Moscas, ratos, abutres e toda sorte de carniceiros oportunistas disputavam arduamente cada
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migalha nas pilhas de restos humanos que se aglomeravam em amontoados cada vez mais altos no pátio principal do castelo. Eram pés femininos, todos destros, de diferentes contornos e tamanhos, cada qual trazia nas ranhuras da pele sua própria trajetória, uma jornada trilhada a cada passo com a antiga dona, até a extirpação gratuita. As meninas, de sonhos e corpos mutilados, tinham em comum a esperança de viver uma vida melhor, alcançando uma nova perspectiva em meio ao caos. Fome, pestilência e dor eram agentes corriqueiros no cotidiano do Principado, uma verdade imutável com a qual foram obrigadas a conviver e crescer.
Durante a árdua caminhada em busca de redenção, além dos anseios, as jovens camponesas compartilharam um triste e semelhante destino. Ao longo da caçada desumana, da qual todas foram vítimas, muitas tentaram a todo custo fugir, mas não obtiveram êxito e foram alvejadas sem piedade. Com o coração transpassado por uma mortífera e afiada seta, cada rebelde tombou sem vida, mas ainda assim não foram poupadas de um derradeiro ato bárbaro. Tal qual as que se mantiveram resignadas, cada uma teve o tornozelo direito macerado pela lâmina certeira de um machado de cortar lenha.
Sonhos despedaçados. Desejos derramados no chão. Decepções refletidas no espelho vermelho de poças pecaminosas. Os membros arrancados eram testados na forma única de um calçado improvável. As repetidas frustrações eram lançadas na hedionda coleção de carne em decomposição.
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O Festejo Público Bimestral era o ato mais importante e esperado em toda a região. Era a ocasião em que o Príncipe oferecia um baile oficial à comunidade, oportunidade na qual uma jovem das cercanias era selecionada para fazer parte da corte. Mas a sorte grande exigia um preço: uma vez escolhidas, as moças nunca mais poderiam ser vistas em público novamente. Cerca de cento e vinte jovens já haviam sido elevadas de classe nos últimos vinte anos, desde a época em que o soberano resolvera fazer morada no castelo da província, vindo de outra parte do seu vasto domínio. Muitas eram as histórias acerca da riqueza e fartura que rodeavam as felizardas. Não havia uma só menina em todo o Principado que não suspirasse pelo mundo de sonhos escondido pelas paredes de pedra do castelo.
"Não há a menor possibilidade de você nos acompanhar ao baile, maldita. Você não é e nunca foi da família, nem mesmo quando o inútil do seu pai, aquele infeliz com o qual me casei, ainda dividia esse teto conosco, antes de desaparecer no mundo em suas andanças. Você, peste asquerosa, não passa de um estorvo cuja única serventia é arrastar os joelhos pelo assoalho a fim de pagar pelo prato de comida que consome.'
As palavras rudes da madrasta não doíam tanto quanto a constatação da realidade, pois, mesmo de forma perversa, a velha não deixava de ter certa razão. Desde que o pai saíra em viagem de negócios para nunca mais retornar, ela fora rebaixada à categoria de reles serviçal. Uma ninguém cujo direito de sonhar havia sido revogado por culpa das circunstâncias. Ao mesmo tempo em que sentia falta dos braços daquele que sempre a cobriu de cuidados, ela também o odiava, maldizia o dia em que ele a deixara sob o jugo de tão nefasta criatura.
Pela única entrada de ar do cômodo que chamava de quarto, mas que não passava de um úmido e escuro porão, a menina enxergava parte de um céu limpo e sereno. Os contornos amarelados e vivos da lua destacavam-se no tapete escuro e salpicado de pontos luminosos. Ela queria seguir para qualquer lugar, um porto seguro e distante, desde que fosse para muito além daquela ínfima manifestação de beleza natural. Porém a imagem projetada através do quadrilátero protegido por barras metálicas era a lembrança crua e direta da importância que sua existência significava para a madrasta e irmãs postiças: uma prisioneira, uma escrava sem direitos ou vontade própria.
