5. Lorena

1523 Words
Lorena No dia seguinte, acordei antes do despertador. Não porque tivesse dormido bem. Porque quase não dormi. A frase de Eduardo tinha atravessado a madrugada comigo. Você precisa cumprir o que assumiu. Levantei, fui ao banheiro e fiquei alguns segundos olhando para meu reflexo. Olheiras. Cabelo preso de qualquer jeito. A mesma barriga. A mesma gravidez. Só que agora eu olhava para ela diferente. Não como se tivesse deixado de ser parte de um gesto de amor. Mas como se eu precisasse descobrir onde aquele gesto terminava. E onde começava o meu direito de dizer não. Peguei a pasta azul antes de sair. Coloquei dentro da bolsa o laudo, os documentos da fertilização, meus documentos pessoais e tudo que encontrei relacionado ao procedimento. A bolsa ficou pesada. Mais do que deveria. Talvez porque papel também pese quando a gente não sabe o que está escrito de verdade. Eu trabalhava na Clínica da Família naquele dia, mas avisei que chegaria mais tarde. Disse que precisava resolver uma questão médica. Não era mentira. Só não era tudo. Cheguei cedo ao atendimento jurídico gratuito. Ou achei que tinha chegado. A fila já dobrava o corredor. Pessoas sentadas. Pessoas em pé. Gente segurando pasta. Sacola. Documento dentro de envelope. Criança no colo. Idoso reclamando de dor nas pernas. Uma mulher chorando baixo enquanto falava ao telefone. Parecia que todo mundo ali carregava alguma urgência. E talvez esse fosse o problema. Quando todo mundo está urgente, ninguém parece urgente o bastante. Peguei uma senha. Número 83. Olhei para o painel. Respirei fundo. Sentei. Minha lombar doía. Coloquei a bolsa no colo e encostei a cabeça na parede. O bebê mexeu. Fechei os olhos. — Você também não facilita, né? Uma senhora ao meu lado olhou. Sorri sem graça. — Desculpa. Estava falando com ele. Ela olhou para minha barriga. — Quantos meses? Hesitei. Não queria conversar. Mas não tive coragem de ser grossa. Respondi. Ela sorriu. — Tá perto de saber o sexo, então. Meu peito apertou. — Talvez. Ela começou a contar sobre os netos. Eu ouvi pela metade. Não porque fosse desinteressante. Porque cada vez que ela dizia “quando nascer”, alguma coisa doía. Quando nascer. Eu não sabia se aquele bebê chegaria ao nascimento. Não sabia nem se eu queria continuar a gestação. Não sabia de quase nada. Só sabia que Eduardo achava que eu tinha uma obrigação. E eu precisava de alguém que me dissesse se ele estava certo. O painel mudou. Olhei para o relógio. Eu tinha chegado havia quase quarenta minutos. Meu celular vibrou. Priscila. Não abri. Vibrou de novo. Mensagem. Você vai trabalhar hoje? Demorei para responder. Vou. Estou resolvendo uma coisa antes. Ela visualizou. Que coisa? Olhei para a pasta no meu colo. Não queria mentir. Mas também não queria contar. Depois falo. Os três pontinhos apareceram. Sumiram. Depois voltaram. Você está procurando advogado? Meu coração acelerou. Fiquei olhando para a pergunta. Não sabia como ela tinha chegado àquilo. Talvez Eduardo tivesse imaginado. Talvez ela me conhecesse bem demais. Não respondi. A próxima mensagem veio. Lorena, não faz isso com a gente. Fechei os olhos. A gente. De novo. Bloqueei o celular. Número 46. Eu tinha vontade de chorar. Mas não ali. A mulher dos netos ainda falava. Alguma coisa sobre parto normal. Assenti quando pareceu apropriado. O tempo passou devagar. Quando meu número finalmente apareceu, minhas pernas estavam dormentes. Entrei na sala com a pasta contra o peito. A mulher que me recebeu parecia cansada. Não antipática. Cansada. Como todo mundo naquele lugar. — Bom dia. Qual é a situação? Sentei. Por alguns segundos, não consegui começar. Porque explicar aquilo para um estranho era mais difícil do que eu tinha imaginado. — Eu estou grávida. Ela esperou. — Mas o bebê não é meu. Franzi a testa imediatamente. — Quer dizer… não biologicamente. Ela se inclinou um pouco para a frente. — Gestação por substituição? Assenti. — Sim. Abri a pasta. Contei. Não tudo de uma vez. A fertilização. Priscila. Eduardo. O diagnóstico. A anencefalia. A decisão deles. Minha dúvida. As mensagens. Quando terminei, ela ficou alguns segundos em silêncio. — Você trouxe os documentos? Empurrei a pasta. Ela começou a olhar. Folheou algumas páginas. Separou outras. Leu. Eu observava o rosto dela como tinha observado o rosto dos médicos. Tentando encontrar resposta antes da resposta. Ela respirou fundo. — É um caso específico. Meu estômago afundou. — Específico r**m? — Específico no sentido de que precisa de análise mais cuidadosa. — Mas