Thalyane Virelli
Às 21h, lá estava eu novamente, agora diante de uma porta desconhecida.
O loft era amplo, janelas altas e cortinas abertas deixavam a cidade iluminada invadir o espaço.
No centro, apenas uma poltrona de couro preta.
Sobre a mesa, havia uma chave semelhante à que ele já havia me dado antes, além de taças e uma garrafa de vinho repousando ao centro.
Ele estava lá, de pé, distante, sem a postura dominadora que ele sempre demonstrava.
— Hoje eu não mando em nada — Informou, aproximando-se. — Você decide o que acontece.
Inclinei a cabeça de lado e mantive os olhos fixos nele, questionando se realmente tinha ouvido direito.
— E se eu decidir ir embora novamente? Perguntei, testando.
— Então, é o fim. — A calma na resposta não disfarçava a tensão que percebi em sua voz.
Caminhei lentamente até a mesa, peguei a chave e a girei entre os dedos.
Pela primeira vez, senti que o controle estava inteiramente em minhas mãos e, curiosamente, isso me deixou mais alerta do que confortável.
— Por que eu? — Arrisquei perguntar, mantendo os olhos fixos nele. — Você poderia ter qualquer mulher. Sei que existem muitas que imploram por um minuto da sua atenção.
Ele não desviou o olhar, como se estivesse assimilando cada sílaba que saía da minha boca.
— Porque você é a única que me faz imaginar o que vai fazer em seguida. E eu… preciso disso.
Fiz um bico, repassando suas palavras mentalmente, como quem analisa uma jogada arriscada. Um sorriso quase escapou… mas eu contive.
— E o que exatamente você espera de mim? — Questionei, deixando a dúvida escorrer na voz como um leve desafio.
Ele se aproximou devagar. Os olhos fixos nos meus, como se tentasse atravessar qualquer barreira que eu ainda fingia manter.
— Espero que você finja dificuldade, Thalyane… — disse, com calma, como quem já conhece o resultado do jogo.
Parou perto o suficiente para que o ar entre nós parecesse mais denso.
— Brinque de negar. Teste limites. Faça charme.
A pausa veio no momento certo.
— A conquista é mais interessante quando existe resistência.
A voz dele baixou, agora mais próxima, mais controlada…
Quase um sussurro carregado de certeza:
— E você… claramente sabe fazer isso melhor do que qualquer uma.
Senti o impacto daquelas palavras mais do que gostaria de admitir. Não era só o que ele dizia. Era como dizia.
Como se já tivesse me lido inteira…
E ainda assim quisesse jogar.
Sem responder, coloquei a chave de volta sobre a mesa. Meus olhos passaram pelas taças de vinho, e senti a boca salivar com a simples ideia de provar.
Ainda assim, resisti.
Fiz exatamente o que ele havia feito comigo nos últimos dias.
Virei-me e caminhei até a porta.
Eu sabia que aquela não era a reação que ele esperava.
Muitas mulheres teriam ficado, prolongado a conversa, implorado por respostas.
Eu não.
— Até a próxima. — Murmurei, sem olhar para trás.
Saí com a estranha certeza de que ele ficaria tão inquieto quanto eu.
E que o jogo, em vez de esfriar, tinha acabado de mudar de fase.
***
Eu não esperava que ele fosse atrás de mim tão rápido.
Mas, dois dias depois, lá estava Alessandro, encostado no parapeito da escadaria da universidade, como se tivesse estado ali o tempo todo, à minha espera.
Ele não sorriu. Não fez charme.
— Você me deixou esperando — disse, e sua voz estava mais séria do que eu imaginava.
— Não combinamos nada — respondi, mantendo a calma, e passei por ele sem lhe dar muita importância.
Mas ele veio atrás, sem invadir meu espaço. Apenas caminhava ao meu lado, acompanhando meu ritmo.
— Exato — disse. — E mesmo assim, fiquei esperando.
As palavras ficaram suspensas no ar. E vários pontos de interrogação surgiram na minha imaginação.
— Então — provoquei, mantendo o tom leve — qual é a sua regra agora?
Ele abaixou o olhar por um instante, como se escolhesse cada palavra.
— Minha regra? — Ergueu os olhos novamente. — Descobrir o que faria você parar de ir embora.
Soltei uma risada baixa.
Havia uma falha ali. Pequena… mas real.
Pela primeira vez, parecia que eu tinha atravessado a segurança que ele sustentava com tanta firmeza.
Alessandro estava acostumado a dominar — pessoas, situações, até o silêncio.
Mas eu não.
Eu não era alguém que ele pudesse conduzir com facilidade. E ele sabia disso.
O controle que ele buscava… eu não pretendia entregar.
Inclinei levemente a cabeça, sustentando o olhar.
— Parece que você está se adaptando às minhas regras.
Ele demorou a responder. Quando o fez, foi com aquela calma que carregava sempre uma ameaça implícita.
— Não. Estou tentando entendê-las.
A pausa que se seguiu foi densa. E então ele falou algo que eu não esperava ouvir, mas que fez diferença.
— Não gosto de sentir que não tenho controle. Mas, com você… não é só isso. — Seus olhos verdes se fixaram nos meus. — É como se eu estivesse me arriscando a ser visto de verdade.
Parei. As palavras dele ecoaram mais do que deveriam.
Talvez fosse exatamente isso. Ele não me escolheu porque eu fosse a mais bonita, a mais sedutora ou a mais fácil.
Ele me escolheu porque eu era imprevisível e representava o risco de quebrar um equilíbrio que ele acreditava ser inabalável.
— Cuidado. Quanto mais você me deixar ver… mais fácil vai ser eu decidir o fim desse jogo.
Ele sorriu. Mas não era o sorriso que eu esperava. Era tenso. Contido.
O sorriso de quem sabe que está se aproximando de algo que pode sair do planejado.
— E se eu não estiver tentando ganhar? — Desafiou.
Um arrepio percorreu meu corpo. Não era o vento, era suas palavras.
— Então — respondi, abrindo um sorriso tranquilo — eu vou ficar feliz em vencer.
Dessa vez, não esperei resposta.
Virei as costas e fui embora, deixando Alessandro para trás com a certeza de que, pela primeira vez, não era eu quem estava fugindo.