A tristeza em seu coração era evidenciada pelas lágrimas que começaram a escorrer pela superfície alva do seu rosto. E, como se o céu, antes claro e intenso, se sensibilizasse com o estado de espírito que lhe abraçava naquele momento, repentinas nuvens surgiram e se espalharam de modo amplo pelo manto noturno, obscurecendo completamente as centelhas celestes. A imagem da esfera pálida ainda permaneceu por alguns segundos retida nas retinas da menina, mesmo depois de a lua ter sido engolida pela avidez da tempestade que se formava.
Não tardou para que a fúria dos céus desabasse em forma de pesadas gotas. Os gritos do vento, com açoites insistentes e violentos, atiçavam ainda mais o temor que corroía a sensibilidade cada vez mais abalada da estrutura emocional da garota. Amedrontada, ela se recolhia num canto do porão, abraçada aos joelhos, enquanto tentava conter o choro entoando uma antiga canção, uma melodia infantil que por inúmeras vezes imaginara a mãe, que não chegara a conhecer, cantando baixinhos junto a seus ouvidos.
A chuva entrava pela janela gradeada em caudalosos jatos que escorriam fartos pela parede embolorada. A menina teria subido as escadas e derrubado a madeira do alçapão que a trancafiava, mas as correntes e grilhões em seus pés impediam que se movimentasse para além dos domínios do estreito cômodo.
A chama da única vela já havia sido apagada desde as primeiras lufadas do vento gelado. A escuridão do ambiente só não era maior do que as trevas que tomavam o coração juvenil. Ela gritava, mas sua voz não conseguia competir com a violência da tormenta. Involuntariamente, a canção tornara-se uma incontida prece. As palavras murmuradas escapavam dos lábios como as folhas de uma árvore no outono. Uma vez liberto, o clamor ganhava o ar, ribombava nos tijolos expostos e, imediatamente, se dissipava, tal qual uma essência agradável sendo inalada com sofreguidão.
Nessas horas, invariavelmente, as preces são recheadas por um ingrediente muito específico: o desespero. E, o simples fato de existir alguém a beira do abismo faz com que surjam, ao mesmo tempo, diferentes meios de resgate e sustentação. Em momentos assim, o importante é saber escolher as mãos que surgem oferecendo auxílio. Mas, infelizmente, a urgência costuma nublar qualquer possibilidade de coerência ou discernimento, justamente quando se mais precisa de tais atributos.
Os olhos úmidos da menina focalizaram algo que, a princípio, ela julgou como uma espécie de miragem ou coisa do tipo. Em meio à cortina de água, que se formava na a******a incrustada na parede, era possível perceber as linhas de uma silhueta humana.
Esfregando o rosto a fim de clarear a percepção, ela teve a certeza de que não se tratava de uma alucinação. Havia uma pessoa do outro lado da janela e, com o súbito dissipar da nuvem de vapor, ficou ainda mais evidente a feição da estranha visitante.
A mulher ostentava frescor na maturidade das linhas de sua fisionomia. A beleza que exalava em cada contorno não correspondia a nenhum padrão que pudesse servir de comparação. Era algo frio, artificial, perene. Através dos círculos esmeraldas destacados em sua face pálida, era possível entender que o tempo não significava absolutamente nada para aquela mulher.
Num movimento discreto, a visitante fez a luminosidade voltar a existir nas trevas. Não só na vela solitária, mas em diferentes pontos nas ranhuras das laterais de pedra. Chamas brotaram de forma espontânea em pontos aleatórios nas paredes. As barras de ferro da janela se contorceram como se fossem constituídas pela mais maleável das matérias.
Sinuosa, a visitante atravessou o vão e caminhou até o canto ocupado pela menina. Sem dizer uma palavra, os dedos esguios da estranha deslizaram pelo ferrolho atrelado ao delgado tornozelo da prisioneira. A fechadura, sem oferecer qualquer resistência, emitiu um leve chiado antes de se desmanchar na madeira apodrecida do assoalho.
— Quem, quem é você? —A pergunta demorou um pouco a sair dos lábios da recém liberta, como se ela custasse a acreditar no que acabara de acontecer. Até então, a possibilidade real de receber ajuda de alguém era algo inconcebível.
— Uma opção, querida. Sou a sua possibilidade de salvação. Mas preciso saber se você está, de fato, disposta a ser salva.
— Eu faço qualquer coisa para ter minha vida de volta.
— Qualquer coisa?
— Qualquer coisa.
— Diga-me, você gostaria de ir ao Baile Bimestral?
— Minha madrasta jamais deixaria. Apenas membros de famílias constituídas são dignos do convite, e eu...eu...bem...ela não me reconhece como parte da família...
— Você não respondeu à minha pergunta. Você quer ou não quer ir ao baile?
— Sim. Só em ter a possibilidade de circular ao ar livre já seria uma benção em minha vida, quanto mais a oportunidade de conhecer o castelo do Príncipe.
— Ou ser escolhida por ele...
— Não sonho com tanto...
— Eu posso fazer com que você seja a escolhida, desde que você siga à risca o que eu disser.
— Sim. Eu sigo...eu faço qualquer coisa...
— Pois bem, escute...
A carruagem que conduzia o mensageiro finalmente chegava à área mais isolada do
Principado. Como era costume, nenhuma região poderia ficar de fora do grande evento, nem mesmo as partes menos favorecidas. As estreitas vielas de terra batida dificultavam a passagem do vagão, cujas rodas ficaram atoladas na lama produzida pela tempestade da noite anterior. O cocheiro, olhando pela pequena portinhola da cabine, meneou a cabeça de forma negativa. O mensageiro, por falta de opção, decidiu saltar da viatura e seguir a pé a fim de cumprir a missão a ele delegada.
O sujeito atarracado, de tronco espesso e olhar vazio, não hesitou em pousar as botas de couro nas poças barrentas. Poucas casas restavam na região, bem menos do que da última vez em que estivera naquele antro de decadência e penúria.
De imediato, seus olhos fitaram a menos deplorável das residências. Não que a estrutura composta por pedras cruas e madeira carcomida exibisse um diferencial digno de menção, mas a tentativa evidente de conservação fazia com que se destacasse diante das demais moradias.
Muito daquele esforço na manutenção da casa só existia pela presença da menina que passava as noites no porão, local que era terminantemente proibida de limpar, embora todos os outros cômodos devessem refletir asseio em cada recanto.
O homem não costumava guardar nomes ou fisionomias, tal fato era irrelevante em sua missão, afinal, nenhuma das moças importava além do propósito único para a qual serviam. A não ser que alguma delas fosse "a" pessoa correta. Para o resto, bastava que fossem jovens e saudáveis que já estava de bom tamanho. Era assim há bastante tempo, em todas as províncias e vilarejos visitados pelo Príncipe.
O mensageiro resolveu seguir direto para a casa em destaque. Antes mesmo de bater na madeira, a porta se abriu como se o visitante já fosse aguardado.
— Bom dia, senhorita — os olhos vazios do vassalo faiscaram diante da jovem que lhe oferecia um belo sorriso. Por mais que o homem não guardasse fisionomias, ele tinha a mais absoluta certeza de que se tivesse visto aquele rosto antes, jamais teria se esquecido.
Bom dia, senhor!
— A pessoa que responde pela casa está?
Por um instante, a menina hesitou. Os membros de cada família, desde as nobres até as mais humildes, devem exibir tatuados na pele os ideogramas que representam sua linhagem. Os símbolos são mesclados conforme os casamentos ocorrem. Somente os párias não detêm nenhum sinal, e como tal são totalmente desprezados pela sociedade.
Desde o desaparecimento do pai, seu símbolo de família fora sumariamente distorcido por uma queimadura a ferro em brasa. A madrasta não queria que os traços de sua linhagem fossem expostos na pele de uma criatura repugnante como ela, assim dizia.
