvi o menino chorando... e estranhei. — Que merda! — ri. — Um brinde a isso. Ele brindou comigo e bebemos. De novo, o assunto se encerrou. Tomamos mais algumas até eu conseguir fazê-lo deitar. Ainda suava muito, mesmo com o ar-condicionado começando a me arrepiar. O bom é que não estava trêmulo. Do mesmo jeito que o olhar lacrimejou antes, simplesmente secou — uma característica de Lucas que eu odiava ver no loirinho, eu sabia não ser bom. Concluí que talvez eu fosse mole demais. Se fosse comigo àquela altura e naquela idade, já teria surtado e matado os desgraçados, mas choraria bastante.
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