CAPITULO 20 - INFILTRADO

1225 Words
Ponto de vista: Thalyane Virelli A segunda-feira começou com tudo, diferente da calmaria do domingo. Meu celular havia ficado no silencioso desde a última mensagem do atrevido, e eu me recusava a deixar que ele roubasse meu foco. Hoje eu tinha uma entrevista para um estágio em um centro de apoio psicológico, uma oportunidade que poderia abrir portas essenciais para a minha carreira. Eu não estava desesperada por dinheiro, minha mãe, Rosa Martins Virelli, era advogada e, desde a morte do meu pai, quando eu tinha apenas oito anos, ela sempre garantiu que nada me faltasse. Ele havia deixado um valor considerável em seguros e investimentos. Também existia a empresa da família, que passou a ser administrada pelo meu tio Romeu. Por causa disso, sempre tivemos o suficiente para viver com conforto. Não éramos ricas como Alessandro, mas também não nos faltava nada. Eu cresci em um lar estável, ainda que marcado pela ausência. Minha mãe, sempre lutou para manter tudo em ordem; os estudos, os horários, e os cuidados comigo. Mas havia algo nela que nunca se encaixava completamente. A perda do meu pai, Pietro, deixou nela uma espécie de lacuna que nem o tempo, nem os livros de direito conseguiram preencher. Rosa aprendeu a ser forte, mas não aprendeu a ser inteira. E essa ausência dela, mesmo quando presente moldou a casa em que cresci. Era como se o luto dela tivesse se tornado parte da mobília: discreto, mas sempre ali. E ao lado desse luto, havia também as minhas próprias oscilações, que ninguém nomeava, mas que me acompanhavam desde cedo. Aquele estágio significava mais do que qualquer ajuda financeira: era a chance de aplicar o que eu aprendia na faculdade de Psicologia, adquirir experiência real e, finalmente, começar a trilhar meu caminho com o meu próprio dinheiro. Escolhi um vestido midi ajustado, mas elegante, acompanhado de um blazer. Maquiagem leve, cabelo preso em um coque descontraído. Nada chamativo ao menos não de propósito. Quando cheguei ao prédio espelhado do centro, respirei fundo e segui até a recepção. A sala de espera era silenciosa, com outras duas candidatas folheando currículos. Eu tentava revisar mentalmente minhas respostas, quando a porta de vidro automática se abriu… e ele entrou. Por um instante, quase deixei minha bolsa escapar dos dedos. Meu coração falhou uma batida, e meus olhos se arregalaram em pura surpresa. Só pode ser brincadeira mesmo. Alessandro estava impecável em um terno azul-marinho perfeitamente ajustado, a gravata levemente afrouxada como se tivesse acabado de sair de uma reunião importante. O tecido marcava seus ombros largos, e havia algo perigosamente atraente na maneira como ele ocupava o espaço ao redor. Com passos seguros e arrogantes, carregados de uma confiança quase provocativa, ele começou a se aproximar — Thaly… — meu apelido saiu de seus lábios baixo, quase íntimo. — Alessandro? — Respondi, a voz escapando mais alta do que eu pretendia, chamando a atenção de uma das candidatas ao lado. Era inacreditável que isso estivesse mesmo acontecendo. Ele se aproximou sem se importar com as pessoas ao redor e inclinou-se levemente na minha direção, como se o restante do ambiente simplesmente deixasse de existir. — Sabia que ia te encontrar aqui. — Está me seguindo agora? — Retruquei, seca, tentando manter a postura. — Eu? Claro que não. — Ele deu de ombros, indiferente demais para soar convincente. Franzi a testa. — Então o que está fazendo aqui? — Negócios. — A resposta veio acompanhada daquele meio sorriso irritantemente confiante. — Esse centro recebe uma das minhas empresas como patrocinadora. Os olhos verdes deslizaram pelo meu rosto devagar antes de ele completar, num tom mais baixo: — E agora estou vendo que pode receber você também… se eu quiser. — Se você quiser? — Ergui uma sobrancelha, quase rindo. — Sinto muito, mas a minha vida profissional não depende de você. Ele me olhou como se quisesse discordar de cada sílaba, mas se conteve. — Só não quero que desperdice talento… com pessoas erradas. A recepcionista chamou meu nome, quebrando a tensão. — Thalyane, pode entrar. Eu me levantei, ajeitando o blazer, e antes de passar por ele, deixei minha voz deslizar de forma deliberadamente provocante: — Então torça por mim, Ale ou melhor… tenta não atrapalhar. Ao entrar na sala de entrevistas, senti o peso do olhar dele nas minhas costas. E pela primeira vez, percebi que Alessandro não estava ali só por acaso… ele estava, de alguma forma, infiltrando-se em cada espaço da minha vida o que me deixou mais irritada. A sala era iluminada por janelas amplas e uma mesa de madeira clara. O ambiente tinha aquele cheiro de papel novo misturado com café, acolhedor sem ser íntimo demais. A coordenadora do centro, Dra. Helena, me recebeu com um sorriso profissional, mas genuíno. — Thalyane, seja bem-vinda. Vamos conversar um pouco sobre sua experiência e seus objetivos. Assenti, sentando com postura composta e cruzando as pernas. Respirei fundo. Eu tinha me preparado para aquilo. Mesmo estando apenas no primeiro ano da faculdade de Psicologia, ainda no começo de tudo, eu me dedicava como alguém que já estava há anos na área. Passava noites lendo casos clínicos, artigos e livros sobre comportamento. Não porque era exigido, mas porque eu realmente queria entender a mente humana. Inclusive a minha. Dra. Helena folheou meu currículo com calma. — Vejo que você tem interesse em psicologia clínica — comentou, levantando os olhos para mim. — E já participou de grupos de apoio na faculdade? — Sim, dois… — respondi com firmeza. Mantive o foco, sem me perder em distrações internas. — Participei como observadora e também auxiliando na preparação dos encontros. Gosto de analisar dinâmicas e entender padrões de comportamento. Ela assentiu, parecendo satisfeita. E fiz o que sempre faço quando algo realmente me interessa: senti aquela energia familiar subir — rápida, quase luminosa — mas respirei fundo para não deixar que ela escapasse demais. Ainda assim, era difícil esconder completamente. Psicologia clínica mexia comigo de um jeito que nenhuma outra área conseguia. Endireitei a postura e deixei que um entusiasmo contido aparecesse na minha voz. — Na verdade — continuei, com um leve brilho nos olhos — eu sempre gostei de analisar padrões. Leio muitos estudos de caso por conta própria… às vezes até mais do que deveria. Dra. Helena sorriu, observando-me com atenção clínica. — Isso é ótimo, Thalyane. Motivação interna é algo raro no primeiro ano — a maioria ainda está descobrindo suas áreas de interesse. — Eu… — parei por um segundo, tentando ajustar a intensidade — eu sinto que clínica faz sentido pra mim. Eu gosto de entender as camadas, sabe? O que as pessoas mostram, e o que elas escondem sem perceber. Ela cruzou as mãos sobre a mesa. — E como você lida com isso? Com tanta coisa para absorver ao mesmo tempo? Engoli seco. Essa pergunta sempre me pegava. — Às vezes fico… muito focada — admiti, escolhendo as palavras com cuidado. — Quando gosto de algo, mergulho fundo. Talvez fundo demais. Helena sorriu de leve, como se registrasse isso mentalmente. — Isso pode ser uma força, desde que você aprenda seus limites. Mas devo dizer… sua dedicação é acima do esperado para o estágio inicial da graduação.  Sorri, sentindo novamente aquele impulso elétrico percorrer meu corpo — uma mistura de orgulho e ansiedade.
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