Ponto de vista: Alessandro Moretti
Eu já sabia que Thalyane estaria ali.
Nada em seus trajetos, nas escolhas que fazia ou nos movimentos que ensaiava escapava à minha atenção.
Antecipar pessoas nunca foi um exercício de sorte — era método.
A Clínica Solares fazia parte do meu tabuleiro muito antes de ela sequer considerar atravessar aquelas portas.
Eu era acionista, conhecia Otávio o suficiente para prever suas decisões e entendia perfeitamente como Marcos mantinha a máquina funcionando nos bastidores.
Era um sistema eficiente e previsível.
E previsibilidade sempre foi uma vantagem.
Cada peça ocupava exatamente o lugar que eu havia calculado.
Algumas por escolha própria.
Outras… porque alguém precisava guiá-las até ali.
Quando entrei, não precisei procurá-la de imediato. Ela se anunciou antes, no ar.
O perfume veio primeiro e só depois meus olhos alcançaram seu rosto quase inocente.
Ao redor, outras candidatas tentavam sustentar alguma relevância.
De longe denunciavam a própria insegurança no modo de se sentar, nas mãos inquietas, na maneira como aguardavam ser chamadas.
Havia sempre esse traço: pessoas que pedem permissão para existir.
Thalyane não. Ela se instalava no espaço como quem pertence a ele.
A postura era natural, sem esforço visível, sem a necessidade de provar nada a ninguém e talvez fosse justamente isso que a tornava tão evidente entre as demais.
Uma confiança rara, quase instintiva, que não buscava aprovação.
E é curioso como esse tipo de presença sempre se destaca.
Sempre tive apreço por mulheres inteligentes.
Mas as que compreendem a dinâmica do jogo, as que leem pessoas com a mesma naturalidade com que leem ambientes oferecem algo mais raro.
Um tipo de desafio que não aparece com frequência.
Minutos depois de Thalyane entrar na sala de seleção, segui para a sala de reuniões da Clínica Solares, conforme havia combinado com Otávio Santoro e Marcos Veylor.
Quando entrei, os dois já me aguardavam.
A reunião girava em torno dos relatórios financeiros do trimestre, investimentos futuros e alguns ajustes administrativos da clínica. Otávio conduzia aquela parte com naturalidade — era ele quem administrava os números e a expansão da Solares, mesmo morando fora de Florianópolis. Já Marcos permanecia responsável pela clínica no dia a dia, liderando a equipe e mantendo tudo funcionando dentro do padrão.
Eu poderia ter resolvido aquilo por telefone em menos de quinze minutos.
Mas, quando soube que ela estaria ali naquele dia, preferi aparecer pessoalmente.
— Os custos do novo setor continuam altos, mas o retorno previsto compensa — explicou Otávio, deslizando alguns documentos sobre a mesa.
Marcos apoiou-se na cadeira ao lado, claramente menos interessado nas planilhas do que na rotina prática da clínica.
— Minha preocupação continua sendo a equipe — comentou. — A demanda aumentou muito nos últimos meses e ainda estou sem alguém fixo para auxiliar diretamente comigo.
Foi aí que ergui os olhos para ele.
— Inclusive… sobre isso. — Fechei a pasta devagar. — A garota que está no processo seletivo hoje. Thalyane Virelli.
Marcos franziu levemente a testa, tentando associar o nome.
— A candidata para auxiliar?
— Essa mesma. — Mantive a voz tranquila. — Vale a pena olhar com mais atenção.
Otávio lançou um olhar discreto entre nós, percebendo interesse demais no meu tom aparentemente neutro.
Marcos recostou-se na cadeira.
— Você a conhece?
O canto da minha boca quase se moveu.
— Digamos que tive boas impressões. Ela sabe se portar, é observadora e parece lidar bem sob pressão. Para alguém que vai trabalhar diretamente com você, isso importa.
