o que nao dá pra evitar

697 Words
A volta do restaurante foi silenciosa. Não um silêncio desconfortável — mas um silêncio carregado. O reflexo azul do oceano ainda parecia grudado na pele de Elisa. O vestido vermelho contrastava com a noite, com os cabelos ruivos soltos, com o batom ainda intacto nos lábios que Elijah não conseguia parar de olhar. Quando chegaram ao bangalô, ela parou na porta da varanda. O mar estava escuro agora, pontilhado por luzes distantes. — Hoje foi… diferente — ela disse, de costas pra ele. — Foi — Elijah respondeu. Ele se aproximou devagar. Não tocou. Ainda. — Depois do beijo na praia — ela continuou — eu achei que a gente ia fingir que nada aconteceu. — Eu tentei — ele admitiu. Ela virou-se. Ficaram frente a frente, tão perto que dava pra sentir a respiração um do outro. O vestido dela roçou na perna dele. O cheiro dela era quente, familiar demais para alguém que ele conhecia há tão pouco tempo. — Você está me olhando de novo — ela disse, a voz baixa. — Porque agora é impossível não olhar — ele respondeu. Elisa engoliu em seco. — Se a gente continuar… — ela começou. — Eu sei — ele interrompeu. — Mas dessa vez, só se você quiser. Ela não respondeu com palavras. Apenas se aproximou. O beijo veio mais intenso, mais firme, menos cauteloso. Não havia pressa, mas havia vontade. Elijah segurou a cintura dela com força suficiente para mostrar desejo, não posse. Elisa levou as mãos até o pescoço dele, sentindo a pele quente, os músculos tensos sob os dedos. O mundo pareceu diminuir. O beijo aprofundou — lento, seguro, consciente. Nada descontrolado. Mas real demais para ser ignorado. Quando se afastaram, os dois estavam sem fôlego. As testas encostadas. As mãos ainda presas uma à outra. — Isso… — Elisa murmurou — já não é só curiosidade. — Não — ele concordou. — É escolha. Ela fechou os olhos por um instante. — Eu tenho medo. — Eu também — ele disse. — Mas não de você. Ele beijou a testa dela. Depois a ponta do nariz. Um gesto pequeno, quase íntimo demais. — A gente vai no seu tempo — ele continuou. — Sempre. Ela abriu os olhos, emocionada. — Você não faz ideia do que isso significa pra mim. — Eu faço — ele respondeu. — Porque significa o mesmo pra mim. Ele a abraçou. Forte. Protetor. Sem segundas intenções naquele momento. Elijah abriu a porta da varanda. O vento entrou suave, trazendo o cheiro do mar. À frente deles, a imensidão escura do oceano se misturava ao céu estrelado. Luzes distantes marcavam outras ilhas — pontos pequenos, quase irreais. — Olha… — Elisa disse baixo. Eles ficaram lado a lado, apoiados no parapeito, observando tudo em silêncio. O mundo parecia longe. O país deles, as famílias, os contratos… tudo parecia pertencer a outra vida. — Daqui — ela continuou — parece que nada pode nos alcançar. Elijah cruzou os braços, respirando fundo. — É por isso que eu gosto de lugares assim — disse. — Eles lembram que o mundo é maior do que as pessoas que tentam nos controlar. Ela virou o rosto para ele. — Você também se sente preso lá fora, né? Ele assentiu. — A diferença é que eu sempre tive escolha… e você não. O silêncio voltou, pesado e verdadeiro. Elisa apoiou a cabeça no ombro dele. Não pediu permissão. Ele não recuou. Apenas ficou ali, firme, oferecendo presença. — Quando eu olho pra tudo isso — ela murmurou — eu penso em quem eu poderia ter sido. — Você ainda pode ser — ele respondeu. — Nada do que te fizeram apaga isso. Ela fechou os olhos. Ficaram assim por longos minutos, apenas observando o mar, sentindo o vento, dividindo o silêncio como quem divide algo sagrado. Nenhum beijo. Nenhum toque a mais. Só dois corpos próximos, olhando o mundo de longe, como se estivessem — pela primeira vez — do mesmo lado. E ali, naquela varanda suspensa entre o céu e o mar, eles entenderam algo simples e poderoso: Talvez não pudessem mudar tudo ainda. Mas podiam escolher como atravessar aquilo. Juntos.
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