3. Lorena

1458 Words
Lorena A frase de Priscila ficou parada entre nós. A gente. Olhei para a mão dela ainda segurando a minha. Depois para Eduardo. Depois para minha barriga. O bebê mexeu outra vez. Pequeno. Quase como uma resposta que só eu podia sentir. Puxei minha mão devagar. — A gente? Priscila franziu a testa. — O quê? — Você falou “a gente vai interromper”. Ela me olhou como se não entendesse onde eu queria chegar. Talvez não entendesse mesmo. — Lorena, não é hora de implicar com palavra. — Eu não estou implicando com palavra. Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. Mas firme. — Então o que você está dizendo? Olhei para Eduardo. Ele já estava com aquela expressão que eu começava a reconhecer. A expressão de quem queria resolver. Organizar. Colocar as coisas em caixas. Encontrar uma resposta e seguir para a próxima etapa. Só que aquilo não era uma planilha. Não era um documento. Não era uma coisa que podia ser resolvida em três telefonemas. Estava acontecendo dentro de mim. — Eu estou dizendo que preciso pensar. Priscila arregalou os olhos. — Pensar no quê? A pergunta me machucou. — Em tudo. — Mas a médica acabou de explicar. — Eu estava na sala, Pri. — Então você ouviu. — Ouvi. — Você ouviu que ele não vai sobreviver. Engoli em seco. — Ouvi. — Então o que tem para pensar? Minha mão voltou para a barriga sem que eu percebesse. Priscila acompanhou o movimento. Dessa vez, não havia carinho no olhar dela. Havia confusão. Talvez até medo. Eduardo entrou na conversa. — Acho que todo mundo está abalado. A gente devia conversar com calma. Quase ri. A gente. De novo. — É exatamente isso que eu estou pedindo. — Pedindo o quê? — Priscila perguntou. — Tempo. Ela balançou a cabeça. — Lorena… — Só tempo. — Para quê? — Para entender. — A médica explicou. — Eu não estou falando de entender o diagnóstico! Minha voz saiu mais alta. Uma senhora sentada algumas cadeiras adiante olhou na nossa direção. Baixei o tom. — Eu entendi o diagnóstico. Priscila cruzou os braços. — Então? Respirei fundo. Era difícil colocar em palavras. Talvez porque, até aquela manhã, eu nunca tivesse precisado separar aquelas coisas. O bebê era deles. Mas o corpo era meu. O sonho tinha começado com eles. Mas a gravidez estava acontecendo comigo. Eu tinha aceitado carregar. Tinha aceitado passar por enjoo, exame, dor nas costas, sono, medo. Tinha aceitado que, no fim, entregaria aquele bebê para os pais dele. Nunca tivemos uma conversa sobre aquilo. Sobre o que aconteceria se alguma coisa desse errado. Talvez porque ninguém faça planos pensando na tragédia. — Eu preciso entender o que eu sinto sobre isso — falei. Priscila me encarou. — O que você sente? Não respondi. Porque não sabia. E admitir isso em voz alta parecia pior. Eu não sabia se queria continuar aquela gestação. Não sabia se conseguiria atravessar meses sabendo como provavelmente terminaria. Não sabia se conseguiria interromper sabendo que, naquele exato momento, havia um coração batendo dentro de mim. Não sabia. E tinha a impressão de que, para todos ao meu redor, eu já deveria saber. Eduardo passou a mão pela nuca. — Lorena, ninguém quer tornar isso mais difícil do que já é. Olhei para ele. — Então não tornem. Ele franziu a testa. — Ninguém está fazendo isso. — Vocês decidiram cinco minutos depois de sair da sala. — Nós somos os pais. A frase veio rápida. Priscila olhou para ele. Eu também. — Eu sei que vocês são os pais. — Então entende que isso também diz respeito a nós. — Eu nunca disse que não diz. — Parece. Senti alguma coisa quente subir pelo peito. Não era raiva ainda. Era defesa. — Eduardo, eu estou grávida. — De um filho nosso. Silêncio. Aquilo doeu de um jeito estranho. Talvez porque fosse verdade. Talvez justamente por ser verdade. — Eu sei de quem é o bebê. — Então precisamos tomar uma decisão juntos. — Não. A palavra saiu antes que eu pensasse. Priscila piscou. Eduardo ficou parado. Eu mesma me assustei. Mas, depois de dita, alguma coisa dentro de mim se encaixou. — Como assim, não? — ele perguntou. — Conversar, sim. Ouvir vocês, sim. Decidir juntos sobre o acompanhamento, sobre exames, sobre informação… tudo isso. Mas ninguém vai decidir por mim um procedimento no meu