Capítulo 5

1999 Words
Era desejo explícito. Não era um carinho de um amigo E muito menos fraternal. Acho que eu estou delirando. Por isso fecho os olhos, conto até dez e só então os abro de novo. Quando abro os olhos, ele já não está mais me olhando. Como eu imaginei, foi apenas um delírio meu. Ele está conversando com a Shirley. Shirley parece estar falando um monte de merdas, a julgar pela cara séria e sem nenhuma emoção do Noah. Aquela expressão neutra dele, que só aparece quando está segurando o próprio limite. — Ayla! Virei o rosto, e por um segundo, achei que tinha ouvido errado. Olho para o lado e encontro a minha melhor amiga, que tinha ido fazer intercâmbio de 1 ano. — Kira! — gritei, correndo até ela e a abraçando forte. Ela me envolveu nos braços com a mesma intensidade. Era real. Minha melhor amiga estava de volta. Kira era quase uma versão espelhada de mim, com apenas algumas diferenças. Os cabelos dela, pretos e lisos, batiam nos ombros, enquanto os meus iam até a cintura. Seus olhos eram azuis como os meus, só um pouco mais claros, e a pele branca como a minha, mas agora bronzeada, graças ao ano de intercâmbio no Brasil. Ela era só um ano mais nova, mas sempre pareceu mais madura do que qualquer um da nossa idade. Gênia em computação, tinha se inscrito no intercâmbio meio às pressas — uma fuga elegante do casamento arranjado que os pais planejavam com tanto entusiasmo quanto descaso pela opinião dela. — O que você tanto estava olhando? — perguntou entrelaçando o braço no meu nos virando para onde eu estava olhando. Noah. Agora ele parece estar a repreendendo. Pelo estudo corporal de Shirley, isso era evidente. Ela está de braços cruzados, com a boca torta e o olhar entediado, como quem escuta algo que não quer ouvir, ou não consegue engolir. Como quem ouve a verdade e não gosta. Ainda não sei como eles viraram melhores amigos, se eles não parecem terem muitas coisas em comum. Principalmente os venenos que ela parece soltar para o Noah. — Ainda gosta dele? — Kira pergunta, com a voz baixa, mas firme, como quem já sabe a resposta. Engulo em seco. Ela não olha pra mim quando pergunta. Está com os olhos presos em Noah, o cenho levemente franzido, como se o analisasse. E então ele desviou os olhos de Shirley. E me encara. Direto. Me pega no ato, porque eu já estava olhando. — Não sei do que você tá falando — respondi, desviando o olhar rápido demais. Rápido o suficiente para soar como Mentira. E não tão rápido a ponto de enganar a Kira, que me encara de lado com aquele ar de quem vê através de tudo. Ela dá uma risadinha curta, seca. — Ayla… Solta meu braço e se vira completamente pra mim. — A promessa ainda está de pé? — Foi só uma brincadeira. — Foi? — ela ergue uma sobrancelha. — Porque você não parece alguém que esqueceu. — Kira... — Ele prometeu um beijo no seu aniversário de dezoito anos, Ayla. — Ela diz devagar, como se quisesse me fazer lembrar de cada sílaba. — Isso é o tipo de coisa que a gente guarda. Ou enterra. Fico em silêncio. Meu coração começa a bater mais rápido. Não sei se pelo que ela disse… ou por ainda estar olhando pra ele. — Não acho que isso vá acontecer, esqueça isso Kira! — Falo rápido, desviando. Ela negou com a cabeça, inconformada. — Vamos falar sobre o intercâmbio, os brasileiros de lá como são? — São incríveis! — abriu um sorriso largo Ela abre um sorriso largo, quase nostálgico. — Quero voltar pra lá e nunca mais sair. — Quero voltar pra lá e nunca sair. — Você não ficou de voltar daqui a 2 meses? — pergunto, confusa. Ela soltou um longo suspiro. — Papai passou m*l — confessa, com os