1. Lorena

1437 Words
Lorena O gel estava frio. Foi a primeira coisa em que pensei quando ele encostou o aparelho na minha barriga. Frio demais. Dei um pequeno arrepio e prendi a respiração, enquanto o médico movimentava o transdutor devagar, espalhando aquele gel transparente pela pele já esticada. — Desculpa. — Ele sorriu de leve. — Sempre assusta um pouco. — Um pouco? — tentei brincar. — Isso aí estava guardado no congelador? Ele soltou uma risada curta. Eu também. E, durante alguns segundos, foi só isso. Uma sala de ultrassom. Luz baixa. O barulho constante do aparelho. O monitor ao meu lado. Um exame que deveria ser apenas mais um. Virei o rosto para a tela. Eu ainda não entendia direito aquelas manchas em preto, branco e cinza. Mesmo trabalhando na área da saúde, ultrassom nunca deixou de parecer um mapa que só quem estudou muito conseguia decifrar. Às vezes eu identificava uma mão. Um pezinho. A coluna. Outras vezes, só concordava quando o médico apontava. — Aqui está o coração. Meus olhos acompanharam o lugar indicado. Aquela pulsação pequenininha estava lá. Forte. Rápida. Viva. Sorri. Sem perceber. É estranho como algumas coisas conseguem atravessar qualquer preparação racional que a gente tenha feito. Eu sabia exatamente por que estava naquela maca. Sabia como tudo tinha começado. Sabia que existiam limites que precisavam ser respeitados. Sabia de todas as conversas que tivemos antes. Ainda assim, quando aquele coração aparecia na tela, alguma coisa dentro de mim sempre respondia. Não como eu esperava. Não como eu planejava. Só respondia. — Está tudo bem com o coração? — perguntei. — A frequência está boa. Assenti. Ele continuou o exame. O som do aparelho preenchia o espaço entre nós. Passei a mão discretamente pela lateral da maca, procurando uma posição melhor. Minha lombar vinha reclamando fazia alguns dias. O médico mudou o ângulo. Parou. Voltou. Franzi a testa. Ele movimentou o aparelho novamente. Passou pelo mesmo ponto. Depois voltou. Olhei para o rosto dele. A expressão não era mais a mesma. Foi aí que senti. Não dor. Não contração. Não enjoo. Silêncio. Existe um tipo de silêncio que não significa ausência de palavras. Significa que alguém está escolhendo quais palavras usar. E eu conhecia aquele silêncio. Já tinha visto médicos fazendo aquilo antes de conversar com famílias. Já tinha acompanhado pacientes que perceberam uma notícia r**m antes mesmo de ela ser dita. O corpo percebe. Talvez antes da cabeça. — O que foi? Ele não respondeu imediatamente. Clicou alguma coisa no computador. Fez uma medida. Voltou o aparelho. Meu coração acelerou. — Doutor? — Só estou conferindo algumas estruturas. A resposta deveria me tranquilizar. Não tranquilizou. Porque ele conferiu de novo. E depois mais uma vez. Fiquei olhando para a tela como se, de repente, eu pudesse aprender medicina fetal em cinco segundos e descobrir sozinha o que ele estava procurando. A imagem se mexeu. Uma perna. A coluna. Depois a cabeça. Ele parou justamente ali. Minha boca secou. — Tem alguma coisa errada? Ele respirou fundo. Foi discreto. Mas eu vi. — Lorena, eu quero olhar com bastante cuidado antes de te explicar qualquer coisa. Meu estômago afundou. — Se não tivesse nada errado, você não precisava olhar com tanto cuidado antes de me explicar. Ele me encarou. Não tentou sorrir dessa vez. Aquilo foi pior. Muito pior. Puxei o ar devagar. — Pode falar. O médico afastou um pouco o aparelho, mas não o retirou completamente. — Eu identifiquei uma alteração que precisa ser investigada. Alteração. Na medicina, algumas palavras parecem pequenas até serem colocadas dentro da nossa vida. Alteração. Suspeita. Investigação. Confirmação. Termos técnicos capazes de destruir uma pessoa sem levantar a voz. — Que alteração? Ele hesitou. — A formação da região craniana não está como deveria. Demorei alguns segundos para entender. Ou talvez eu tenha entendido imediatamente e apenas recusado. — Como assim? — Eu preciso que você faça um exame complementar com medicina fetal. É importante confirmar antes de qualquer conclusão definitiva. A minha mão foi para a barriga. Instintivamente. — Mas você está suspeitando de quê? Ele me olhou de um jeito que me fez desejar não ter perguntado. A sala parecia menor. O barulho do aparelho, mais alto. — Existe uma suspeita de anencefalia. A palavra caiu entre nós. Eu conhecia. Claro