Houve alguns segundos de silêncio antes de Marcos concordar com um aceno breve.
— Certo. Vou conversar com ela pessoalmente antes de decidir.
Assenti, satisfeito. Não precisei insistir.
Na maior parte do tempo, bastava deslocar a peça certa.
O restante do tabuleiro encontrava o próprio rumo.
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Ponto de vista: Thalyane Virelli
A sala da clínica transmitia exatamente o tipo de ambiente que eu admirava: organizada, silenciosa e impecavelmente profissional. Havia algo naquele lugar que me fazia imaginar, mesmo sem querer, como seria ter meu próprio consultório um dia.
Quando a entrevista terminou, Dra. Helena me acompanhou até a saída, comentando alguns detalhes do processo seletivo enquanto caminhávamos pelo corredor principal.
Foi então que percebi que talvez Alessandro realmente não estivesse me seguindo.
Mais à frente, próximo à recepção, ele conversava tranquilamente com dois homens.
Um deles era mais baixo em comparação a Alessandro, postura elegante, aparência discreta e expressão objetiva, o tipo de pessoa que parecia observar tudo antes de falar.
O outro chamou minha atenção por tempo demais.
Era tão alto quanto Alessandro, tinha os cabelos castanhos claros perfeitamente alinhados, barba bem-feita e um sorriso cordial que suavizava a postura naturalmente analítica. Vestia camisa social sem gravata por baixo do jaleco branco, e os óculos de armação quadrada acrescentavam um charme quase intelectual demais para alguém claramente acostumado a lidar com pessoas o tempo inteiro.
Só percebi o quanto estava encarando quando os três começaram a se aproximar.
E Alessandro…
Alessandro me observava com aquela intensidade desconfortável de sempre, como se enxergasse pensamentos que eu ainda nem tinha formulado.
— Thalyane Virelli? — O homem de jaleco perguntou, numa voz calma e agradável.
— Sim.
— Prazer. Sou Marcos Veylor, responsável pela clínica. — Ele estendeu a mão com firmeza. — E esse é Otávio Santoro, meu sócio.
Otávio cumprimentou-me com educação contida, enquanto Marcos sustentava um olhar profissional, atento aos detalhes de um jeito que me deixou estranhamente consciente da minha própria postura.
Por um instante, tive a impressão de que ambos já sabiam que Alessandro e eu nos conhecíamos.
E, pela forma como Alessandro permanecia silencioso ao lado deles, provavelmente sabiam mesmo.
— Como vai, Thalyane? — Alessandro perguntou com tranquilidade demais, como se eu fosse apenas uma conhecida casual e não alguém que ele perseguia.
— Bem, senhor Moretti. — Sorri educadamente.
Mas, dessa vez, minha atenção voltou para os outros dois.
Principalmente para o doutor Marcos Veylor.
Um dos psiquiatras mais recomendados de Florianópolis. E, ironicamente, alguém que parecia observar as pessoas com cuidado suficiente para notar coisas que elas próprias tentavam esconder.
— Você veio pela vaga de auxiliar? — Continuou Marcos, num tom sereno, me observando com atenção genuína.
— Sim — respondi, firme, tentando impedir que o nervosismo transparecesse.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se registrasse cada detalhe meu antes de abrir um sorriso discreto.
— Muito bem, Thalyane. A Dra. Helena entrará em contato caso você seja aprovada.
Fiquei parada por um instante, absorvendo o peso silencioso daquele olhar analítico, e senti um calor leve subir pelo rosto.
— Obrigada. — Sorri de volta, sustentando a mesma compostura que havia mantido durante toda a entrevista.
Marcos assentiu, ainda com aquele sorriso bonito e tranquilo.
— Boa sorte — acrescentou Otávio, cordial.
Então meus olhos encontraram Alessandro.
Por um breve momento, ele parecia distante, perdido nos próprios pensamentos — o que, vindo dele, era quase estranho demais para não chamar atenção.
Ignorei a vontade impulsiva de provocá-lo.
Apenas me despedi com um aceno discreto e caminhei em direção à porta, tentando ignorar o som acelerado do meu próprio coração.
Atrás de mim, os três permaneceram no corredor enquanto eu seguia adiante, sentindo o peso daqueles olhares me acompanhando até a saída.
Eu m*l havia colocado os pés para fora da clínica quando a voz grave e rouca de Alessandro atravessou o ar, colidindo diretamente com o fluxo confuso dos meus pensamentos.
— Thalyane.
Antes mesmo que eu me virasse por completo, ele já estava ao meu lado.
Continuei caminhando, e Alessandro acompanhou meus passos sem dificuldade, como se aquilo fosse o mais natural do mundo.
— Então… já resolveu os “negócios” de hoje? — Perguntei, tentando manter a voz estável.
— Sim. — A resposta veio curta, sem que ele desviasse o olhar de mim.
Seguimos lado a lado por alguns segundos em silêncio.
Então Alessandro inclinou-se levemente na minha direção, como se analisasse algo que despertasse sua curiosidade de forma particular.
— E então? — Perguntou por fim, num tom mais baixo. — Como foi a entrevista?
Desviei os olhos por um instante antes de responder, consciente demais da atenção dele sobre mim.
— A Dra. Helena Souza foi muito simpática. Direta, mas acolhedora. — Fiz uma pequena pausa. — E o Doutor Veylor também parece ser assim. Bem seguro… muito simpático. Acho que vai ser ótimo trabalhar com ele.
A mudança na expressão de Alessandro foi quase imperceptível. Quase.
O jeito como pronunciei bem seguro… muito simpático acendeu algo nos olhos dele — um brilho estreito, contido, que provavelmente passaria despercebido para qualquer outra pessoa.
Mas não para mim.
— Bom… — murmurei, ajeitando a alça da bolsa no ombro enquanto deixava escapar um sorriso pequeno, quase inocente. — Até mais, Ale.
Virei as costas antes que ele respondesse.
Saí da clínica em passos tranquilos, sustentando a postura de quem não precisava olhar para trás.
Caminhei até o ponto de ônibus na esquina.
O vento suave da manhã bagunçava meus cabelos, espalhando o perfume que eu havia passado antes da entrevista.
O ônibus chegou com um rangido metálico, e eu subi. Escolhi um lugar perto da janela, apoiei o braço no metal frio e respirei fundo. Quando o veículo começou a andar, olhei para trás.
Ele ainda estava lá. Parado na calçada.
As mãos nos bolsos do calça social, os olhos fixos em mim como se tentasse descobrir em que momento, exatamente, o cenário tinha deixado de seguir o rumo que ele esperava.
Havia irritação naquele olhar. E algo ainda mais perigoso.
Deixei o canto da boca subir devagar, num sorriso discreto e satisfeito.
O ônibus logo virou a esquina. E eu deixei Alessandro Moretti com toda a influência, presença e certezas que carregava exatamente onde ele menos gostava de estar:
Atrás de mim.
No dia seguinte…
Eu já estava estendida no sofá, vestindo um short de algodão e uma camiseta larga, deixando Harry Potter passar pela centésima vez na televisão, quando o celular vibrou sobre a mesa de centro.
Atendi sem muita expectativa.
— Thalyane? Aqui é da Clínica Solares. Parabéns, você foi aprovada para o estágio.
Meu sorriso surgiu na mesma hora, acompanhado de uma onda imediata de alívio.
— Sério? — Perguntei, quase rindo.
— Sim. Se puder, venha amanhã pela manhã para alinharmos os primeiros dias.
— Claro. Muito obrigada!
Quando desliguei, fiquei alguns segundos olhando para o celular nas minhas mãos. Talvez aquilo fosse uma nova fase e eu estava pronta pra ela.