capítulo 4

1947 Words
Acho que ele não vai vim. Bufei. Prendendo o cabelo em coque depois desesperadamente tentar ajeitar depois de ele dizer que estava a caminho. Suspirei fundo sentando na minha cama. Três batidas leves na porta. Meus olhos se arregalaram, o coração parou por um segundo. — Ayla? — chamou uma voz grave e inconfundível atrás da porta. A voz dele. Levantei tão rápido que tropecei no próprio pé, desequilibrei e fui direto pro chão com um estrondo e um grito abafado de dor. — Cuore?! — a voz dele veio mais próxima, cheia de urgência e desespero. Ouvi a maçaneta sendo forçada, como se ele quisesse atravessar a porta. — Tô bem! — resmunguei, mais de raiva de mim mesma do que da queda. — Eu só... decidi cair com estilo. — Você caiu?! — perguntou rindo rouco, com a garganta arranhada, como se nunca tivesse feito isso antes. Ele está rindo? Me perguntei, parando por um instante. Sim. Noah estava rindo. E aquilo me pegou completamente de surpresa. Era raro. Muito raro. Ele sempre foi tão sério. — Você tá achando graça de quê? — perguntei, abrindo a porta com a sobrancelha arqueada, encontrando ele ainda com um sorriso no rosto. — De você, claramente — respondeu, com aquele sorrisinho pequeno que sempre me desarmou. — Você cai e ainda tenta manter a pose... é muito você. Cruzei os braços, fingindo ofensa. — Bom saber que minha dor é entretenimento gratuito. — Não é isso — ele disse, com o rosto mais leve que antes. — É só que... eu não lembrava que você era tão desastrada. E isso meio que me dá uma sensação boa. — Isso não tem graça — o empurrei de leve, soltando uma risada. Mas então, de repente, tudo pareceu mudar. A atmosfera ficou quieta demais. Como se o som tivesse se recolhido para dar espaço a alguma coisa maior. Foi quando percebi. Ele estava parado. Sério. Me olhando fixamente. O riso morreu nos meus lábios. — O quê? — perguntei, com a voz mais baixa, tentando quebrar o silêncio, mesmo sabendo que já era tarde demais. Ele não respondeu. Só continuou me olhando. — Por que você tá me olhando assim? — sussurrei. Noah deu um passo em minha direção. Devagar. Como se não quisesse assustar o momento. — Nada — passou a mão no cabelo, parecendo nervoso — Só que você parece que consegue ficar mais linda do que o normal. — Minha bochecha fica quente — E isso me assusta — ele continuou. — Você deve ser muito… disputada na escola. Bufei, tentando não sorrir. A verdade era que sim, eu era. E mesmo assim, ninguém me fazia sentir como ele fazia — Na minha escola só tinha idiotas — murmurei, cruzando os braços. — Nem todos me interessam. Ele arqueou uma sobrancelha: — Então tem alguém que te interessa? — Talvez — murmurei. — “Talvez” — ele repetiu, dando um passo mais perto. — Isso é quase uma confissão. — Ou só um blefe bem feito — rebati, olhando pra ele de volta, com um desafio nos olhos. Ele sorriu de leve, mas não desviou o olhar. — Bom... espero que esse “talvez” saiba que é um cara de sorte. — E se ele não souber? — Então talvez… alguém precise lembrá-lo. Do que ele está falando? …….. Acordei com o coração disparado e o lençol enrolado nas pernas como se eu tivesse lutado com ele a noite inteira. Ofegante. Suada. Assustada. Mais um pesadelo. Mais um. Pisquei os olhos devagar, sentada ofegante, tentando voltar ao presente. A luz fraca da manhã invadia meu quarto pelas frestas da cortina. Fechei os olhos de novo e me joguei de volta pra cama, tentando afastar a imagem que ainda me assombrava: Eu, sozinha na água. Tentando emergir. Mas quanto mais lutava, mais afundava. Hoje é meu aniversário. Dezoito. Que antes, eu tanto esperava. Hoje em dia