— Ela não está.
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— E você, minha jovem, quem é?
— Sou apenas uma criada.
— Tem alguém da família em casa?
Não. Não tem ninguém aqui.
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— Lamento, mas não posso deixar os convites para o Baile Bimestral com alguém que não seja da família.
Mesmo desconcertada, a menina sabia que não havia como recuar. A estranha do porão lhe garantira que o plano funcionaria. Ela achava que poderia obter um dos cartões dourados sem ter de fazer uso do método nada usual sugerido pela mulher. Mas, de qualquer modo, ela já havia ido longe demais. A chance de ser escolhida pelo Príncipe era sua única opção. E, antes que o homem virasse as costas e fosse embora, ela resolveu agir.
— Espere! Espere, por favor.
— Sim?
— Talvez possamos fazer uma troca.
Intrigado, o mensageiro aguardou pelo desfecho da inusitada situação. O que ele não sabia era que na noite anterior, logo após o encontro com a visitante vinda da tempestade, a menina, aquela mesma com olhar cativante e angelical, subira as escadas proibidas do porão, tão silenciosa quanto um gato sorrateiro. Nas mãos, ela levava um importante instrumento, algo fundamental para a execução do plano traçado por sua salvadora.
Ela seguiu diretamente para o quarto da madrasta, a qual, naquela altura, dormia o sono da esperança, vivendo o sonho de ter uma das filhas escolhidas pelo Príncipe.
Uma sombra não seria tão discreta. A menina ganhou as dependências do quarto que só tinha permissão para entrar nas ocasiões de limpeza. Ela trazia no rosto uma expressão doentia, traços que jamais poderia imaginar que fosse capaz de exibir. O ódio cultivado por anos impelia seus movimentos. A bruxa maldita estava ali, indefesa e entregue, repousando diante de sua ira.
Com um único e preciso golpe, exatamente do jeito que a estranha instruíra, ela enterrou a longa e fina lâmina de um punhal na garganta da mulher. Não tardou para que o sangue jorrasse como um rio nos lençóis brancos que ela se cansara de lavar. Mas o líquido precioso não poderia ser desperdiçado. Seguindo o plano, a menina pousou um vasilhame para receber
a cascata rubra. Sem perceber, ela sorria para a escuridão, não disfarçando o deleite encontrado no ato que acabara de cometer e, já sentindo a excitação tomar seu corpo, pois ainda faltavam mais duas vítimas. A noite seria longa e extremamente prazerosa.
VI
— E então, minha jovem, que tipo de permuta a senhorita tem em mente?
— Uma proposta que tenho certeza ser do seu interesse. O senhor me fornece um dos convites para o baile e eu lhe dou isto.
Os olhos do sujeito faiscaram pela segunda vez naquela tarde. Para seu completo estarrecimento, a menina, de aparência frágil e inocente, lhe estendia um cesto de palha repleto de garrafas preenchidas até a boca por um líquido vermelho e caudaloso. O homem não compartilhava da mesma natureza de seu senhor, mas ele sabia mais do que ninguém que a fonte de força e riqueza do mestre provinha da essência daquele néctar incomparável.
Apenas alguns membros de sua família conheciam a verdadeira história de vida do Príncipe. Um segredo transmitido em momentos oportunos para poucos descendentes, criteriosamente escolhidos, para guardar e defender os interesses do monarca.
VII
O Príncipe governava a área compreendida desde os pés da muralha de rocha sólida da longínqua e vasta cadeia de montanhas na região meridional do país, até as areias finas e brancas do litoral. Mas o poderoso homem, cuja riqueza nos dias atuais não poderia ser calculada, fora, na juventude, o herdeiro de um trono falido. Apesar da nobreza no sangue, seus ancestrais trataram de minar à exaustão todos os bens da família ao longo do tempo, fazendo com que toda a riqueza fosse reduzida a uma pilha de papéis com dívidas contraídas.
Em desespero, o jovem herdeiro apelou para forças inomináveis, e foi ouvido. A voz das profundezas lhe disse que para ter a eternidade e, consequentemente a possibilidade de riqueza prorrogada de forma ilimitada, bastaria que ele renunciasse a tudo em que acreditava e, o mais importante, que ele sorvesse a vida de sua única irmã, literalmente. Assim ele fez. Sem qualquer remorso, matou em sacrifício o único traço de família que ainda lhe restava e, o que era pior, provou do mesmo sangue que corria em suas veias.
Como resultado de tão hediondo pacto, o Príncipe dominou a ação do tempo em seu corpo. Daquele momento em diante, os anos pouco significariam para ele. Com o auxílio de um aliado tão importante, não foi difícil reconquistar e multiplicar o que sua família havia gasto de forma tão leviana. Mas, via de regra, atos sórdidos não são cometidos sem que sérias consequências surjam como uma indesejável companhia.
O líquido da vida, roubado e degustado com intenções execráveis, passou a ser sua salvação e perdição. O Príncipe, além de perder a alma para criaturas indignas de pisar esse plano, se transformou num e*****o do néctar rubro. Para manter o corpo são, ele precisava consumir, no mínimo, aproximadamente cinco litros de sangue a cada dois meses, uma jovem mediana, tendo em vista sua predileção pela semelhança física da irmã.
Mas, o que o monarca desconhecia, era o fato de que sua irmã dera luz a uma filha bastarda na ocasião em que ficara fora pelo período de um ano, sob o pretexto de estudo numa das províncias do Principado.Desta forma, o demônio lhe garantiu que o sacrifício não havia sido concluído a contento, pois, aquela criança daria origem a reencarnação de sua irmã em alguma geração futura. Poderia demorar muito tempo, muito mais do que qualquer ser humano seria capaz de imaginar, mas a deterioração em algum momento abraçaria a estrutura corpórea do Príncipe até o seu completo desaparecimento. Assim, como ele já era desprovido de alma, também seria destituído de um corpo, sendo reduzido a absolutamente nada.
Para evitar que um destino tão aterrador lhe tocasse, o Príncipe deveria localizar a criança, impedindo assim que ela pudesse favorecer o ressurgimento da irmã sacrificada.
Ele tentou. Fez tudo que estava em seu alcance para identificar a maldita criatura dentre as inúmeras crianças nas mais diversas províncias do Principado. Chegou a copiar um rei de um tempo perdido, mandando executar todas aquelas que pudessem ser a sobrinha que não lhe agradava. O ato impensado serviu de ensinamento, algo que ele guardaria para sempre, o povo, quando acuado, pode se tornar o pior dos inimigos. Além do insucesso na busca, ele quase viu seu poder ser derrubado pelos revoltosos que surgiram contra a barbaridade dos seus atos.
Mas o Príncipe aprendeu com seus erros. Até então, ele fazia uso da violência desmedida para tomar do povo a quota de sangue que precisava para viver, mas a partir das ameaças causadas pelo medo, ele passou a executar o subterfúgio que considerou perfeito: distribuir esperança e sonho, para colher discretamente o necessário para sua subsistência. As futuras vítimas passaram a disputar a chance de desfrutar dos prazeres do castelo.
Ele nunca achou a criança. As imperceptíveis mudanças em seu aspecto físico contribuíram para que o ímpeto em buscá-la, ou no caso, seus descendentes, diminuíssem consideravelmente ao longo do tempo. Até mesmo o gosto pelo sangue se tornou algo mecânico em sua vida. Ele circulava pelos próprios domínios, e por outros, de tempos em tempos como um nômade abastado mais por conveniência do que propriamente por convicção de que acharia o sangue perfeito.
Durante anos, ele não mudou seu modo de agir: promovia os bailes, escolhia as vítimas, usufruía do seu sangue, e vivia noite após noite. Quando se cansava, procurava outro ponto e continuava sua nefasta rotina.