olhos baixos. — Kira, sinto muito. Como ele está? — Seguro a mão dela com força. Eles podem ter mil desentendimentos, mas eu sei o quanto ela ama os pais. — Ele está bem. — aperta minha mão de volta, mais forte. — Não quero falar sobre isso. — Quando você chegou? — pergunto, com cuidado. — Antes de ontem. — respondeu. — Aproveitei e passei a véspera e o Ano Novo com os meus pais. Ela me puxa pra um abraço apertado. — Falando nisso. Feliz 2017. E feliz aniversário. — Feliz Ano Novo! — digo, rindo. Às vezes eu não gosto de comemorar meu aniversário logo depois do réveillon. — Ainda parece estranho estar aqui de novo. — Kira comenta, olhando ao redor do salão com os olhos semicerrados. — Tudo parece igual… e ao mesmo tempo, diferente. — É porque a gente muda. — murmuro. — Ou porque certas coisas continuam exatamente no mesmo lugar. — Ela olha de canto de olho. Sei bem pra onde. Sigo o olhar dela. Noah e Shirley ainda estão no canto, mas agora em silêncio. Ele parece cansado. Ela, irritada. Kira franze os lábios, pensativa. — E ela — apontou com a cabeça — Continua insuportável? — Piorou. — respondo sem pensar. Nós duas rimos, cúmplices, e por um segundo sinto uma leveza que há tempos não experimentava. — Ela chegou a encostar em você? — ela pergunta mudando o tom de voz, rangendo os dentes de raiva. Kira nunca abaixa a cabeça para Shirley, ela enfrenta, me protege, mesmo eu não precisando, consigo ser bem pior que ela. Querendo ou não, a Shirley é minha irmã. — Não. Shirley não briga. Ela só sabe soltar veneno. — Ah, sim. Bem a cara de cobra dela. — revira os olhos rindo e me levando junto. — E você acha que ele gosta dela? — Acho que não, acho que ele só atura, por ser melhor amiga. — Ela me olha firme. — Mas você ainda gosta, não é? Desvio o olhar. De novo. Não aguento mais essa pergunta, mas não consigo negar. — Eu queria... não gostar. — admiti, em voz baixa. — Ayla, se eu voltar pro Brasil e você ainda estiver esperando por um beijo prometido, juro que volto aqui só pra dar uns tapas nele. Dou risada, e ela ri junto. Mas sei que, no fundo, ela fala sério. O DJ muda a música para batida mais forte e sensual. As luzes se apagam um pouco mais, e a pista começa a encher. Batidas fortes, pulsantes, daquelas que a gente sente primeiro no peito, antes de reconhecer com os ouvidos. Kira me lança um olhar de desafio. — Vem. Agora você não tem mais desculpa. — Tenho sim. Várias. — brinco, mas ela já está me puxando pela mão. — Quando você pediu para o dj colocar essas músicas? — Tive meus meios — piscou um olho pra mim. — Você que meus pais não devem estar gostando nada disso, certo? — perguntei e deixo eu deixo ela me levar. Deixo porque é Kira. E porque eu estava precisando de um empurrão — até pra dentro de mim mesma. A gente se joga no meio da pista. As luzes giram, as pessoas mais novas, até alguns mais velhos, se agitam ao redor, e por um momento, tudo parece se dissolver. — E daí? — É seu aniversário, não desses engravatados — respondeu dando de ombro e gritando sobre a música. Kira dança como se o mundo fosse dela. Fecho os olhos. Deixo o corpo se mover com a música, sem pensar, sem medir, sem lembrar de nada. Mas quando abro os olhos... Ele está lá. Parado no limite da pista, meio à sombra. Noah. Não fala nada. Não dança. Só observa. Os olhos fixos em mim. E eu paro. Só por um segundo. Porque aquele olhar me atinge mais do que qualquer toque. Kira percebe. Claro que percebe. Ela me cutuca com o quadril, como quem diz “finge costume”, e sussurra no meu ouvido: — Ele tá te devorando com os olhos. Cuidado pra não virar sobremesa. Dou