corpo. Priscila abriu a boca. Fechou. — Eu nunca disse que ia te obrigar. — Você acabou de dizer que a gente vai interromper. — Foi modo de falar! — Para você. Ela respirou fundo, visivelmente irritada. — Lorena, eu acabei de descobrir que meu filho tem uma malformação incompatível com a vida. O rosto dela se desfez. E, naquele instante, toda a minha defesa perdeu força. Porque a dor dela era real. Tão real quanto a minha confusão. Priscila começou a chorar. — Eu esperei anos por isso. Minha garganta apertou. — Eu sei. — Eu fiz tratamento. Eu perdi gravidez. Eu ouvi médico dizendo que talvez nunca acontecesse. E quando você disse que faria isso por mim… Ela levou a mão à boca. — Pri… — Eu achei que finalmente tinha acabado. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. — Eu sei. — Não, você não sabe. Fiquei quieta. Talvez não soubesse mesmo. Ela tinha vivido dores que não eram minhas. Assim como eu estava vivendo uma que não era dela. Era isso que nenhum de nós conseguia enxergar ainda. Eduardo abraçou Priscila pelos ombros. Depois olhou para mim. — A gente só não pode esquecer o que foi combinado. A frase mudou alguma coisa. — Como assim? — Como eu falei. Todo mundo está nervoso. Mas existem coisas que foram acertadas antes da transferência. — Eu sei. — Documentos foram assinados. Meu corpo ficou imóvel. Priscila virou o rosto para ele. — Eduardo… — Estou falando alguma mentira? — Não é hora. — Justamente porque é hora. Olhei de um para o outro. — Que documentos? Ele franziu a testa. — Os documentos do procedimento, Lorena. — Eu sei quais documentos eu assinei. — Então sabe que existiam responsabilidades de todas as partes. Foi a primeira vez que senti aquela palavra com peso. Responsabilidades. Até então, a gestação tinha sido tratada como um gesto de amor. Agora, de repente, Eduardo falava como se estivesse abrindo uma pasta. — Você está dizendo que eu assinei alguma coisa me obrigando a interromper uma gravidez? — Eu não disse isso. — Então o que está dizendo? — Que não podemos agir como se tudo o que foi acertado antes tivesse deixado de existir. — Eduardo — Priscila repetiu. Ele respirou fundo. — Eu só estou dizendo que precisamos olhar tudo. Olhar tudo. Documentos. Termos. Responsabilidades. Pela primeira vez desde que aquilo tinha começado, senti medo de uma coisa diferente do diagnóstico. — Vocês estão pensando em contrato agora? Priscila se virou para mim. — Não. Eu não estou. Olhei para Eduardo. Ele não respondeu imediatamente. O silêncio respondeu por ele. — Eu quero ir embora — falei. Priscila tentou se aproximar. — Lorena… — Eu preciso ficar sozinha. — Não vai assim. — Assim como? Ela não soube responder. Peguei minha bolsa. Eduardo deu um passo para o lado, abrindo passagem. — Depois a gente conversa. Parei. Olhei para ele. — Não. Ele franziu a testa. — Não o quê? — Para de falar “a gente” como se fosse a mesma coisa para todo mundo. Priscila começou a chorar novamente. Doeu sair dali. Doeu deixar minha prima naquele corredor. Doeu saber que talvez ela enxergasse minha hesitação como uma traição. Mas continuei andando. Entrei no elevador e apertei o térreo. Só quando as portas fecharam, deixei as lágrimas caírem. Olhei para meu reflexo distorcido no metal. Depois para minha barriga. — O que eu faço? Sussurrei. Nenhuma resposta. Claro que não. Coloquei a mão sobre a pele. Fiquei assim durante todo o caminho até o térreo. Na saída do hospital, meu celular vibrou. Era Priscila. Não atendi. Vibrou de novo. Dessa vez, Eduardo. Também não atendi. Entrei no carro e fiquei parada. Eu ainda nem tinha ligado o motor quando outra notificação apareceu. Não era chamada. Era uma mensagem de Eduardo. Depois precisamos rever os documentos que assinamos. Li uma vez. Depois outra. A frase era simples. Talvez, em outro dia, não significasse nada. Naquele dia, significou muito. Bloqueei a tela. Encostei a cabeça no banco. E entendi que a pergunta já não era apenas se eu conseguiria continuar aquela gravidez. Havia outra começando a nascer. Uma que me assustava quase tanto quanto a primeira. Até onde eles acreditavam que podiam decidir porque aquele filho era deles?
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