Capítulo 32. Velhos Medos

1086 Words
Stateline, South Lake Tahoe, California — Nunca me disse que Levi herdou parte de sua condição — falei, assim que Lucas e eu ficamos sós. — Q-quão grave... acontece com ele? — Eu me preocupei. Estávamos em sua sala. Sofia saiu para levar Chloe no colégio e Lucas estava servido de seu chá, em meio ao trabalho, quando cheguei para incomodar. Lucas franziu o cenho e respirou fundo. — Ele teve algum problema? — perguntou. — Um pouco... Já notei desde que... — Você está transando com ele!? — Ele acabou rindo. — Okay... está... — Ele nem me deu tempo de responder e voltou a suspirar. — Tudo bem... — Ele é adulto. Sabe o que faz! — dei de ombros. — Quando perdeu a virgindade, ele teve um pequeno probleminha no percurso... Sentiu culpa porque deixou a marca das mãos no braço da loira... — Forte... sei disso — assenti com a cabeça. — Só soube que o noivado daria errado quando, na última vez que falamos dela, ficou claro que ela usava dessa culpa para manipular ele. Franzi o cenho, indagando-o se era verdade. — Aconselhei, mas foi a primeira e última vez, até agora, que ele ignorou. Quase brigou comigo e eu apenas deixei estar. — Lucas deu de ombros. — Que putä! — Foi o que consegui falar. — Em comparação ao quão ruïm eu já estive, o quadro de Levi é melhor que o meu. É hipersensível e suscetível a muita coisa, mas nada letal, eu espero. — E-ele... a dor no peito, Lucas... — Meus olhos acabaram enchendo de lágrima e ele apenas sorriu para se aproximar e enxugar meu rosto. — Calma, anjo... — Ele sorriu. — Não é a mesma coisa. Levi é mais saudável; nunca usou drogas, pouco bebe, tem um descanso regular, dieta e exercícios... — Ele sentiu dor como você, Lucas! — Apressei para enxugar uma lágrima. — E-eu juro... ‘tô com medo! Ele me abraçou, rindo. — A pergunta que não quer calar é: por que se coloca nessa armadilha? — Seu tom de voz entristeceu. — Nunca fomos francos, mas essa deve ser a hora. Acabei me afastando, acanhada. A reação imediata foi fingir demência — sim, eu sei que foi horrível —, mas me fiz de desentendida e falei: — Sabe que sempre sou honesta com você... — Levi e eu temos muito em comum — riu. — Algumas manias simples, como gostar de massas; ou algumas manias complexas, como a apatia que parece consumir seu rosto nos momentos de decepção... Lucas engoliu seco e eu mantive o silêncio. — Com ele é ainda pior; poucas foram as vezes que eu sequer o vi chorar. Ele também tem meus olhos — riu —, mas ele não sou eu, Natasha... Abaixei a cabeça, sentindo culpa. — Não pode fazer isso com você, nem pode fazer isso com meu filho, nem comigo — suspirou chateado. — D-do que- — Porrä, anjo! Fala comigo. — Ele interrompeu. Pousou a mão em meu rosto para virá-lo em sua direção, me fazendo engolir seco — obviamente, a bateria no coração começou a desfilar e o corpo chegou a tremular da cabeça aos pés. Meramente pelo medo de tentar avançar nele. — O que quer? O que nos resta falar? — Fiquei chorona. — Estamos no castelo onde ergueu sua família. — Sim, eu sei. Você é parte da família, mesmo que queira fugir — suspirou. — Porrä, te amo, Natasha. Não como gostaria e sei disso, mas eu quero te ajudar. — Tsc... não tem ajuda! — ri melancólica. — Não tem conserto. — Meneei a cabeça. — Já tentei de tudo, Lucas. Já dormi com tanta gente que nem lembro todos os rostos, já namorei e me esforcei, mas eu te amo. Ele acariciou meu rosto. A tal apatia correu seu rosto enquanto ele me observava analiticamente. — É tudo superficial, principalmente no meu meio de trabalho. Isso me faz ter muitas noites sós... pensando em você... até quando tenho com outros... Ele se levantou, beijando minha testa. Apressou-se à cozinha e voltou para servir uma dose de uísque. — Meu medo é que dê errado, anjo. — Seu tom de voz acalmou. — Tão ferida, você vai feri-lo e eu não sei como poderei ajudar nenhum dos dois... — Com a gente é só um lance bem casual — dei de ombros. — Entendo sua preocupação, mas não precisa. Estamos trabalhando juntos... era inevitável! — Casual, anjo!? — riu alto. — Levi saiu de casa para morar com a loira onde vivia em abstinência de sexo e recebia um tratamento gelado e obcecado. Começou a listar com a sobrancelha levantada. — Foi ao Exército; voltou a estudar lá, logo, um ano de internato. Para ser fiel à loira, ele pegava serviço extra, anjo. — Lucas meneou a cabeça. — Dois meses de missão no Congo que findou com um ano de prisão. Só ele sabia me deixar culpada daquela forma. — Levi tem vinte e um anos, anjo. O ápice da sua carência deve ter começado aos dezenove — riu. — Não diz que será casual... não mente para mim ou para você. — E-eu... me deixei levar... Perdão! — Foi só o que consegui falar. — Realmente era pelo trabalho. Claro, consegui curtir... gostei do toque e não vou mentir. — Só não faz isso com você. Sempre pedirei perdão por não ter lidado direito quando estávamos juntos... Peço perdão também por amar Sofia... — Não pede perdão! — ri, meneando a cabeça. — O amor de vocês é lindo. Não mudaria até porque ela conseguiu te ajudar, muito mais que eu ajudaria... — Vocês ajudaram, anjo. Se pudesse, repararia, mas não sei como. Não quero que vá embora, mas eu realmente amo Sofia e não quero perdê-la também. — Nem precisa! — suspirei. — Dói saber que você nunca será meu, mas eu também fico feliz por saber que você é feliz... tem família... uma vida normal. — Eu te amo, anjo! — Ele se aproximou para me abraçar. — Perdão e obrigado. É cruël, mas eu só sou feliz hoje porque você me deu a oportunidade de ser. Retribuí o abraço, respirando fundo só para sentir seu perfume. Era cretinice e eu sei, mas ainda era o mais próximo que eu podia chegar de tê-lo. Naquele dia, saí da casa de Lucas confiante que eu não teria com Levi de novo — para evitar a fadiga.
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