uma risada abafada a empurrando nervosa. ……….. Tiro os saltos e sinto a grama gelada sob os meus pés. É como um choque bom. Caminho em silêncio até o chafariz, me sento na borda e fecho os olhos. — Estou tão cansada. — bufo, sozinha. — Fugindo da própria festa? — A voz veio baixa, rouca e perto demais. Meu coração dá um pulo. Abro os olhos devagar. Noah está ali. Parado a poucos passos, com as mãos nos bolsos e o cabelo levemente amassado, como se ele tivesse passado a mão várias vezes, também parece cansado. — Só os meus pés estão doloridos — murmuro, ansiosa mordendo a parte interna da bochecha. — Pare de fazer isso. — disse de repente. Levanto os olhos, surpresa, franzindo a testa. — Você vai acabar fazendo uma ferida desse jeito. — completou, e antes que eu entendesse o que ele pretendia, sua mão se aproxima devagar. Com a ponta dos dedos, toca suavemente meu rosto. Bem ali, onde eu estava mordendo. Um toque leve. Mas meu corpo inteiro parece prender a respiração. Ele recua devagar, como se tivesse esquecido de si mesmo por um instante. — Foi o salto? — pergunta, com a voz um pouco mais baixa. Assinto. — Você não deveria andar tanto de salto, se machuca os seus pés Cuore. Dou de ombros. Ele se abaixa, sentando-se à minha frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Me olha nos olhos por um momento — longo demais pra ser casual, e então fala: — Me deixa massagear? — O quê? — perguntei confusa. — Seus pés. — ele sorri de lado. — Você m*l consegue disfarçar a dor. E eu sou bom com as mãos. Engulo em seco. — Noah... — Relaxa. É só — deu uma pausa antes de completar — Cuidados. Nada além disso. E quando ele segura meu tornozelo com firmeza — mas sem força — e apoia o meu pé no próprio colo, meu corpo inteiro se acende em alerta silencioso. Toque por toque, ele pressiona os pontos certos. Dedos, calcanhar, arco. Ele continua massageando meu pé com uma delicadeza que contrasta com suas mãos grandes e firmes. O silêncio entre nós não é desconfortável, é denso. Mas minha mente, claro, não sabe ficar quieta. — O que a Shirley aprontou? — solto, meio casual. Os dedos dele param por um segundo. E então ele dá uma risada curta, seca. Quase um escárnio. — Fez merda. Como sempre. — disse, sem rodeios. — Que tipo de merda? — insisto, mas ele não me olha. — Pediu ajuda. — respondeu, simplesmente. E voltou a massagear como se nada tivesse sido dito. Fico esperando mais. Uma explicação, um contexto, um fiapo de detalhe. Mas ele não oferece nada. Nada além daquelas palavras vagas, soltas, insuficientes para saciar minha curiosidade, mas suficientes para acendê-la. — Ajuda com o quê? — perguntei, inclinando levemente o corpo pra frente. Ele levanta os olhos e me encara. Sério. Intenso. Como se dissesse não força sem precisar falar. — Coisas dela. — finaliza, com um leve encolher de ombros. E muda de pé, pegando o outro com o mesmo cuidado de antes. Mas agora eu estou inquieta. Porque o Noah que eu conheço não evita assuntos à toa. E o que quer que seja que a Shirley fez… claramente não foi pouca coisa. Bufei chateada. O som que fiz foi alto o bastante para o Noah levantar a cabeça, com as duas sobrancelhas erguidas. — O quê? — perguntou, com um sorriso de canto. Quase divertido. Quase desafiador. Nem percebi que, ao me inclinar e ele levantar o rosto... Estávamos muito perto. Perto demais. Meus olhos encontraram os dele. E por um segundo, nenhum de nós recuou. Não houve movimento. O rosto dele, a centímetros do meu. O calor da respiração dele alcança minha pele. Os olhos dele...
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