não tenho tanta expectativa. Noah e eu, voltamos a ser como antes, amigos e quase irmãos, sem falar do beijo e sem flertes. Como se aquele pedido de beijo tivesse sido um delírio — ou um lapso. Levantei da cama devagar, tentando ignorar o aperto no peito. Desci as escadas em silêncio. A casa ainda está quieta. O cheiro de café recém-passado. Minha mãe cantarolando baixinho na cozinha. Quando ela me viu, abriu um sorriso sincero. — Feliz aniversário, minha menina. Sorri de volta, um pouco torto. Ainda meio presa no limbo entre o sonho e a realidade. — Obrigada, mãe. — deixei ela me envolver num abraço, e eu me deixei ficar ali um segundo a mais do que devia. Aquele segundo em silêncio dizia tudo o que eu não estava pronta pra falar. — Nada... — ela sussurrou, me apertando mais forte. — Teve aquele pesadelo de novo? Assenti devagar.Não precisava responder com palavras. Ela sabia. Ela me envolveu ainda mais, como se o próprio corpo pudesse ser escudo. — Era o mesmo? — perguntou com cuidado, sem me soltar. Demorei um pouco, mas respondi com a voz abafada no ombro dela: — Sim… — Ela me abraçou mais forte, como se tentasse tirar todos os meus medos. Quando me soltei, vi um pacotinho sobre a mesa. Um envelope com meu nome, escrito com uma letra que eu conhecia bem. Noah. Meu coração disparou. — Ele passou mais cedo — disse minha mãe, como se lesse meus pensamentos. — Disse que preferia deixar isso aqui antes que você acordasse. Que não queria incomodar. | " Hoje você está completando 18 anos. Com força, coragem e um coração você ainda vai mudar o mundo. Hoje você é oficialmente tudo aquilo que sempre foi: incrível. Estou por perto, se precisar. Sempre estive. OBS: Só abre o pacotinho depois de se vestir lindamente mais tarde. — N." | Suspirei, encostando a carta no meu coração acelerado, deixando o ar escapar devagar, como se tentasse fundir a carta no meu peito. Coloquei um sorriso leve na boca Então ouvi a voz da minha mãe, suave, logo atrás de mim. — Querida, só tome cuidado com esse seu coraçãozinho, ok? Arregalei os olhos, surpresa, girando lentamente para encará-la. — Mãe... do que a senhora tá falando? — perguntei, nervosa. Ela sorriu com aquele jeitinho calmo e meio cúmplice que só mãe sabe ter. Se aproximou devagar e pousou a mão na minha bochecha, com um toque de ternura que me desmontou por dentro. — Todo mundo vê, Ayla. Essa sua paixonite... — disse baixinho, como se fosse um segredo só nosso. — É natural, acontece. Só… se cuida, tá? Engoli em seco. Ela sabia. Todo mundo sempre soube. — Agora vou lá ver como estão as coisas na cozinha, pra sua festa — disse, ajeitando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha como se eu ainda tivesse oito anos. — Festa? — perguntei, confusa, franzindo a testa. — Mãe, eu não... Mas antes que eu pudesse terminar, ela já tinha se virado e saído, me deixando sozinha ali. Voltei a olhar para o bilhete. Fechei os olhos por um instante e apertei o papel contra o peito, como se pudesse guardar aquele gesto dentro de mim. — Que interessante — comentou uma voz venenosa atrás de mim. Pulei de susto e me virei rápido. Shirley. Parada no último degrau da escada, de braços cruzados, me encarando como se tivesse pegado algo que não devia. — Ele m*l terminou e vocês já voltaram com esse romance? — disse, com um sorriso forçado, mais ácido do que doce. Revirei os olhos, contendo o impulso de responder com o que realmente vinha na ponta da língua. — Para de falar besteira, Shirley. — Virei de frente pra ela, firme. — O Noah sempre me respeitou. Sempre. Como uma irmã mais nova. Deu um passo na minha direção. — Claro. Ele