20. Lorena

1260 Words
Lorena A conversa com Tainá ficou na minha cabeça pela manhã inteira. Não porque ela tivesse me dado uma resposta. Justamente porque não deu. Talvez algumas coisas não precisassem ser resolvidas no mesmo dia em que doíam. Bia foi para a escola com a árvore da família dentro da mochila e duas linhas saindo do mesmo bebê. Eu fui trabalhar tentando não pensar no desenho. No fim do expediente, saí da Clínica da Família com uma sacola de farmácia na mão e o celular preso entre o ombro e a orelha, ouvindo Tainá reclamar que uma cliente tinha pedido para ficar “loira natural” em duas horas. — Natural depois de três descolorações? — perguntei. — Se eu fizer milagre, abro igreja. — Não brinca com isso. Ela ficou em silêncio por um segundo. — Tá. Foi m*l. Eu sabia que ela tinha lembrado da conversa sobre a igreja. — Depois eu te ligo. — Vai buscar a Bia? — Yasmin deixou ela terminar uma atividade. Passo lá já já. Desliguei. Eu estava subindo uma das ruas laterais quando ouvi a voz de Vitória antes de vê-la. — Eu não vou subir assim. Parei. Mais acima havia um trecho de calçada quebrada, seguido por dois degraus improvisados onde deveria existir uma passagem nivelada. Vitória estava diante deles na cadeira de rodas. Arcanjo estava ao lado. Fael e mais dois homens próximos. — Vitória, é só até passar esse pedaço — Arcanjo disse. — É exatamente esse pedaço que eu não consigo passar. — Então eles te ajudam. — Eu não quero ser carregada. Fael apontou para os degraus. — Vitória, é rapidinho. A gente pega pelos lados e coloca lá em cima. Ela virou o rosto para ele. — E se eu estivesse sozinha? Fael ficou sem resposta por um segundo. Arcanjo percebeu minha aproximação. — Lorena. — Oi. Vitória me olhou. — Ótimo. Plateia. — Eu posso ir embora. — Não. Fica. Talvez eu precise de testemunha pra explicar o óbvio. Arcanjo passou a mão pela nuca. — Não começa. — Eu comecei? Foi você que mandou três homens resolverem uma calçada colocando a mão em mim. — Ninguém colocou a mão em você. — Porque eu não deixei. O tom dela não era de vergonha. Era raiva. E eu entendi imediatamente que aquela discussão não tinha começado ali. Arcanjo apontou para o trecho. — Isso vai ser consertado. — Quando? — Fael já falou com o pessoal. Fael coçou a barba. — O material chega amanhã. Vitória olhou para ele. — Material pra quê? — Fazer uma rampinha aqui. — Uma rampinha? — Ué. Ela fechou os olhos. — Qual inclinação? Fael piscou. — Como assim? — Largura? Piso? Tem espaço de manobra ali em cima? Vai terminar onde? Vocês mediram alguma coisa? Os três homens olharam uns para os outros. Vitória soltou uma risada sem humor. — Claro que não. Arcanjo respondeu: — A ideia é resolver o acesso. — Não. A ideia é me tirar daqui hoje e depois fazer qualquer coisa de cimento pra vocês poderem dizer que resolveram. — Vitória… — Não, Caio. Escuta. O nome dele soou diferente vindo dela. Arcanjo calou. Vitória apontou para os degraus. — Você sempre acha que acesso é ter alguém disponível pra me carregar. Só que isso não é acesso. Isso é favor. Fael tentou intervir. — Mas ninguém aqui vê problema em ajudar. Vitória olhou para ele. — Eu sei. E esse é justamente o problema. Fael franziu a testa. — Não entendi. — Você não precisa pedir permissão pra subir essa rua, Fael. Não precisa procurar quem está disponível. Não precisa calcular se quem está por perto vai ter força pra levantar você. Você só vai. Ele olhou novamente para os degraus. Dessa vez de outro jeito. Arcanjo ficou em silêncio. Vitória continuou: — Agora me responde uma coisa. Se eu não fosse irmã dele, quem faria isso por mim? Ninguém respondeu. Ela apontou para Arcanjo. — Se eu fosse só uma moradora daqui, você mandaria três homens parar tudo toda vez que eu precisasse passar? — Se eu soubesse… — Exatamente. A voz dela baixou. — Se você soubesse. Aquilo me atravessou. Pensei nos pacientes da unidade. Idosos. Pessoas com dificuldade de locomoção. Mães com carrinho de bebê. Gente que adiava consulta porque descer e subir o morro era uma operação. Eu falei antes de pensar muito. — Pra maioria, provavelmente ninguém faria. Arcanjo virou para mim. Não parecia irritado. Parecia atingido. Fael também. — Não estou dizendo que ninguém ajudaria se visse — continuei. — Aqui tem muita gente que ajuda. Mas depender de alguém aparecer não é a mesma coisa que conseguir ir e voltar sozinho. Vitória apontou para mim. — Obrigada. Fael cruzou os braços. — Tá. Então como faz direito? A pergunta mudou o clima. Vitória olhou para ele. — Primeiro, vocês param de achar que eu sou projeto de engenharia improvisado. — Justo. — Segundo, medem. Pensam o percurso inteiro. Não adianta fazer uma rampa que termina numa porta estreita ou num buraco. Fael assentiu. — Beleza. — E pergunta pra quem usa. — Você? — Eu também. Mas não só eu. Ela olhou ao redor. — Tem outras pessoas aqui com mobilidade reduzida. Idoso, gente usando muleta, mãe com carrinho, morador que teve AVC. Vocês só lembram quando alguém fica preso. Arcanjo finalmente falou: — Então você acompanha o Fael. Vitória levantou uma sobrancelha. — Eu acompanho se eu quiser. Ele fechou os olhos por um segundo. — Você quer acompanhar o Fael? Sorri. Vitória também. — Melhorou. Fael riu. — Ela vai acabar te adestrando. Arcanjo olhou para ele. — Quer ser o próximo? — Tô de boa. Vitória apontou para o trecho outra vez. — Hoje eu vou voltar pelo caminho de baixo. Arcanjo olhou a descida. — É mais longe. — Eu sei. — Posso ir com você? Ela pensou. — Pode. Do lado. Sem empurrar. — Certo. Aquilo parecia pequeno. Mas não era. Arcanjo se virou para Fael. — Mede tudo antes de comprar mais coisa. — Fechado. — E fala com Dona Neide também. Vitória assentiu. — Aí sim você começou a entender. Eu me afastei para seguir em direção à escola, mas Arcanjo me chamou. — Lorena. Virei. — Você falou da maioria. — Falei. — Na Clínica, você vê muito isso? Olhei para Vitória e depois para ele. — Mais do que você imagina. — Depois quero entender melhor. Quase respondi “eu te explico”. Mas parei. — Pergunta também pra quem vive isso. Ele olhou para a irmã. — Tô aprendendo. Vitória deu um sorriso torto. — Devagar pra caramba. Continuei andando. No caminho para a escola, pensei que talvez aquela fosse a primeira vez que eu via Arcanjo diante de um problema que não podia resolver mandando alguém levantar, carregar, pagar ou buscar. Porque a pergunta de Vitória era maior do que aquele degrau. Quem faria isso por ela se ela não fosse irmã dele? E a resposta era desconfortável justamente porque não dependia de boa vontade. Dependia de existir um caminho onde ninguém precisasse pedir favor para passar. Continuei andando, mas a palavra favor ficou comigo. Sem querer, ela me levou de volta à igreja. Na véspera, eu tinha entrado ali sem saber direito o que pedir. Talvez ainda estivesse tentando entender se fé significava pedir alguma coisa a Deus e esperar que Ele entregasse. Ou se havia alguma forma de acreditar sem transformar esperança em garantia. Quando percebi, já sabia para onde queria voltar.
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