Edgewood, Stateline, Nevada
— Jamais imaginei encontrar uma mulher tão linda num lugar tão desolado e abandonado como esse — falava o jovem policial. — Nativa? Eu duvido — riu.
— Sul-americana. — Dei de ombros. — Gosto do elogio, oficial Smith! — sorri-lhe de canto de boca.
Estava fugindo desse policial há um tempo porque não sabia em que lado do tabuleiro ele jogava.
Vê-lo na listinha de Levi foi o que me fez optar por marcar um almoço com ele. Adorava trabalhar só, mas colaborar com Levi podia mudar o meu caso.
Estávamos longe de trilhar o mesmo caminho!
Ele era muito certinho e eu não tinha só as botas sujas do lamaçal do submundo, mas a roupa toda!
De qualquer forma, seria a forma mais eficiente de eu finalmente conseguir ter quaisquer avanços naquele trabalho que já estava custando milhões.
— Deve ser uma mulher ocupada... Tento contato há um tempo! — gesticulou para o garçom nos servir.
— A América é muito agitada! — ri. — Sempre tem muito trabalho. Uma agência gostaria de me obter para o seu quadro de modelos, mas tenho meus receios.
— Deveria investir nisso! — Ele mordiscou o lábio, me observando como um maldito predador sexuäl.
Nem era feio. Devia ter quarenta, no máximo. Mais alto que eu — como quase todo mundo —, ele estava um pouco fora de forma.
Talvez os aborrecimentos da agitada vida policial e investimentos errados fossem os responsáveis para fazê-lo ter um peso tão forte da idade em seu semblante com as rugas e até mesmo em sua postura relaxada.
Não podia exigir que todos fossem como eu, que não só vivia refém da necessidade de cuidar do corpo, como fazia toda a intervenção cirúrgica necessária.
Estava com um vestido pouco provocativo de cor clara — considerando o quanto os americanos curtiam uma boa moça. O decote não era tão abusado quanto eu estava acostumada, mas ele não tirava os olhos.
Bebemos o vinho enquanto ele falava do ótimo futuro que eu teria numa carreira de modelo — ele não perguntou minha idade e não me incomodei em falar.
Acabou sendo um ótimo primeiro contato.
Não entramos em qualquer assunto de negócios e deixamos o próximo encontro marcado para um jantar. Provavelmente, seria o momento de atacar.
Contratei um colega para dirigir para mim pelo dia — imaginei que me demoraria mais, mas o policial conseguiu me deixar entediada bem rápido.
Saindo do restaurante, ele ainda me ofereceu dirigir à minha casa, mas neguei com toda minha gentileza para dizer que pediria um carro.
Apressado para ir ao trabalho, ele não pôde ficar para esperar — o que foi melhor para mim. Só precisei ficar na porta por dois minutos e o carro chegou.
Entrei, já abrindo a bolsa para contar o dinheiro.
— Posso facilmente aceitar formas alternativas de pagamento. — O amigo sorriu de canto de boca.
— Não estou disponível hoje. O policial me broxou — dei de ombros. — Quem sabe numa próxima!?
— Espero, Ginger! — sorriu ladino.
Eram trezentos dólares e ele me deixaria na praça, perto do meu apê — também providenciaria segurança, caso fosse necessário.
No caminho, o telefone tocou, olhando era Lucas.
— Já sentiu saudade?! — perguntei ao atender.
— Muito ocupada, anjo?
— Não, estou voltando para a casa de um almoço.
— Levi saiu com uma rapidez e ansiedade, típicas de um apaixonado. Podia ficar de olho nele? — pediu.
— Merda. Ele foi atrás dela!? — suspirei.
— Ficou óbvio que sim...
— Tenho tempo, ‘né!?
— Meu filho não deve dispensar o almoço para ir direto ao que interessa... Ele tem muito mais modos que eu — gargalhou. — Então... acho que tem tempo.
— Claro! — Acabei rindo. — Vou passar em casa e vou atrás dele. Devo empatar essa fodä?
— Empatar é sacanagëm, mas a loira já tem filho, ‘né!? Quais são as chances de ter mandado a criança para a vizinha para receber Levi em casa?
— Nenhuma... Que putä! — arfei. — Ajudo!
— Obrigado, anjo. Desculpa atrapalhar.
— Sem problemas. Depois você me paga uma vodca bem cara, senhor de Wall Street — brinquei.
Desliguei e apenas me recostei, fechando os olhos e massageando a fronte. Coitado do garoto, seria bombardeado por coisas ruins num péssimo momento.
Infelizmente, eu ainda tinha um cronograma a cumprir. Felizmente, graças a esse cronograma eu não chegaria cedo o suficiente para empatar a fodä de Levi.
Paguei meu carinha e deixei o carro ao chegar.
Fui direto ao apê para tomar um banho quente.
“Alguma preferência para o jantar?”, essa era a única mensagem que não li quando cheguei em casa.
“Italiana, talvez? Gosto de vinho!”, respondi.
Se o objetivo era atacar, tinha que apelar para algo que já tinha um glamour natural. No banho, já cuidei do cabelo, das unhas, da pele.
Estava me devendo um cuidado há uns dois dias.
Felizmente, se só teria com Levi, não me preocupei em vestir nada muito sofisticado: um jeans e uma regata, já eram mais que suficientes.
Vesti o sobretudo — o ódio à loira me impediu de sair desarmada. Peguei a moto e não acelerei tanto, pensando em dar mais tempo para o casal.
A loira não estava tão longe de nós, talvez uns três quarteirões de distância. Vivia na casa dos finados pais, que faleceram pela idade há alguns anos.
Era até uma casa ajeitadinha.
Levi comprou o apartamento com ajuda do pai aos dezesseis. A moça já tinha maioridade e ele foi emancipado para ir morar sozinho com a namorada.
Um erro de principiante, que até se arrastou por tempo demais. Ouvir que a vagabunda decidiu trai-lo com o amigo nem foi impactante para mim.
Só era tenso ter que lidar com aquela forma de desilusão e não deixar o dedo coçar o suficiente para puxar o gatilho contra aquela criatura maldita.
Podia ser superproteção, confesso, mas não tinha como reagir diferente. Ainda era uma parte importante da minha vida, a semente do homem da minha vida.