A garota do porão (part II)

3815 Words
O povo, t**o e sonhador, nada percebia, ou não queria perceber, acerca da névoa sombria que rodeava os passos do governo itinerante. O próprio rosto do Príncipe era um mistério. Ele raramente aparecia, e quando o fazia, carregava sempre uma máscara sobre a face. Em momentos oportunos, ele assumia a identidade de filhos que não existiam. Herdeiros fantasmas gerados por Princesas que jamais eram vistas. Ele forjava a própria morte e ressurgia sob um novo numeral após o nome, uma identificação que o tempo tratou de apagar. Com o passar dos anos, o governante se tornou conhecido apenas como " O Príncipe", nada além disso. Fachadas. Teatralidade. Mentiras. Enterros secretos com caixões vazios. Casamentos com cerimônias restritas. Nascimentos sem ostentação. A juventude eterna encobria as incoerências. A promessa de ouro atiçava a cobiça. Seria uma estratégia perfeita se não fosse pela ação de um agente indomável. As areias do tempo, apesar de lentas, continuavam a se mover, moldando ininterruptamente as linhas do destino. O Príncipe sabia que se provasse do sangue perfeito, saberia. Seu paladar nunca mais provara do mesmo gosto experimentado há tanto tempo, mas ele confiava na memória sanguínea incrustada em cada célula do seu corpo. No entanto, a lembrança, apesar de ainda resistir tal qual uma chama bravia, se mostrava cada vez mais reclusa num ponto perdido do seu existir, talvez sendo sufocada pela deterioração da mente, que, por sua vez, acompanhava o definhar do corpo, exatamente como previra o demônio. As últimas décadas foram cruéis. Pele e músculos perderam força e vitalidade. A cor deixou os cabelos. Os instintos não agiam a contento. As pálpebras não mais se abriam, selando os olhos numa escuridão irreversível. O poderoso e altivo monarca m*l conseguia se manter de pé. A única salvação que lhe restava seria localizar o legado de sua irmã e finalizar de uma vez por todas o maldito sacrifício. No entanto, ele sabia que essa possibilidade se mostrava cada vez mais remota e que, talvez, o tempo que sempre lhe fora um fiel escudeiro, resolvesse, no fim das contas, se mostrar mais c***l do que ele próprio fora no decorrer de sua vil existência. VIII O vassalo sempre teve vontade de provar dos nutrientes miraculosos atribuídos ao sangue fresco. Mas esse desejo não poderia jamais sair do único local que lhe era permitido existir: os pensamentos. Ninguém, ninguém tinha a permissão do Príncipe para roubar uma só gota que fosse do sangue alheio, o castigo para tal afronta era a própria morte. Mesmo vendo o mestre inoperante no trono, ele já fora testemunha ocular de feitos inconcebíveis por parte do soberano. Portanto, mesmo vendo o senhor debilitado, não era uma boa ideia desobedecer a qualquer uma de suas ordens. Porém, ele não estava prejudicando ninguém. A jovem a sua frente, sim, era quem estava lhe oferecendo de bom grado um tesouro inestimável em troca de tão pouco. Se alguém tivesse tomado à força o sangue de outra pessoa, esse alguém era a garota, não ele. De qualquer modo, o convite era para aquela casa, o mestre não faria distinção de quem fosse representando a família. Se ele tivesse sorte, a menina seria escolhida e morta, e esse segredo jamais viria à tona. — Está bem, senhorita — disse o mensageiro, sem esconder a satisfação — estou disposto a aceitar sua oferta. — Pois bem, meu senhor, aqui está o que tenho a lhe oferecer. — E aqui está o seu convite. Seria atrevimento perguntar o que aconteceu com os demais membros da família? — Seria um atrevimento desnecessário, visto que o senhor não é um homem desprovido de inteligência. A jovem sorriu ao final da afirmação, no que foi acompanhada de forma desconcertada pelo homem. Antes de deixar o local, o vassalo ainda olhou para trás, no intuito de contemplar pela última vez a beleza sombria da mais recente convidada para o baile, mas só encontrou a madeira da porta a lhe oferecer um adeus seco e decidido. IX A menina atravessou os portões do castelo fascinada por cada detalhe focalizado por seus olhos. Sons, aromas e cores tão diferentes dos limites daquela prisão com a qual se acostumara. Ela m*l se lembrava de como era o mundo antes da vida com a madrasta. A estranha do porão havia sido clara: os corpos das irmãs postiças e da velha maldita não constituíam uma paga suficientemente alta para manter controlados os demônios que lhe serviriam naquela noite. Portanto, antes do primeiro minuto do novo dia, ela já deveria estar de volta ao lar, pois as bestas não mais se manteriam dóceis, e não fariam qualquer distinção entre as prováveis vítimas. A carruagem parou defronte à entrada principal da residência oficial do Príncipe na província. A menina sabia que era preciso seguir em cada detalhe as recomendações de sua protetora. Um tecido de textura e aparência indescritíveis envolvia seu corpo num vestido de corte único. Sua presença monopolizava todos os olhares, uns com inveja, outros com cobiça, mas todos, sem exceção, foram enfeitiçados pelo magnetismo que exalava da jovem. Durante toda a noite, ela se esquivou de investidas, convites, promessas, súplicas, ameaças e ofensas. O motivo de sua ansiedade ainda não havia aparecido. Muitas jovens, que chegaram ao baile com o coração pleno de esperança já haviam desistido, pois a certeza de uma disputa injusta dominava suas convicções. Para estas, só restava o consolo de buscar um pretendente decente em meio aos convidados. As que ainda confiavam no próprio potencial tentavam ignorar que, se aquela garota realmente quisesse, o Príncipe não resistiria aos seus encantos. Quando as luminárias foram apagadas de uma só vez, e toda a iluminação do ambiente passou a responder unicamente pelo crepitar do fogo vivo, que ardia numa gigantesca lareira postada na parte oposta à entrada do salão, todos os convidados se eriçaram. O Príncipe chegava ao recinto. O velho erguido por quatro serviçais numa cadeira de madeira n***a, meticulosamente entalhada e ornada por peças douradas, nem de longe lembrava a figura altiva de outros tempos. Mas, se mesmo decadente o monarca impunha respeito e reverência com a simples menção do seu nome, o que dizer da rara aparição em público? As jovens correram em sua direção, até mesmo as que estavam acompanhadas largaram os braços dos parceiros, rumo ao sonho de luxo e riqueza. Uma fila se formou diante do monarca. A exceção era justamente a menina do porão, que se manteve altiva em sua posição, apenas observando as concorrentes. Completamente cego, a percepção do Príncipe já não era tão seletiva ou precisa quanto em outros tempos. Ele também pouco distinguia com o olfato, outrora um instrumento altamente eficiente. Nos últimos anos, para escolher, ele fazia uso do único sentido no qual ainda confiava: o paladar. Uma a uma, as camponesas passavam diante do Príncipe e lhe estendiam o braço. O monarca, de forma lenta e gentil, deslizava a língua áspera por sobre a pele viçosa das damas. Pacientemente, a menina do porão esperava a sua vez. De acordo com as instruções de sua protetora, ela deveria ser a última a se aproximar do soberano. As negativas se sucediam ininterruptamente. Uma boa opção se tornava uma sorte cada vez mais rara. Resignado, o governante já cogitava selecionar qualquer uma delas. O sangue serviria para aplacar a necessidade, mesmo que não houvesse gosto algum durante o processo vital. A certeza do desaparecimento do seu existir ficava cada vez mais evidente. Por fim, o dedo ressequido do soberano apontou para uma garota de cabelos negros e cacheados. Um dos serviçais tratou de conduzi-la pelos braços para as dependências restritas