que conhecia. Já tinha ouvido. Já tinha lido. Já tinha estudado o suficiente para saber que aquela palavra não vinha acompanhada de finais fáceis. Mas saber o significado de uma palavra e ouvi-la ligada a um bebê crescendo dentro de você eram coisas completamente diferentes. — Não. Foi só o que consegui dizer. O médico manteve a voz calma. — Lorena… — Não. Olhei outra vez para a tela. O coração continuava batendo. Era isso que meu cérebro não conseguia organizar. O coração estava batendo. Eu tinha acabado de ver. — O coração está normal. — Está. — Então como… Minha voz falhou. — Como pode ter uma coisa dessas se o coração está batendo normalmente? — São estruturas diferentes. Uma boa frequência cardíaca não exclui outras alterações na formação fetal. Balancei a cabeça. Não porque discordasse. Porque eu não queria compreender. A minha mão permaneceu sobre a barriga. De repente, aquele lugar parecia diferente. Minutos antes, eu tinha feito uma piada sobre o gel gelado. Minutos antes, eu estava pensando no que faria depois dali. No horário. No trânsito. Nas coisas comuns. Agora não existia depois. Existia apenas aquela sala. A tela. A palavra. Anencefalia. — Você tem certeza? — Não. E eu preciso que você guarde isso: ainda estamos falando de uma suspeita. — Mas você viu alguma coisa. Ele não mentiu. E talvez eu tenha agradecido por isso mais tarde. Naquele momento, odiei a honestidade. — Vi sinais que precisam ser confirmados. Fechei os olhos por alguns segundos. Priscila. O nome surgiu na minha cabeça antes de qualquer outro. Meu peito apertou. Eu precisava ligar. Mas como? Como se conta uma coisa que ainda nem foi confirmada? Como se diz que um exame que deveria trazer tranquilidade terminou com um encaminhamento para medicina fetal? Como se pronuncia aquela palavra em voz alta outra vez? O médico me explicou os próximos passos. Ou tentou. Ouvi pedaços. Exame mais detalhado. Especialista. Avaliação. Confirmação diagnóstica. Prazo. Levei alguns segundos para perceber que ele havia terminado. — Você está acompanhada? Olhei para a cadeira vazia no canto da sala. — Não. — Quer chamar alguém? — Não. Respondi rápido demais. Não queria ninguém entrando ali. Não queria perguntas. Não queria abraços. Não queria olhar para o rosto de outra pessoa e encontrar o medo que eu estava tentando esconder do meu próprio. Ele me entregou papel para retirar o gel. Sentei devagar. Minha blusa parecia difícil demais de abaixar. Minha bolsa parecia pesada demais. Tudo exigia esforço. Até ficar em pé. Saí da sala com o encaminhamento dobrado na mão. No corredor, pessoas conversavam. Uma mulher grávida ria com um homem enquanto mostrava alguma coisa no celular. Uma criança corria perto das cadeiras. A recepcionista chamou uma senha. A vida continuava. Aquilo quase me ofendeu. Como o mundo podia continuar exatamente igual depois daquela palavra? Entrei no banheiro antes de ir embora. Tranquei a porta. Coloquei a bolsa sobre a pia. Fiquei olhando para o espelho. Meu rosto ainda era o mesmo. Meu cabelo. Minha roupa. Meus olhos. Tudo igual. Mas alguma coisa tinha se partido no intervalo de um exame. Olhei para minha barriga. Passei a mão sobre ela. — Não… Dessa vez saiu baixo. Quase um pedido. Não sabia para quem. Para Deus. Para o bebê. Para meu próprio corpo. Talvez para a realidade. As lágrimas vieram, mas segurei. Ainda não. Eu precisava pensar. Precisava fazer o exame. Precisava confirmar. Precisava… Priscila. Peguei o celular. O nome dela estava entre os primeiros contatos. Meu dedo ficou parado sobre a tela. Eu sabia que, depois daquela ligação, nada continuaria exatamente como antes. Mesmo que o segundo exame dissesse que tinha sido um engano. Mesmo que alguém aparecesse e jurasse que estava tudo bem. Aquela suspeita já existia. E agora nós teríamos que atravessá-la. Apertei para ligar. Um toque. Dois. Três. — Prima? A voz dela veio tranquila. Normal. Doeu mais por isso. Fechei os olhos. — Oi. — Já acabou o ultrassom? Minha garganta fechou. — Acabou. Ela ficou em silêncio por um segundo. — E aí? Não consegui responder. — Lorena? Apertei o telefone contra o ouvido. — Deu tudo certo? Olhei para o papel amassado na minha outra mão. Respirei. Uma vez. Duas. Na terceira, minha voz finalmente saiu. — Pri… — O quê? Engoli o choro. — Algo está errado.
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