Capítulo 1- Ayla

1872 Words
Estava sentada na beira da piscina , com a ponta dos pés na água, sentindo a sensação gelada dela, tudo no silêncio. Até o momento em que senti as mãos nas minhas costas me empurrar e sentir o impacto da água gelada, o impacto que me tirou o ar. Tentei subir, nadar, gritar... mas algo me puxava para o mais fundo, quanto mais eu lutava, mais fundo eu ia. Era como se a piscina não tivesse fim, como se quisesse me engolir por completo. A água escurecia ao meu redor. O medo tomava conta. Eu não enxergava o topo, nem o fundo. Só sentia a pressão, a angústia, e o desespero de estar presa em algo que não acabava nunca. Quanto mais me debatia, mais eu me afundava. De repente, num rompante, acordei com o coração disparado, como se eu tivesse corrido quilômetros. Olhe em volta com os olhos embaçados, e é só o meu quarto e mais um pesadelo de sempre. Porque ela fez isso comigo? Ri com a mesma pergunta, que eu faço desde que me entendo por gente. Empurrei o edredom pro lado, escorregando para a beira da cama para escapar desse lugar. Preciso respirar. Pra onde eu vou? Noah… O primeiro nome que veio é o dele. Sai do meu quarto, que era para ser o meu refúgio, e desci a escada. Saio da casa dos meus pais sem fazer barulho, a cada passo medido, até alcançar a porta, o ar da noite me envolve. Sigo pela calçada, sem olhar em volta, até parar diante da porta de uma casa ao lado. Com as mãos tremendo, não sei dizer ao certo se era por causa do frio cortando a madrugada ou da ansiedade que ainda me prendia depois daquele pesadelo, levantei o punho batendo 3 vezes na mamadeira. A porta rangeu pela forma bruta que foi aberta, e ali ele apareceu. Todo descabelado, sem camisa e calça de flanela. — Ayla? — a preocupação é palpável na voz dele, mas o olhar de quem compreendeu está ali. Não é a primeira vez que eu apareço ali de madrugada procurando o conforto, por quem eu sempre tive uma pequena quedinha. Não é bem uma quedinha, está mais para um tombo, com direito de ralar a cara de vergonha no asfalto. — Me desculpa aparecer assim do nada. — falei entrando depois dele abrir espaço para eu entrar — Mas eu não sei para onde correr. — Se você veio até aqui é porque sabe para onde correr Ayla. — Ele deu três passos para me alcançar. Senti seus braços me puxarem para si, me apertando firmemente contra si, como se quisesse, de alguma forma, apagar todos os meus piores pesadelos da minha mente. E dá certo, sempre dá. — Quer o seu chocolate quente favorito? — perguntou ainda me abraçando — Minha nossa! Você está muito gelada, cuore. Você veio sem casaco de novo? Ele beijou a minha testa e se afastou, me arrastando até o sofá, me ajudando a sentar e cobrindo com a manta azul nos meus ombros. — Obrigada! — me aconchegando na manta, tentando me esquentar. …… Segurei a caneca quente entre as mãos sentindo o vapor no meu rosto. Ele estava ali, todo tranquilo, andando pela casa como se não tivesse acabado de causar um mini colapso no meu cérebro. — Está melhor? — perguntou se sentando ao meu lado e me desviando do meu pensamento, nada inocente, olhando para a manta ao lado do meu quadril. Tomei o primeiro gole do chocolate quente. Antes de responder dei um sorriso travesso: — Sim. Aqui está quente, não acha? — É o aquecedor. — o vinco no meio da testa, mostra que sabe que eu estou aprontando — Tá olhando o quê? — Será que não são esses gominhos bem amostra na minha frente? — cutuquei o abdômen que ele contraiu na hora. Se levantou do sofá dando risada, revirando os seus olhos castanhos. Fiquei ali, olhando, ele subir a escada, que dá para o segundo andar. — Ei! Vai me deixar aqui sozinha? — perguntei, meio dramática. Será que ele ficou chateado? — Calma, cuore, só vou buscar um negócio ali rapidinho. — ele respondeu já no topo da escada. Ele desceu a escada com a camisa preta escondendo a melhor vista. — Você subiu para colocar camisa, só porque eu fiz uma pequena brincadeira? — indignei — Você precisa deixar de ser sisudo um pouquinho. Fiz biquinho. Eu realmente estava gostando de olhar ele sem camisa. — Para com essa safadeza — apertou o meu nariz. — Só fui buscar isso… — me entregou uma caixinha azul. — Feliz aniversário Cuore! Ele estava ali, parado na minha frente, parecendo acanhado e sincero que só o Noah tinha, quando fica nervoso. Com cuidado, abri a pequena caixa azul, contendo um medalhão em formato de coração. Meus dedos tremiam um pouco, pelo significado que aquela pequena joia carregava. — Obrigada, Noah, eu amei. — sussurrei, com a voz embargada pela surpresa. — Ele abre no meio. — disse, apontando com o queixo. Curiosa, levei o medalhão até o peito e procurei a pequena a******a. Com um clique suave, ele se abriu... e meu coração quase fez o mesmo. Dentro, uma foto minha com ele, eu estava gargalhando nos braços dele, tirada num dia qualquer em que eu me lembrava muito bem de quando ter tirado ela. — Eu queria que você tivesse algo que fosse só nosso. Mesmo quando a gente estiver longe. — ele completou, passando a mão no cabelo. Fechei o medalhão devagar e o coloquei no pescoço, sentindo o frio dele na minha pele. Aquele