Capítulo 21- O Tabuleiro

1747 Words
Ponto de vista: Alessandro Moretti Eu já sabia que Thalyane estaria ali. Nada em seus trajetos, nas escolhas que fazia ou nos movimentos que ensaiava escapava à minha atenção. Antecipar pessoas nunca foi um exercício de sorte — era método. A Clínica Solares fazia parte do meu tabuleiro muito antes de ela sequer considerar atravessar aquelas portas. Eu era acionista, conhecia Otávio o suficiente para prever suas decisões e entendia perfeitamente como Marcos mantinha a máquina funcionando nos bastidores. Era um sistema eficiente e previsível. E previsibilidade sempre foi uma vantagem. Cada peça ocupava exatamente o lugar que eu havia calculado. Algumas por escolha própria. Outras… porque alguém precisava guiá-las até ali. Quando entrei, não precisei procurá-la de imediato. Ela se anunciou antes, no ar. O perfume veio primeiro e só depois meus olhos alcançaram seu rosto quase inocente. Ao redor, outras candidatas tentavam sustentar alguma relevância. De longe denunciavam a própria insegurança no modo de se sentar, nas mãos inquietas, na maneira como aguardavam ser chamadas. Havia sempre esse traço: pessoas que pedem permissão para existir. Thalyane não. Ela se instalava no espaço como quem pertence a ele. A postura era natural, sem esforço visível, sem a necessidade de provar nada a ninguém e talvez fosse justamente isso que a tornava tão evidente entre as demais. Uma confiança rara, quase instintiva, que não buscava aprovação. E é curioso como esse tipo de presença sempre se destaca. Sempre tive apreço por mulheres inteligentes. Mas as que compreendem a dinâmica do jogo, as que leem pessoas com a mesma naturalidade com que leem ambientes oferecem algo mais raro. Um tipo de desafio que não aparece com frequência. Minutos depois de Thalyane entrar na sala de seleção, segui para a sala de reuniões da Clínica Solares, conforme havia combinado com Otávio Santoro e Marcos Veylor. Quando entrei, os dois já me aguardavam. A reunião girava em torno dos relatórios financeiros do trimestre, investimentos futuros e alguns ajustes administrativos da clínica. Otávio conduzia aquela parte com naturalidade — era ele quem administrava os números e a expansão da Solares, mesmo morando fora de Florianópolis. Já Marcos permanecia responsável pela clínica no dia a dia, liderando a equipe e mantendo tudo funcionando dentro do padrão. Eu poderia ter resolvido aquilo por telefone em menos de quinze minutos. Mas, quando soube que ela estaria ali naquele dia, preferi aparecer pessoalmente. — Os custos do novo setor continuam altos, mas o retorno previsto compensa — explicou Otávio, deslizando alguns documentos sobre a mesa. Marcos apoiou-se na cadeira ao lado, claramente menos interessado nas planilhas do que na rotina prática da clínica. — Minha preocupação continua sendo a equipe — comentou. — A demanda aumentou muito nos últimos meses e ainda estou sem alguém fixo para auxiliar diretamente comigo. Foi aí que ergui os olhos para ele. — Inclusive… sobre isso. — Fechei a pasta devagar. — A garota que está no processo seletivo hoje. Thalyane Virelli. Marcos franziu levemente a testa, tentando associar o nome. — A candidata para auxiliar? — Essa mesma. — Mantive a voz tranquila. — Vale a pena olhar com mais atenção. Otávio lançou um olhar discreto entre nós, percebendo interesse demais no meu tom aparentemente neutro. Marcos recostou-se na cadeira. — Você a conhece? O canto da minha boca quase se moveu. — Digamos que tive boas impressões. Ela sabe se portar, é observadora e parece lidar bem sob pressão. Para alguém que vai trabalhar diretamente com você, isso importa. Houve alguns segundos de silêncio antes de Marcos concordar com um aceno breve. — Certo. Vou conversar com ela pessoalmente antes de decidir. Assenti, satisfeito. Não precisei insistir. Na maior parte do tempo, bastava deslocar a peça certa. O restante do tabuleiro encontrava o próprio rumo. ✨✨✨✨✨✨✨ Ponto de vista: Thalyane Virelli A sala da clínica transmitia exatamente o tipo de ambiente que eu admirava: organizada, silenciosa e impecavelmente profissional. Havia algo naquele lugar que me fazia imaginar, mesmo sem querer, como seria ter meu próprio consultório um dia. Quando a entrevista terminou, Dra. Helena me acompanhou até a saída, comentando alguns detalhes do processo seletivo enquanto caminhávamos pelo corredor principal. Foi então que percebi que talvez Alessandro realmente não estivesse me seguindo. Mais à frente, próximo à recepção, ele conversava tranquilamente com dois homens. Um deles era mais baixo em comparação a Alessandro, postura elegante, aparência discreta e expressão objetiva, o tipo de pessoa que parecia observar tudo antes de falar. O outro chamou minha atenção por tempo demais. Era tão alto quanto Alessandro, tinha os cabelos castanhos claros perfeitamente alinhados, barba bem-feita e um sorriso cordial que suavizava a postura naturalmente analítica. Vestia camisa social sem gravata por baixo do jaleco branco, e os óculos de armação quadrada acrescentavam um charme quase intelectual demais para alguém claramente acostumado a lidar com pessoas o tempo inteiro. Só percebi o quanto estava encarando quando os três começaram a se aproximar. E Alessandro… Alessandro me observava com aquela intensidade desconfortável de sempre, como se enxergasse pensamentos que eu ainda nem tinha formulado. — Thalyane Virelli? — O homem de jaleco perguntou, numa voz calma e agradável. — Sim. — Prazer. Sou Marcos Veylor, responsável pela clínica. — Ele estendeu a mão com firmeza. — E esse é Otávio Santoro, meu sócio. Otávio cumprimentou-me com educação contida, enquanto Marcos sustentava um olhar profissional, atento aos detalhes de um jeito que me deixou estranhamente consciente da minha própria postura. Por um instante, tive a impressão de que ambos já sabiam que Alessandro e eu nos conhecíamos. E, pela forma como Alessandro permanecia silencioso ao lado deles, provavelmente sabiam mesmo. — Como vai, Thalyane? — Alessandro perguntou com tranquilidade demais, como se eu fosse apenas uma conhecida casual e não alguém que ele perseguia. — Bem, senhor Moretti. — Sorri educadamente. Mas, dessa vez, minha atenção voltou para os outros dois. Principalmente para o doutor Marcos Veylor. Um dos psiquiatras mais recomendados de Florianópolis. E, ironicamente, alguém que parecia observar as pessoas com cuidado suficiente para notar coisas que elas próprias tentavam esconder. — Você veio pela vaga de auxiliar? — Continuou Marcos, num tom sereno, me observando com atenção genuína. — Sim — respondi, firme, tentando impedir que o nervosismo transparecesse. Ele inclinou levemente a cabeça, como se registrasse cada detalhe meu antes de abrir um sorriso discreto. — Muito bem, Thalyane. A Dra. Helena entrará em contato caso você seja aprovada. Fiquei parada por um instante, absorvendo o peso silencioso daquele olhar analítico, e senti um calor leve subir pelo rosto. — Obrigada. — Sorri de volta, sustentando a mesma compostura que havia mantido durante toda a entrevista. Marcos assentiu, ainda com aquele sorriso bonito e tranquilo. — Boa sorte — acrescentou Otávio, cordial. Então meus olhos encontraram Alessandro. Por um breve momento, ele parecia distante, perdido nos próprios pensamentos — o que, vindo dele, era quase estranho demais para não chamar atenção. Ignorei a vontade impulsiva de provocá-lo. Apenas me despedi com um aceno discreto e caminhei em direção à porta, tentando ignorar o som acelerado do meu próprio coração. Atrás de mim, os três permaneceram no corredor enquanto eu seguia adiante, sentindo o peso daqueles olhares me acompanhando até a saída. Eu m*l havia colocado os pés para fora da clínica quando a voz grave e rouca de Alessandro atravessou o ar, colidindo diretamente com o fluxo confuso dos meus pensamentos. — Thalyane. Antes mesmo que eu me virasse por completo, ele já estava ao meu lado. Continuei caminhando, e Alessandro acompanhou meus passos sem dificuldade, como se aquilo fosse o mais natural do mundo. — Então… já resolveu os “negócios” de hoje? — Perguntei, tentando manter a voz estável. — Sim. — A resposta veio curta, sem que ele desviasse o olhar de mim. Seguimos lado a lado por alguns segundos em silêncio. Então Alessandro inclinou-se levemente na minha direção, como se analisasse algo que despertasse sua curiosidade de forma particular. — E então? — Perguntou por fim, num tom mais baixo. — Como foi a entrevista? Desviei os olhos por um instante antes de responder, consciente demais da atenção dele sobre mim. — A Dra. Helena Souza foi muito simpática. Direta, mas acolhedora. — Fiz uma pequena pausa. — E o Doutor Veylor também parece ser assim. Bem seguro… muito simpático. Acho que vai ser ótimo trabalhar com ele. A mudança na expressão de Alessandro foi quase imperceptível. Quase. O jeito como pronunciei bem seguro… muito simpático acendeu algo nos olhos dele — um brilho estreito, contido, que provavelmente passaria despercebido para qualquer outra pessoa. Mas não para mim. — Bom… — murmurei, ajeitando a alça da bolsa no ombro enquanto deixava escapar um sorriso pequeno, quase inocente. — Até mais, Ale. Virei as costas antes que ele respondesse. Saí da clínica em passos tranquilos, sustentando a postura de quem não precisava olhar para trás. Caminhei até o ponto de ônibus na esquina. O vento suave da manhã bagunçava meus cabelos, espalhando o perfume que eu havia passado antes da entrevista. O ônibus chegou com um rangido metálico, e eu subi. Escolhi um lugar perto da janela, apoiei o braço no metal frio e respirei fundo. Quando o veículo começou a andar, olhei para trás. Ele ainda estava lá. Parado na calçada. As mãos nos bolsos do calça social, os olhos fixos em mim como se tentasse descobrir em que momento, exatamente, o cenário tinha deixado de seguir o rumo que ele esperava. Havia irritação naquele olhar. E algo ainda mais perigoso. Deixei o canto da boca subir devagar, num sorriso discreto e satisfeito. O ônibus logo virou a esquina. E eu deixei Alessandro Moretti com toda a influência, presença e certezas que carregava exatamente onde ele menos gostava de estar: Atrás de mim. No dia seguinte… Eu já estava estendida no sofá, vestindo um short de algodão e uma camiseta larga, deixando Harry Potter passar pela centésima vez na televisão, quando o celular vibrou sobre a mesa de centro. Atendi sem muita expectativa. — Thalyane? Aqui é da Clínica Solares. Parabéns, você foi aprovada para o estágio. Meu sorriso surgiu na mesma hora, acompanhado de uma onda imediata de alívio. — Sério? — Perguntei, quase rindo. — Sim. Se puder, venha amanhã pela manhã para alinharmos os primeiros dias. — Claro. Muito obrigada! Quando desliguei, fiquei alguns segundos olhando para o celular nas minhas mãos. Talvez aquilo fosse uma nova fase e eu estava pronta pra ela.
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