Capitulo 05- O Prazer da Resistência

1014 Words
Thalyane Virelli Às 21h, lá estava eu novamente, agora diante de uma porta desconhecida. O loft era amplo, janelas altas e cortinas abertas deixavam a cidade iluminada invadir o espaço. No centro, apenas uma poltrona de couro preta. Sobre a mesa, havia uma chave semelhante à que ele já havia me dado antes, além de taças e uma garrafa de vinho repousando ao centro. Ele estava lá, de pé, distante, sem a postura dominadora que ele sempre demonstrava. — Hoje eu não mando em nada — Informou, aproximando-se. — Você decide o que acontece. Inclinei a cabeça de lado e mantive os olhos fixos nele, questionando se realmente tinha ouvido direito. — E se eu decidir ir embora novamente? Perguntei, testando. — Então, é o fim. — A calma na resposta não disfarçava a tensão que percebi em sua voz. Caminhei lentamente até a mesa, peguei a chave e a girei entre os dedos. Pela primeira vez, senti que o controle estava inteiramente em minhas mãos e, curiosamente, isso me deixou mais alerta do que confortável. — Por que eu? — Arrisquei perguntar, mantendo os olhos fixos nele. — Você poderia ter qualquer mulher. Sei que existem muitas que imploram por um minuto da sua atenção. Ele não desviou o olhar, como se estivesse assimilando cada sílaba que saía da minha boca. — Porque você é a única que me faz imaginar o que vai fazer em seguida. E eu… preciso disso. Fiz um bico, repassando suas palavras mentalmente, como quem analisa uma jogada arriscada. Um sorriso quase escapou… mas eu contive. — E o que exatamente você espera de mim? — Questionei, deixando a dúvida escorrer na voz como um leve desafio. Ele se aproximou devagar. Os olhos fixos nos meus, como se tentasse atravessar qualquer barreira que eu ainda fingia manter. — Espero que você finja dificuldade, Thalyane… — disse, com calma, como quem já conhece o resultado do jogo. Parou perto o suficiente para que o ar entre nós parecesse mais denso. — Brinque de negar. Teste limites. Faça charme. A pausa veio no momento certo. — A conquista é mais interessante quando existe resistência. A voz dele baixou, agora mais próxima, mais controlada… Quase um sussurro carregado de certeza: — E você… claramente sabe fazer isso melhor do que qualquer uma. Senti o impacto daquelas palavras mais do que gostaria de admitir. Não era só o que ele dizia. Era como dizia. Como se já tivesse me lido inteira… E ainda assim quisesse jogar. Sem responder, coloquei a chave de volta sobre a mesa. Meus olhos passaram pelas taças de vinho, e senti a boca salivar com a simples ideia de provar. Ainda assim, resisti. Fiz exatamente o que ele havia feito comigo nos últimos dias. Virei-me e caminhei até a porta. Eu sabia que aquela não era a reação que ele esperava. Muitas mulheres teriam ficado, prolongado a conversa, implorado por respostas. Eu não. — Até a próxima. — Murmurei, sem olhar para trás. Saí com a estranha certeza de que ele ficaria tão inquieto quanto eu. E que o jogo, em vez de esfriar, tinha acabado de mudar de fase. *** Eu não esperava que ele fosse atrás de mim tão rápido. Mas, dois dias depois, lá estava Alessandro, encostado no parapeito da escadaria da universidade, como se tivesse estado ali o tempo todo, à minha espera. Ele não sorriu. Não fez charme. — Você me deixou esperando — disse, e sua voz estava mais séria do que eu imaginava. — Não combinamos nada — respondi, mantendo a calma, e passei por ele sem lhe dar muita importância. Mas ele veio atrás, sem invadir meu espaço. Apenas caminhava ao meu lado, acompanhando meu ritmo. — Exato — disse. — E mesmo assim, fiquei esperando. As palavras ficaram suspensas no ar. E vários pontos de interrogação surgiram na minha imaginação. — Então — provoquei, mantendo o tom leve — qual é a sua regra agora? Ele abaixou o olhar por um instante, como se escolhesse cada palavra. — Minha regra? — Ergueu os olhos novamente. — Descobrir o que faria você parar de ir embora. Soltei uma risada baixa. Havia uma falha ali. Pequena… mas real. Pela primeira vez, parecia que eu tinha atravessado a segurança que ele sustentava com tanta firmeza. Alessandro estava acostumado a dominar — pessoas, situações, até o silêncio. Mas eu não. Eu não era alguém que ele pudesse conduzir com facilidade. E ele sabia disso. O controle que ele buscava… eu não pretendia entregar. Inclinei levemente a cabeça, sustentando o olhar. — Parece que você está se adaptando às minhas regras. Ele demorou a responder. Quando o fez, foi com aquela calma que carregava sempre uma ameaça implícita. — Não. Estou tentando entendê-las. A pausa que se seguiu foi densa. E então ele falou algo que eu não esperava ouvir, mas que fez diferença. — Não gosto de sentir que não tenho controle. Mas, com você… não é só isso. — Seus olhos verdes se fixaram nos meus. — É como se eu estivesse me arriscando a ser visto de verdade. Parei. As palavras dele ecoaram mais do que deveriam. Talvez fosse exatamente isso. Ele não me escolheu porque eu fosse a mais bonita, a mais sedutora ou a mais fácil. Ele me escolheu porque eu era imprevisível e representava o risco de quebrar um equilíbrio que ele acreditava ser inabalável. — Cuidado. Quanto mais você me deixar ver… mais fácil vai ser eu decidir o fim desse jogo. Ele sorriu. Mas não era o sorriso que eu esperava. Era tenso. Contido. O sorriso de quem sabe que está se aproximando de algo que pode sair do planejado. — E se eu não estiver tentando ganhar? — Desafiou. Um arrepio percorreu meu corpo. Não era o vento, era suas palavras. — Então — respondi, abrindo um sorriso tranquilo — eu vou ficar feliz em vencer. Dessa vez, não esperei resposta. Virei as costas e fui embora, deixando Alessandro para trás com a certeza de que, pela primeira vez, não era eu quem estava fugindo.
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