do castelo. Enquanto a felizarda era levada, a menina do porão atravessava o salão de forma decidida rumo ao Príncipe. A debilidade do governante retardou a cerimônia além do previsto, fato que culminou com a pressa na ação a ser tomada pela última convidada a ser testada. Era quase meia-noite. O horário maldito se aproximava com velocidade contrária aos desejos da garota. Os passos apressados a fizeram chegar rapidamente ao Príncipe, que já era levado de volta. Com a mão enluvada, ela deixou um pequeno frasco no colo do velho, voltando-se imediatamente para o salão. Naquele momento, as passadas largas já respondiam por uma corrida desabalada. Curioso, o monarca tomou o cilindro de vidro nas mãos. Uma espécie de calor emanava do recipiente, algo que o fez tremer dos pés à cabeça. De modo atabalhoado, ele quebrou o invólucro e levou o líquido que escorria dos cacos à boca. O velho urrou. Sua voz ecoou pelo ambiente secular como há muito não fazia. — Peguem essa mulher! Agora! A menina já havia deixado as dependências do castelo. As doze badaladas ressoavam forte na torre da capital do Principado. Uma horda de sombras endemoninhadas deixava as cascas vazias dos cavalos e do cocheiro que serviram à moça na condução até o baile. Os demônios espalharam o pânico e o caos entre a multidão que tentava deixar a residência do Príncipe. A menina do porão já não exibia as linhas finas do vestido com o qual chegara. Naquele momento, ela trajava os mesmos trapos imundos que era obrigada a usar pela mulher cujo cadáver fora devorado pelas criaturas que se arrastavam pelas paredes do castelo. A única peça do vestuário que se mantinha magnificamente enfeitiçado era o calçado do pé direito da garota, que havia se soltado no salão durante a corrida precipitada. Como uma mendiga, a jovem se arrastou, mergulhada na enlouquecida multidão, numa tentativa vã de chegar a uma carruagem que já não existia. Em seu lugar, vermes e insetos se misturavam a ossos, pedaços apodrecidos de abóboras e outras plantas rasteiras, além de restos não digeridos de carne fétida. Por um momento, ela se desesperou. Mas logo seu coração se acalmou quando, em meio aos gritos e mortes, seus olhos fitaram os contornos familiares que ela já tinha enxergado antes, em seu porão, durante uma tempestade sobrenatural. Sua protetora lhe acenou, e ela seguiu o sinal, encontrando o caminho certo por entre a turba enfurecida. x Por pouco tempo, o Príncipe experimentou a vivacidade e o poder de um corpo indestrutível novamente, pois a ínfima mostra, recém adquirida, de sua antiga força fora totalmente consumida durante a expulsão das sombras demoníacas que haviam ousado invadir os seus domínios. Somente um demônio podia habitar esse plano: ele. E todas as outras criaturas rasteiras que se esquecessem disso deveriam ser banidas para as profundezas abissais. A visitante do porão sabia e contava com isso. Durante vários dias, ele procurou a jovem que lhe ofertara o mais precioso dos presentes, aquilo que ele mais desejava em toda a sua vida maldita: o sangue do sacrifício. Ele tinha pouco tempo para encontrar a herdeira daquele sangue, sugar sua vida até a última gota e se tornar definitivamente vivo para sempre. Seu tesouro estava tão próximo, ele não poderia e não iria escapar dessa vez. A antiga fúria assassina voltara mais intensa do que jamais existira. Ele já não fazia questão de manter a conduta de discrição e bom senso. Seus homens passaram a espalhar dor e morte em cada vilarejo do Principado. Caso não a encontrasse, tinham ordens para invadir os reinos vizinhos, o monarca queria aquela mulher mesmo que tivesse de proclamar uma guerra contra o resto do mundo. O único que poderia conduzi-lo diretamente ao objeto do seu desejo já não caminhava entre os vivos. O mensageiro, o mesmo que vira o rosto da menina do porão e sabia exatamente onde localizá-la, morrera consumido pelo próprio desejo de conhecer as propriedades míticas do sangue. Um sangue de criaturas vis. Roubado de forma c***l. Sordidamente maculado por substâncias ancestrais. Um sabor que ele jamais provaria novamente. As jovens sequestradas eram obrigadas a experimentar o sapato envidraçado largado pela procurada durante a fuga. Como resultado dos sucessivos fracassos, cada pé direito descartado era separado do corpo da vítima pela força das lâminas empunhadas pelos soldados e, em seguida, atirado no pátio. O intuito da violência era marcar, ainda que de modo e******o e desnecessário, as moças já testadas e evitar que se perdesse ainda mais tempo com investidas repetidas. Muitas se recusavam a seguir o séquito de sangue, e lutavam literalmente até a morte para evitar que fossem brutalmente mutiladas. Mas mesmo com toda a luta, depois de assassinadas, tinham os pés decepados para teste. Um mar de cadáveres tomava as ruas de pedra dos vilarejos. A distância considerável em relação à capital do Principado havia garantido a paz no mais pobre dos vilarejos durante os primeiros dias de terror, mas a situação estava prestes a mudar. Desde o baile, seguindo a orientação fornecida por sua protetora, a menina mantivera-se em absoluta reclusão, alheia a tudo que acontecia. Ela confiava plenamente na mulher que havia mudado sua vida. A visitante havia lhe dado sua palavra de que a amostra de sangue tirada do seu corpo e entregue ao Príncipe seria sua passagem definitiva para a corte e, consequentemente, para um mundo melhor. De fato, tudo que a estranha dissera havia acontecido. O mensageiro aceitara a proposta de troca. Da pequena horta, nos fundos da casa, surgira a carruagem que a levaria ao baile. Criaturas noturnas bateram à sua porta para buscar os corpos das malditas e na mesma hora se tornaram eficientes serviçais. E, finalmente, ao soar das doze badaladas da noite, o encanto terminara, liberando a horda ao seu estado natural. Agora, conforme o prometido, era só aguardar a chegada dos homens do castelo para levá-la ao convívio do monarca. XI O sono da menina fora interrompido pelo trotar furioso de inúmeros cavalos. O som de gritos e choro era ouvido em todas as direções. Assustada, ela tentou olhar por uma fresta na porta principal da casa, mas tudo que sua visão conseguiu alcançar foi a imagem crescente da sola barrenta de uma bota de caça vindo em sua direção. A prancha de madeira tombou imediatamente, tamanha a força do golpe. O corpo da menina ficou preso entre a folha de cedro e o chão. Ela não obteve a ajuda que sua voz pedia, pelo contrário, uma mão pesada a ergueu pelos cabelos e a arrastou pelos cascalhos da única via pavimentada da vila. A jovem chorava extravasando o desespero que consumia seu coração. Ela não entendia o que estava acontecendo. Não deveria ser assim. Afinal, a visitante havia lhe garantido que ela se tornaria uma princesa, que alcançaria um poder inimaginável, mas o cenário ao seu redor em nada sugeria a vida de luxo e riqueza decantada pela estranha. Várias moças como ela eram espancadas, enquanto eram arrancadas de dentro de suas casas e arrastadas como fardos inúteis. A dor e o agonia que ela experimentava na própria carne também eram vividas pelas vizinhas que nunca tivera a oportunidade de conhecer. De nada adiantavam seus apelos, suas súplicas por piedade. Algumas corriam pela praça e eram alvejadas ser qualquer sinal de compaixão por aqueles homens que emitiam um brilho doentio no olhar. Como um traste imprestável, tal qual se sentira e fora tratada durante boa parte de sua curta existência, a garota foi jogada na caçamba gradeada de uma carroça. Um lugar pútrido e nauseante, uma lembrança imediata do porão escuro que por tanto tempo ela chamou de lar. Lágrimas