não era só um presente. Era uma lembrança, um pedaço dele, um pedaço nosso. — Você quer conversar sobre o que aconteceu, cuore? Virei o rosto e olhei para os quadros em cima do chaminé, ainda segurando o medalhão. Suspirei me lembrando do que me trouxe aqui. Um pesadelo que me persegue desde que eu era criança. — Cuore, você está completando 15 anos. — Ele falou, com um tom quase paternal. — Você ainda é jovem, deveria voltar a consultar um psicólogo. Soltei uma risada, mas não foi uma risada feliz. Não havia leveza nela, apenas um som vazio, sem alma, sem graça. Eu sabia o que ele queria, sabia exatamente o que ele tentava fazer sempre que perguntava. Ele queria que eu falasse, que eu abrisse aquela caixa que eu mantinha bem trancada dentro de mim. Queria que eu contasse o que aconteceu naquela tarde. Mas não sabia o quanto eu tinha tentado evitar lembrar, o quanto era difícil até falar sobre aquilo. Ele não sabia quem me empurrou na piscina, mas eu sabia. Eu nunca iria esquecer o rosto dela, o olhar gelado e cheio de desprezo, nem a risada que se seguiu ao me assistir cair na água gelada. Ela deveria ser a pessoa que me protegeria. Mas, em vez disso, foi ela quem me jogou para dentro daquela água fria. — É apenas o mesmo sonho de sempre, um sonho sem rosto, só eu sendo empurrada na piscina não deveria levar isso tão a sério. — Tentei sorrir, mas o sorriso saiu falso. Como aqueles que dou para cumprimentar pessoas que nem conheço de verdade. Mas ele sabia, sabia que estava fingindo. E, como sempre, ele foi rápido em perceber. — Agora, sério… — comecei, tentando mudar de assunto para algo mais leve. Fingir normalidade, mesmo que o peso no peito ainda estivesse lá. Ele já conhecia esse meu truque, e ele suspirou, já esperando a piadinha. — Noah, você não precisava colocar a camisa para tapar a minha melhor visão do mundo. — Fiz biquinho, tentando desviar a atenção. Uma tentativa boba de quebrar o clima. Ele revirou os olhos com um sorriso de canto de boca — Ainda com isso? — respondeu ele, a voz carregada de uma leve ironia. Eu suspirei, não conseguindo evitar a leve risada que escapou dos meus lábios. — Sério, Noah, não tem como você não ver o quanto isso é muito sério? — continuei, cruzando os braços enquanto o observava, tentando manter a expressão séria. Ele deu de ombros, claramente envergonhado. — Não é como se eu tivesse feito de propósito. Só estava um pouco frio. — disse ele mudando o semblante. — Você claramente está precisando de um namorado. Eu fiquei em silêncio por um momento, o olhar fixo nele, como se tentasse medir cada palavra que eu quero dizer. — Poderia ser você, se você quisesse — respondi com um fundo de verdade. Ele negou com a cabeça levantando do sofá que estava sentado na minha frente e pegou a caneca de chocolate quente que eu estava bebendo da mesinha de centro à minha frente e indo para a cozinha. Eu me inclinei para trás, quase deitada, com a manta ainda envolvendo o meu quadril, e quase fechei os olhos, sentindo o sono começar a me dominar. Senti a presença do Noah se aproximando, quase como se ele estivesse pairando sobre mim. Ele pegou a manta e a colocou sobre o meu corpo, cobrindo-me com cuidado, antes de selar um beijo suave na minha testa. Antes que eu pudesse me segurar, as palavras escaparam da minha boca, quase sem querer. — Se eu te dissesse que gosto de você, mas não como amigo, como reagiria? — As palavras ficaram suspensas no ar, eu segurei a respiração esperando ainda de olhos fechados, alguma reação. Eu senti a tensão no ar imediatamente, como se ele tivesse se retraído sem saber o que fazer com aquilo. — Vai dormir, Ayla, você está falando nada com nada. — Ele tentou soar despreocupado, mas a voz tremida denunciava algo diferente. Eu dei um sorriso leve, quase sem querer. Já sabia o que ele diria, mas não conseguiu impedir o cansaço de me vencer. O sono foi mais forte que as minhas próprias inseguranças. — Boa noite — sussurrei, entregando-me ao sono. ……… Acordei com a luz da janela no meu rosto e o cheiro de café e bacon invadindo meus sentidos, fiquei ali, imóvel, apenas absorvendo o conforto do sofá. Olhando em volta, reconhecendo a casa do Noah. A casa dele. Sempre foi assim, com aquele toque descomplicado e aconchegante que, de alguma forma, me fazia sentir bem, sem precisar de explicação. Empurrei a manta e me sentei na beira do sofá me espreguiçando e soltando um leve bocejo. Será que ele se lembra de ontem? da minha confissão? Não acho que ele tenha levado a sério. Levantei do sofá e segui para a cozinha, encontrando as costas largas do Noah. Me apoiei no balcão, jogando o meu corpo pra cima, tirando os meus pés do chão. — Bom dia! — falei com a voz grogue de sono. Ele se virou tão rápido que quase derrubou tudo. A colher caiu no chão, a panela do bacon quase foi junto, e ele agarrou a do ovo — já meio torrado — colocando direto na pia. Assim que a água bateu no metal quente, a panela chiou alto, quase tanto quanto o silêncio entre a gente. — Cazzo! — ele soltou, deixando a panela cair com um barulho metálico.
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