eles podem me obrigar? — Um procedimento médico depende do seu consentimento. A frase era quase igual à da médica. Senti um pouco de alívio. Pouco. — Então esses documentos não significam que eu tenho que interromper? Ela olhou de novo para os papéis. — Eu não consigo te dar uma resposta completa sobre todas as consequências desses documentos sem analisar com calma. — Eu posso deixar aqui? — Não dessa forma. Ela puxou uma folha. — O ideal é abrir atendimento e encaminhar para análise. — Quanto tempo? A pergunta saiu rápido. Ela consultou a tela do computador. Digitou. Esperou. Franziu a testa. — A próxima data disponível está um pouco distante. — Quanto? Ela virou parcialmente o monitor. Quando vi a data, achei que tivesse entendido errado. — Não. — Eu sei. — Não pode ser. — Infelizmente a demanda está muito alta. — Mas eu estou grávida agora. Ela me olhou. — Eu entendo. — Não, eu sei que você entende, mas… Minha voz falhou. Respirei. — Eles estão me pressionando para interromper a gestação agora. Não daqui a semanas. — Existe um atendimento emergencial para algumas situações. — Essa não é uma situação emergencial? Ela hesitou. Aquilo doeu. — Eu posso solicitar uma avaliação da urgência. — E quanto tempo demora essa avaliação? Ela não respondeu imediatamente. Foi resposta suficiente. Senti as lágrimas subirem. — Desculpa. — Não precisa pedir desculpa. — É que eu não tenho dinheiro para advogado particular. Dizer aquilo em voz alta me fez sentir pequena. Não deveria. Eu sabia. Mas fez. — Eu trabalho. Eu tenho meu salário. Eu pago minhas coisas. Só que eu não tenho como tirar milhares de reais agora para alguém olhar esses documentos. Ela assentiu. — Eu entendo. Olhei para a barriga. — E eu também não sei quanto tempo eu tenho para decidir. A mulher fechou a pasta devagar. — Lorena, escuta uma coisa. Levantei os olhos. — Você não precisa tomar uma decisão porque outra pessoa está te pressionando. Procure manter tudo registrado. Mensagens, documentos, orientações médicas. Assenti. — E evite assinar qualquer coisa nova sem entender. Meu coração apertou. — Tá. Ela anotou algumas informações e pediu cópias. No fim, saí dali com uma nova folha. Mais uma. Um protocolo. Uma solicitação. Uma data distante demais. Parei na calçada. O sol estava forte. Pessoas passavam apressadas. Olhei para o papel. Depois para o celular. Priscila tinha mandado mais duas mensagens. Eduardo, uma. Não abri nenhuma. Por alguns segundos, pensei em voltar para dentro e implorar. Dizer que não era uma briga de família. Não era uma discussão sobre quem ficaria com um sofá depois de uma separação. Era meu corpo. Era uma gravidez. Era uma decisão que podia mudar tudo. Mas eu sabia que a mulher tinha feito o que podia. E talvez fosse isso que mais assustasse. Não havia um vilão atrás daquele balcão. Só havia uma fila. Uma agenda. Um sistema cheio. E minha vida não sabia esperar. Meu celular tocou. Dessa vez, era Mirela. Minha amiga da Clínica. Atendi. — Oi. — Onde você está? — Indo trabalhar. — Lorena, você está bem? Olhei para o prédio atrás de mim. Depois para a pasta. Depois para minha barriga. Quase disse que sim. Era automático. Mas cansei. — Não. Mirela ficou em silêncio. — Quer falar? Engoli o choro. — Não pelo telefone. — Então vem. A voz dela mudou. Mais séria. — Eu cubro você aqui até chegar. Fechei os olhos. — Obrigada. — E, Lorena… — Oi? — Não vem dirigindo chorando. Soltei uma risada quebrada. A primeira em dois dias. — Tá. Desliguei. Fiquei mais alguns segundos na calçada. Então abri a conversa de Eduardo. A mensagem estava ali. Precisamos conversar hoje. Priscila não pode continuar nesse estado. Li. Em seguida, outra. Não transforma isso numa disputa jurídica. Olhei para a pasta em minha mão. Quase respondi. Mas algo me impediu. Talvez a orientação que eu tinha acabado de receber. Talvez medo. Talvez finalmente algum instinto de proteção. Guardei o celular. Entrei no carro. E, enquanto colocava o cinto, pensei na ironia. Eu tinha ido buscar alguém que me dissesse rapidamente quais eram os meus direitos. Saí com um protocolo. Uma data. E uma fila. A resposta que eu precisava existia. Só não chegaria na velocidade da pressão. Liguei o carro. Antes de sair, minha mão descansou sobre a barriga. — Eu vou descobrir. Não sabia se prometia ao bebê. Ou a mim. Talvez aos dois. Porque, naquele momento, eu só tinha certeza de uma coisa: eu podia esperar por uma vaga. Mas Eduardo não parecia disposto a esperar pela minha decisão.
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