sofridas escorriam pela maciez encardida do seu rosto. Uma visão quadriculada lhe mostrava parte de um céu estrelado e vivo, mas ainda assim melancólico e sombrio. Um arrepio gelado eriçou os pelos dos seus braços, ao passo que uma brisa úmida invadia suas narinas. Cheiro de chuva. Por que sua protetora a abandonara desse jeito? Por mais que ela se perguntasse, não encontrava respostas. Nuvens carregadas tomavam lentamente o céu... XII A mais recente remessa de jovens para teste aguardava no calabouço do castelo. Uma a uma as moças eram retiradas e não mais retornavam. Gritos de dor chegavam aos ouvidos das que ficavam nas celas. A menina do porão recolhia-se num dos cantos imundos do recinto. Permanecia abraçada aos joelhos, como costumava fazer quando sentia medo. Ela queria cantarolar a canção que lhe acalmava, mas não conseguia se lembrar das notas. Todas as prisioneiras foram levadas e, mais rápido do que poderia imaginar, ela se viu só naquele ambiente de perdição, numa agonia que insistia em se alongar. Seu desejo era de que fosse levada de uma vez por todas, precisava acabar com o sofrimento. Mas, como todas as vontades que já tivera na vida, essa também não fora atendida. Seria a última a ser levada. A esperança de que alguma coisa boa pudesse acontecer já havia se dissolvido em seu peito. E, quando ela viu a imagem carrancuda do carcereiro surgir diante da cela, uma onda de choque pareceu percorrer sua corrente sangüínea. O homem lhe oferecia um sorriso mutilado por entre a profusão de fios espessos e fartos que escondia a pele enrugada do seu rosto. O vassalo não disfarçava o extremo prazer que sentia ao testemunhar o desespero daquelas pobres almas. Boa parte das terras do Principado havia sido maculada pela aura maligna emanada pelo soberano. Uma essência perversa como a dele, quando liberada após tanto tempo reprimida, facilmente consegue corromper a alma dos mais fracos, daqueles que não conseguem domar a nesga sombria que todo ser humano carrega dentro de si. — Chegou a sua hora, v***a! A menina não gritou. Não esperneou. Não se debateu. Até mesmo o choro sofrido, que a acompanhara desde o sequestro, se reduzira a algumas lágrimas absorvidas pela poeira do seu rosto. A resignação a tomava pelo sussurro que suavemente era soprado em seus ouvidos. XIII A menina do porão era levada na direção do altar onde estava postado o sapato de vidro. O trono do Príncipe ficava exatamente defronte ao pilar de granito. Mas o monarca não ocupava o espaço que era o símbolo de poder, não naquele momento. A silhueta debilitada do homem quase desaparecia nas sombras de um ataúde de linhas rústicas. Em busca de vigor, o corpo ressequido era absorvido pela maciez arroxeada de tecidos seculares. O estofamento, devidamente salpicado por particulados de sua terra natal, lhe garantia apenas um consolo, pois a salvação definitiva e desejada estava nas veias de uma de suas súditas. Não havia mais espaço para disfarces, nem necessidade de ocultação. A verdadeira natureza do monarca estava exposta para quem quisesse ver. De um jeito ou de outro tudo se resolveria. Ou ele encontraria a salvação que lhe daria o poder para expurgar de vez todos os seus temores, ou definharia até o vazio da inexistência, sendo consumido pela voracidade da própria carne. Uma lufada mais forte espalhou o pesado ar do salão nobre do castelo. E, conforme o som dos passos se tornava cada vez mais próximo, um aroma adocicado preenchia as narinas quase inoperantes do morto-vivo, proporcionando que uma corrente elétrica percorresse cada célula adormecida do seu corpo. A criatura, que já não exibia qualquer traço humano, abriu os olhos e se levantou, sem usar apoio algum durante o ato. Não seria preciso experimentar a forma do calçado. Ele sabia. Tinha plena certeza de que a herança maldita de sua irmã estava ali, diante dos seus olhos, ao alcance de suas garras. O serviçal, que trazia a prisioneira, se colocou, inadvertidamente, no caminho do Príncipe, na esperança de receber algumas palavras do seu senhor. No entanto, ele nada recebera além de um golpe certeiro no pescoço, um impacto tão forte e eficiente que fez sua cabeça rolar pelo mármore do chão, deixando um rastro vivo por onde passou. A menina não demonstrou temor, parecia estar preparada para o que aconteceria a seguir. A língua da criatura chicoteava involuntariamente o céu da boca, enquanto uma gosma esbranquiçada escorria pelo arremedo de queixo. Finalmente, ela teria todo o poder que só a imortalidade plena era capaz de proporcionar. Para isso, bastava que rasgasse a garganta daquele frágil e inexpressivo ser, sorvendo a essência de sua vida em homenagem àquele que há muito o abraçara em p******o, tomando para si a alma que um dia tivera. O Príncipe saltou decidido a resgatar o que lhe pertencia. Um sibilar sussurrante se transformou numa palavra límpida na percepção da menina. A voz disse com convicção: "Agora!" Os dentes afiados da criatura não chegaram a tocar na maciez alva do pescoço de sua vítima. O Príncipe sentia um torpor irresistível dominar cada músculo do seu corpo. Não havia como se mover. Por um breve instante, ele experimentou algo que já havia se esquecido de que um dia ocorrera em seu organismo: o palpitar ritmado do coração. No fim das contas, a menina percebeu que sua protetora não a abandonara como chegara a pensar. Pouco antes de ser levada, a voz cristalina da visitante do porão ecoara em sua cabeça lhe dizendo exatamente o que fazer. Atrelada em sua bota esquerda, ela encontraria uma rígida seta de madeira de lei. Quando o demônio a atacasse, ela deveria ser rápida e precisa. Um único golpe no centro do peito bastaria para domar o ímpeto e a fúria da criatura. Mas o trabalho ainda precisava ser concluído. E assim ela fez. Com uma habilidade talhada pelos trabalhos manuais, a menina atacou a criatura petrificada, retalhando a densa casca que revestia seu pescoço. Uma fonte n***a brotou do vão escancarado. Os lábios doces receberam com ansiedade o líquido gelado que escorria. A garota do porão sentiu um turbilhão de sensações dominarem seu corpo. O conhecimento de eras vividas invadia sua mente. O poder absoluto a tocava. A imortalidade a saudava. Ao provar do sangue do Príncipe, seu irmão em outra vida, ela finalmente finalizava o sacrifício. Desta vez não haveria herdeiros perdidos. O monarca morto era um demônio, e como tal era incapaz de gerar filhos de sangue. Ela sentia que poderia conquistar o mundo. Sim, poderia, se não fosse pela ação sorrateira de uma haste aguçada de madeira que transpassava seu tórax com violência, paralisando totalmente suas vontades. Um par de lágrimas negras escorreu pelo rosto da garota do porão. O músculo em seu peito palpitava intensamente. Doses incomparáveis de energia vital percorriam um caminho sem volta em suas veias. Havia chegado o momento exato para o sacrifício. A visitante noturna, aquela que costumava agir nas tempestades, devorava com sofreguidão o órgão ensanguentado arrancado do peito de sua protegida. O coração, ainda quente e vivo, palpitava nas mãos da bruxa, exatamente como lhe fora instruído durante o pacto efetuado com uma criatura inominável, a mesma que sempre se mostra disposta a atender aqueles que clamam por ela, e que, certamente, ainda teria muitos com quem negociar ao longo de uma falsa eternidade. Logo após suas últimas palavras de elogio a Sara, as luzes apareceram quebrando o nevoeiro, assim como o som cortou o quieto ar assombroso do lugar e, como o mais forte corte de ansiedade, o impacto, de uma vez por todas, dera fim à relação do casal. /
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