Capítulo 22 — Ausência Presente

1055 Words
PONTO DE VISTA DE THALYANE VIRELLI Nos dias seguintes, Alessandro desapareceu exatamente como eu imaginava. Sem mensagens. Sem ligações. Nenhuma aparição inesperada. Mas eu sabia que ele não tinha sumido de verdade. Pequenos detalhes denunciavam. O café que eu sempre comprava na esquina e que, de repente, já estava pago quando eu chegava ao balcão. A sensação constante de estar sendo observada ao sair da faculdade, uma mensagem anônima avisando sobre o ônibus atrasado minutos antes de eu descobrir o trânsito parado. Eu sabia que era ele. Mesmo distante, Alessandro encontrava algum jeito de permanecer por perto. Enquanto isso, minha rotina começou a mudar. De manhã, faculdade. À tarde, o estágio na Clínica Solares. Foi ali que comecei a conviver mais com o Doutor Marcos Veylor. Ele era literalmente o oposto de Alessandro. Calmo, formal, mas com uma simpatia natural que parecia surgir sem esforço. No meu terceiro dia, ele entrou na sala de atendimento onde eu organizava alguns prontuários. — Como está se adaptando, Thalyane? — Perguntou, com um sorriso discreto. Levantei os olhos do arquivo. — Ainda me situando, mas… acho que estou indo bem — respondi. Ele se aproximou um pouco mais da mesa, apoiando a mão sobre a superfície enquanto reparava na forma que eu organizava os documentos. — Está, sim. — O tom dele era tranquilo, quase encorajador. — A Dra. Helena comentou que você tem uma facilidade incomum para observar padrões. Isso é raro logo no início da formação. Senti um leve calor subir ao rosto, mas mantive a postura. — Eu gosto de prestar atenção nas coisas — disse, dando de ombros. — Às vezes as pessoas mostram muito mais do que imaginam. O olhar dele permaneceu em mim por um segundo a mais do que o necessário. Não de forma invasiva. Mas claramente interessado no que eu dizia. — Isso é exatamente o tipo de habilidade que faz diferença na clínica — respondeu por fim. Houve um pequeno intervalo antes de ele continuar: — Se quiser, amanhã posso te deixar acompanhar um dos atendimentos iniciais. Só observação, claro. Mas pode ser útil. Meu coração deu um pequeno salto. — Eu adoraria. Marcos assentiu, satisfeito, e começou a se virar para sair da sala. Mas antes de atravessar a porta, ele parou por um instante e voltou o olhar para mim. — Ah… e Thalyane? — Sim? Um sorriso breve apareceu no rosto dele. — Continue fazendo perguntas. Pessoas curiosas costumam ir muito mais longe nessa profissão. Sem perceber, sorri. — Obrigada. Quando ele saiu, fiquei alguns segundos parada, ainda segurando o prontuário nas mãos antes de retornar ao trabalho. Quando saí da Clínica Solares, o céu já começava a escurecer. As luzes da rua acendiam uma a uma, e o movimento da cidade ganhava aquele ritmo apressado de fim de tarde. Foi então que meu celular vibrou na mão. Alessandro Moretti: Você estava linda hoje. Parei no meio da calçada. Meu olhar percorreu a rua instintivamente, a entrada da clínica, os carros estacionados, as pessoas passando. Não vi ninguém conhecido. Mesmo assim, um arrepio percorreu minha pele. Eu entendi na mesma hora. A ausência dele tinha acabado. **** Depois de sair das sombras Alessandro começou a me mandar mensagens com mais frequência — o que, vindo de um homem como ele, era inesperado. Ainda mais porque nunca foi do tipo que explica os próprios passos. Mesmo assim, em uma delas, comentou casualmente que estava viajando a trabalho, eu nem tinha perguntado. Ainda assim, ele disse. No começo, eu respondia atravessada, deixando a irritação aparecer nas palavras. Depois, simplesmente passei a ignorar. Era mais fácil do que admitir que cada mensagem dele ficava ecoando na minha cabeça muito mais tempo do que deveria. Como se a voz dele encontrasse um jeito de permanecer ali, as mensagens passaram a chegar quase todos os dias. Curtas, diretas, sempre no tom provocador que só Alessandro sabia usar. “Você acha que está me ignorando… mas é exatamente aí que eu começo a pensar mais em você. ” “Confesso que tentar entender você tem sido uma das coisas mais interessantes do meu dia.” Eu quase nunca respondia. Mas sempre lia e aguardava ansiosa pela próxima. No estágio, o Doutor Marcos se tornava cada vez mais próximo. Ele era diferente… realmente me ouvia. No fim de um dia de chuva, quando eu saía da clínica, ele se ofereceu para me dar carona. Hesitei, balançando a cabeça. Não era do tipo que aceitava favores assim, ainda mais de alguém do trabalho. Mas, quando a água começou a escorrer pelo casaco e o vento frio me atingiu, decidi ceder. No carro, a conversa fluiu naturalmente — livros, casos interessantes, psicologia. Havia algo na forma como ele ouvia que fazia com que até as minhas palavras mais simples parecessem importantes. — Sabe, Thalyane — disse ele enquanto estacionava em frente ao meu prédio —, você tem algo raro… um olhar que percebe mais do que as pessoas mostram. Senti uma pontada de orgulho, mas antes que eu pudesse responder, senti o celular vibrar no bolso. Uma nova mensagem. Alessandro: Não deveria aceitar caronas de outro homem à noite. Olhei pela janela instintivamente. Nenhum carro suspeito. Nenhum reflexo estranho. Mas ele sabia. Que droga! Onde ele estava? — Está tudo bem? — Marcos perguntou, percebendo a mudança na minha expressão. — Sim… é só… nada — respondi, forçando um sorriso. Ele me lançou um daqueles sorrisos tranquilos e charmosos — do tipo que acalma ao mesmo tempo em que deixa um rastro perigoso de encantamento. Agradeci pela carona, saí do carro e subi para o meu apartamento. Assim que entrei, tirei os sapatos, joguei a bolsa no sofá e respirei fundo, tentando afastar a sensação inquieta que Alessandro sempre deixava em mim. Mal tive tempo de me acomodar quando o celular vibrou novamente. Alessandro: Se continuar me testando, Thalyane, quando eu voltar dessa viagem, vai se arrepender. Os pelos do meu corpo se eriçaram imediatamente ao ler aquelas palavras. Eu não sabia definir se aquilo despertava medo, irritação ou algo muito pior. Excitação. Passei a língua pelos lábios secos, encarando a mensagem na tela iluminada enquanto meu coração desacelerava aos poucos. Pelo menos uma coisa parecia certa: ele realmente estava distante por motivos profissionais, e não apenas desaparecendo para me manipular outra vez.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD