CAPÍTULO 14- ENTRE DOIS PREDADORES

1436 Words
Ponto de vista: Thalyane Virelli O salão estava tomado por luzes douradas, cristais refletindo o brilho dos lustres e pessoas que pareciam ter ensaiado cada gesto. Assim que atravessei a porta, o som ambiente pareceu diminuir. Não porque ficou mais baixo, mas porque todos os olhares pousaram em mim ao mesmo tempo. Meus passos ecoaram suaves no mármore, firmes, e ainda assim completamente naturais. Eu sentia o tecido do vestido vermelho deslizando pela minha pele como se tivesse sido feito para aquele momento. E então eu o vi. Alessandro Moretti. Parado do outro lado do salão, cercado de gente, mas absolutamente sozinho para mim. O olhar dele me acertou como um impacto físico. Ele não sorria. Não piscava. Apenas me observava como se o resto do lugar tivesse deixado de existir. Meu coração deu um salto que me recusei a mostrar no rosto. Mantive a postura, ergui o queixo, continuei andando. Foi quando alguém entrou no meu campo de visão. Um homem se aproximou com segurança ensaiada: alto, cabelos grisalhos impecavelmente penteados, terno preto e postura que exalava riqueza e intenção. O tipo de homem que não olha — avalia. Ele sorriu para mim como quem escolhe algo caro em uma vitrine. Estendeu a mão. — Boa noite — disse com uma suavidade treinada, perigosa. Pegou minha mão e depositou um beijo leve. — Permita-me me apresentar: André Vasconcellos. O nome veio com a naturalidade de quem está acostumado a ser reconhecido. — Sou proprietário desta rede — completou, inclinando levemente a cabeça. — E confesso que sua chegada… elevou o padrão do evento. Uma cantada embalada em etiqueta. — Thalyane — respondi apenas, devolvendo o aperto de mão com a mesma elegância que eu usava para desarmar armas carregadas. Os olhos dele brilharam, interessado e perigoso demais. — Encantado — disse André, mantendo a mão próxima ao meu braço, sem tocar, mas insinuando intenção. — A honra de ter companhia seria minha… se você permitir. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, senti outro olhar queimando na minha pele. Virei o rosto. Alessandro continuava imóvel, mas a tensão nele era tão densa que parecia vibrar no ar, alcançando-me mesmo de longe. Os olhos verdes dele estavam cravados em nós dois — em mim, e principalmente em André. Uma linha invisível se formou entre nós três. André ainda segurava minha mão com firmeza, como se fosse natural que eu ficasse ali, diante dele. — Você é absolutamente… radiante. — Disse, o olhar percorrendo meu corpo sem disfarce. — E, pelo visto, não veio acompanhada. Eu sorri, mantendo o tom neutro. — Talvez não tenha vindo acompanhada… mas isso não significa que esteja sozinha. Ele arqueou a sobrancelha, curioso. — Então há alguém que deveria estar preocupado? Antes que eu respondesse, senti uma presença atrás de mim. O perfume amadeirado. — Ele deveria, sim. A voz dele veio baixa… e perto demais. ♟♟♟ Ponto de vista Alessandro Moretti Minha voz saiu baixa, firme, afiada o bastante para cortar o sorriso presunçoso do André pela metade. Caminhei até eles sem pressa — porque eu não precisava disso. A presença fazia o trabalho por mim. Quando parei ao lado dela, senti seu perfume primeiro… quente, doce, provocante. Depois o calor do corpo, tão perto que bastava inclinar a mão para tocá-la. E eu toquei. Passei o braço pela cintura fina de Thalyane como se aquele lugar pertencesse a mim. Ela era pequena, cheia de curvas, e ainda assim se encaixava no meu corpo com uma precisão que me tirava o ar. Como se tivesse sido moldada para caber ali. Olhei para André, sem sorrir. — Surpreso em te ver por aqui tão cedo — falei, a voz carregada de intenção. — Nós somos sócios agora, mas você nunca foi o tipo pontual. Ele deu um sorriso polido, desses que não chegam aos olhos. — Estava conhecendo novas… presenças interessantes da noite. Eu senti o olhar dele deslizar pelo corpo dela mais uma vez — ainda avaliador, ainda curioso, mas agora contido. Como se tivesse percebido que a “mercadoria” que ele estava analisando já tivesse dono. E eu fiz questão de deixar isso ainda mais claro. Apertei levemente a cintura de Thalyane, puxando-a para mais perto, até meu peito tocar as costas dela. — Thalyane está comigo. — Declarei, sem rodeios. — Pensei que isso estivesse óbvio. Notei quando os olhos de André se estreitaram por um breve segundo. Ele ainda olhava para ela como quem calcula o valor, potencial, perigo. Mas agora o olhar vinha com cautela. Ele sabia com quem estava lidando. E mesmo assim… não tirava os olhos. Bastardo! Eu senti Thalyane respirar mais fundo, sentindo meu toque, meu calor, minha reivindicação. E por um único instante — apenas um — desejei beijar a curva do seu pescoço, que aos meus olhos brilhava demais, ali mesmo, exposta, diante de todos. Mas controle era necessário. Pelo menos… por agora. 💫💫💫 Ponto de vista Thalyane Virelli “Está comigo? ” As palavras dele foram como uma marca invisível pressionada contra minha pele. Eu abri a boca para contestar e cortar aquele ar de posse, mas me lembrei de onde estávamos. Tudo ali era muito bonito e luxuoso para eu começar um escândalo com o homem mais arrogante desse continente. Eu era uma lady. E ladies não fazem cena. Mas isso não significava que eu ia engolir aquilo calada. Se ele achava que eu tinha vindo aqui para desfilar como uma das suas cadelinhas obedientes… estava prestes a descobrir o quanto eu sabia morder. André percebeu o clima pesado e o sorriso dele vacilou só um pouco antes de recuar, educado, mas não completamente domado. — Com licença, então. — Murmurou, inclinando a cabeça. Na saída, ainda teve a audácia de me lançar um último olhar avaliador… como se eu fosse um investimento promissor. Eu não desviei. Deixei que ele olhasse. Que ambos olhassem. Porque ali, bem no centro daquele jogo silencioso entre dois homens perigosos e confiantes demais, eu percebi algo que não deveria admitir nem para mim mesma: Eu estava gostando disso. Viciada nesse tipo de poder que não se toca, apenas se sente. Nessa tensão que mordia o ar. Nesse campo minado emocional que eu mesma ajudava a acender. E Alessandro… Ah, ele nem imaginava o tamanho da guerra que tinha acabado de começar. ♟♟♟♟ Ponto de vista de Alessandro Moretti — Thaly… — aproximei a boca do ouvido da pequena, deixando a voz deslizar baixa, mas carregada de intenção. — Chegar atrasada… vestida desse jeito… e ainda permitir que aquele homem encoste em você. Meu queixo roçou de leve o cabelo dela, aspirando o perfume que já começava a se misturar ao meu. — Você está brincando comigo. Ela virou o rosto na minha direção. Queixo erguido. Olhar direto. Linda de um jeito quase irritante e desafiadora como se precisasse provar, o tempo todo, que não se dobra. — Eu não devo satisfações. Nós não temos nada, lembra? Ah. Esse “nada”. Sempre dito com essa falsa leveza e como se o corpo dela não respondesse ao meu antes mesmo que eu tocasse. Mantive meus olhos nos dela. Nenhum de nós disposto a ceder primeiro. — Você insiste nessa história de que não temos nada… — murmurei, aproximando meu corpo do dela sem encostar completamente. Só o suficiente para que sentisse meu calor, minha presença, a tensão que crescia entre nós. — Mas toda vez que tenta me provocar… toda vez que acha que está conduzindo esse jogo… Deixei o polegar deslizar pela curva da cintura desenhada, lento, seguro, sentindo o arrepio imediato sob minha mão. — …eu só fico mais convicto de uma coisa. A boca dela tensionou. Eu vi. O ar ficou mais denso entre nós, pesado, quase palpável. Inclinei o rosto, deixando meu olhar descer até os lábios vermelhos chamativos antes de voltar aos olhos. — Você é minha, Thalyane. Não era grito. Não era ameaça. Era certeza. E o mais interessante… Era que uma parte dela sabia também. Ela podia repetir “não temos nada” quantas vezes quisesse. Podia erguer o queixo, fingir indiferença, provocar com essa autonomia ensaiada. Mas o corpo dela sempre entregava a verdade. Aproximando mais o rosto, deixei minha respiração roçar a boca dela. — Continua dizendo que não é nada… — sussurrei. — Mas você não olha pra mim como quem não sente. Minha mão permaneceu em sua cintura, firme, não para machucar — para lembrar. Se ela cedesse esta noite, não seria apenas mais um encontro. Seria um ponto sem retorno. E eu não tinha o menor interesse em voltar atrás.
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