Ponto de vista Alessandro Moretti
Ela estava indo embora com ele.
Do meu ângulo, não dava pra ouvir nada… só vi André abrir a porta e se inclinar, perto demais, como se tivesse algum direito sobre ela.
A imagem me atingiu como um soco no estômago.
Um golpe seco, que desceu queimando pela garganta com o resto do uísque.
Então é assim? m*l saio de perto e você…?
A ligação que eu tinha recebido minutos antes ainda vibrava na memória: um problema sério numa das empresas do grupo — uma auditoria antecipada, contratos em risco, uma decisão que só eu podia tomar.
Eu deveria ter voltado para o escritório imediatamente.
Deveria, mas não voltei.
Porque eu queria que ela esperasse por mim.
Queria vê-la irritada, inquieta, olhando para a porta ansiando pelo momento que eu entraria.
Eu só não imaginava que ela sairia tão rápido… e muito menos acompanhada do abutre do André.
O sangue subiu quente e não esperei para ver mais.
Dei meia-volta, o copo ainda firme na mão, e me afastei da varanda antes que fizesse algo que realmente não pudesse controlar.
Porque se eu continuasse olhando… eu descia aquelas escadas, arrancava André dali pelo colarinho e aí não haveria contrato, empresa ou inferno que me segurasse.
Não voltei mais para a festa.
Passei os minutos seguintes trancado no meu escritório, girando um copo de uísque entre os dedos sem realmente bebê-lo.
O som distante da música parecia ecoar debaixo d’água — abafado, irritante, inútil.
Nada prendia minha atenção.
Exceto a imagem dela saindo com o maldito André Vasconcellos.
Meu novo sócio. A pior combinação possível para aparecer ao lado da mulher que eu venho tentando com toda a paciência que um homem como eu consegue reunir manter por perto.
Aquela curva discreta no canto do sorriso dela. A forma como ele se inclinou perto demais. E ela… ela não recuou.
Eu conhecia homens como ele.
Ambiciosos. Polidos. Cheios daquele charme ensaiado que funciona muito bem em eventos e reuniões, sempre bem vestidos, sempre com a frase certa pronta na ponta da língua. Homens que confundem oportunidade com permissão.
Ela era inteligente. Brilhante, até. Mas não fazia ideia do efeito que causava quando simplesmente entrava em um lugar.
Do quanto chamava atenção sem esforço algum. Aquela aparência delicada quase inocente só piorava as coisas.
Homens olham para algo assim e imediatamente imaginam que têm alguma chance.
— Você entrou no meu jogo, Thalyane… e está jogando errado. — murmurei para mim mesmo.
Tirei o celular do bolso. Olhei para a tela por alguns segundos, considerando simplesmente ignorar.
Mas a ideia de não dizer nada me incomodava mais do que qualquer resposta.
Digitei:
Eu: Espero que tenha aproveitado a carona.
Enviei sem acrescentar mais nada.
O “Aproveitei sim” ficou queimando na tela, como se ela tivesse escolhido cada palavra para me provocar.
E o “Ale” no final?
Fechei a mão ao redor do celular, sentindo a pele repuxar sobre os nós dos dedos.
Não me importava que horas eram.
Eu não ia simplesmente deitar e dormir enquanto aquela imagem dela ao lado de André, saindo com ele, os dois próximos demais, continuava voltando à minha cabeça.
Peguei as chaves do carro e desci as escadas com passos firmes, cada movimento empurrado por uma mistura de irritação e desejo que eu conhecia bem demais. Era irracional, eu sabia. Mas era exatamente isso que ela provocava em mim.
O motor ligou com um ronco forte, impaciente — quase refletindo o mesmo estado em que eu estava.
A rua noturna começou a correr pelo para-brisa rápido demais, porque eu estava acelerando mais do que deveria.
Mais do que qualquer pessoa minimamente sensata pisaria no acelerador naquela condição.
Não importava.
Eu precisava chegar.
Precisava olhar nos olhos dela e entender o que, exatamente, ela achava que estava fazendo.
A cada quadra que eu avançava, mais convicções se formavam na minha cabeça. Ela sabia que eu não deixaria aquilo simplesmente passar.
E eu também sabia de uma coisa: não conseguiria descansar enquanto não tivesse Thalyane bem na minha frente — sem André por perto, sem aquela cena atravessando minha cabeça, sem aquele sorriso provocador que parecia sempre esconder alguma coisa.
Eu precisava de respostas.
E precisava delas hoje.
✨✨✨✨
Ponto de vista de Thalyane Virelli
Era pouco mais de 3h40 da madrugada.
Eu estava no sofá, de camisola, tentando revisar uma das leituras da faculdade.
Os conceitos passavam pela minha cabeça como palavras soltas, sem peso, sem forma. Eu só queria ocupar a mente com qualquer coisa para não pensar nele.
Então a campainha tocou.
Uma, duas, três vezes.
Rápidas. Firmes. Impacientes.
Um arrepio subiu pela minha coluna.
Levantei devagar, cada passo arrastado.
Quando abri a porta, lá estava ele.
Alessandro.
Camiseta preta justa, jaqueta de couro escura, jeans de corte caro, como se tivesse saído de casa no impulso e não como o CEO impecável de sempre. Mas o olhar… o olhar era de um homem que não tinha vindo conversar.
— Veio fazer o quê aqui, Alessandro? — Perguntei, cruzando os braços.
Eu não estava surpresa, já conhecia o padrão.
Ele entrou sem pedir — como sempre — e fechou a porta atrás de si com calma demais.
— Veio fazer o quê? — Repetiu ele, a voz baixa, tensa. — Eu que quero saber. Você saiu com ele. E depois ainda me manda aquilo?
— Aquilo? — Ergui o queixo, firme. — Uma mensagem simples? Ah, por favor. Nós não temos nada. Você. Não. É. Meu dono. – Falei pausadamente para ele entender de uma vez por todas.
— Não sou seu dono? — A voz estava carregada, sem espaço pra ironia. — Então me explica, Thalyane: por que eu não consigo parar de pensar em você desde que te beijei? Por que aquela cena com o André ficou martelando na minha cabeça até me trazer aqui?
Respirei fundo, sentindo a coragem subir como se tivesse sido arrancada de mim à força.
— Talvez porque você esteja acostumado a ter tudo o que quer do seu jeito. — Dei de ombros. — E eu só faça o que eu quero.
Os olhos dele escureceram.
Ele avançou dois passos, reduzindo o espaço entre nós até que o perfume dele — amadeirado, com um traço de canela, quente e perigosamente envolvente — roçasse minha pele como um toque antecipado.
— Você adora me provocar, Thaly… mas não sabe brincar com fogo sem se queimar.
— E você acha que é o único fogo aqui dentro? — Respondi, firme, mesmo com o coração disparando.
A tensão no ar se condensou. Quase dava pra ouvir estalar.
Por um segundo, eu achei que ele fosse me beijar.
Por outro, achei que ele fosse quebrar alguma coisa.
E talvez as duas coisas fossem verdade.
Mas eu dei um passo para o lado, abrindo espaço.
— A porta é ali, Alessandro.
Ele ficou imóvel por dois segundos longos, a mandíbula rígida, como se estivesse segurando algo dentro de si.
Depois, devagar, caminhou até a porta.
Mas antes de sair, inclinou-se perto do meu ouvido.
A respiração dele roçou minha pele.
— Isso não acabou querida.
Eu não esperava que ele realmente fosse embora.
Achei que insistiria, que daria mais um passo, que diria qualquer coisa para virar o jogo.
Mas quando a porta se fechou, soltei um suspiro longo. Ele tinha ido embora… mas deixou o ar pesado, carregado demais para um espaço tão pequeno.
E mesmo assim, no meio do caos que ele sempre parecia deixar por onde passava, uma sensação amarga e estranhamente viciante cresceu dentro do meu peito.
Vitória e perigo.
Alessandro era como uma tempestade.
E eu… ainda não sabia se estava aprendendo a fugir dela ou se, no fundo, estava começando a chamá-la.