só aparece aqui em casa no dia do seu aniversário e deixa bilhetes carinhosos porque ele é... o quê? Um irmão? Ela ergueu uma sobrancelha, o sorriso de lado. — Você fala como se tivesse inveja. — Me aproximei um passo. — Do cuidado. Da presença. De alguém que realmente se importa. Por um segundo, o olhar dela vacilou. Mas logo voltou ao deboche. — Só não se esqueça do seu lugar — ela disse, girando nos calcanhares. — Uma coisa é amizade. Outra é... ilusão. Feliz aniversário, irmãzinha! — gritou a última frase.. E sumiu pela escada. Fiquei ali, com o bilhete ainda na mão. O coração acelerado. Peguei o pacotinho e me sento na mesa para tomar o café, encarando fixamente para o presente. Só eu que não sabia dessa festa? O que será que tem ali dentro? Porque só posso abrir à noite? Tomei um gole do meu café sem açúcar ainda encarando o pacote azul turquesa. …………… Me olho no espelho e me pergunto se a escolha é certeira. O vestido preto, justo, desenha meu corpo como se tivesse sido feito só pra mim. Estilo sereia. Clássico. Sofisticado. O decote em “v” delicado destaca meu colar de coração, aquele presente de aniversário de três anos atrás. Era só uma correntinha, com um pingente simples. Mas eu nunca consegui tirá-lo. As alças do vestido eram finas, quase invisíveis. Mas o que mais me deixava desconfortável e a minha maior insegurança no momento, era minha costa nua. Aquela parte exposta de mim que, por algum motivo, me deixava vulnerável. Como se estivesse revelando mais do que devia. Respirei fundo, tentando não ceder à vontade de trocar de roupa. É só um vestido, Ayla. Desviei o olhar do espelho e encarei o pacotinho em cima da escrivaninha. O presente que ele deixou. Agora é a hora. Me aproximei, desfiz o laço branco devagar — como se quisesse prolongar o gesto — e levantei a tampa da pequena caixa. Lá dentro, repousava uma pulseira fina. E perfeitamente combinando com o colar. Deixei escapar um pequeno sorriso. Um suspiro involuntário. Era lindo. Simples, discreto. Do jeito que eu amava. Peguei delicadamente e coloquei no meu pulso, e respirei fundo. Passei a mão suada no meu vestido e tomei coragem de abrir a porta do meu quarto, já escutando muita gente. Meu Deus! Não imaginava que ia ser uma festa grande. Revirei os olhos. Eu já deveria imaginar, minha mãe ama uma festa. Respirei fundo mais uma vez, ajeitei a pulseira no pulso. Desci devagar, cada degrau parecendo mais alto que o outro por causa do vestido um pouco colado e do salto alto, que me fazia sentir como se estivesse andando em vidro. Minhas mãos seguravam levemente o corrimão, tentando manter a elegância — ou, pelo menos, não cair de cara no chão. Foi quando meu pai apareceu no meio da escada, me esperando com a mão estendida. — Princesa — disse ele, com aquele sorriso orgulhoso que eu via tão pouco, mas que sempre me desmontava. Sorri de volta, aliviada por vê-lo ali. Aceitei a mão estendida e ele me ajudou nos últimos dois degraus. — Obrigada — sussurrei. — Você tá linda — disse baixo, como se não quisesse que ninguém além de me ouvisse. Senti todo mundo me encarando. Vi minha mãe sorrindo perto da mesa do bolo, ajeitando os docinhos como se fossem joias raras. Vi Shirley de longe, com um olhar calculado demais para ser sincero. Vi rostos conhecidos da escola, alguns mais animados que outros. E então eu vi. Noah. Encostado discretamente num canto do cômodo, uma taça de refrigerante na mão, a outra no bolso da calça. A camisa branca dobrada até o antebraço, o cabelo levemente bagunçado. Ele não sorria. Mas seus olhos me perseguem.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD