CAPITULO 15 - Olhares que Queimam

1162 Words
Ponto de vista Thalyane Virelli Depois da intervenção de Alessandro, não houve mais palavras sobre o assunto. Ele me soltou, como se estivesse me devolvendo a liberdade. Mas nós dois sabíamos que era uma liberdade vigiada. Eu me misturei entre os convidados, sorrindo para alguns, conversando com outros. Senti os olhares masculinos sobre mim. Era impossível não notar. E, de longe, Alessandro também notava. Ele não se aproximava, mas seu olhar seguia cada passo meu como uma sombra, registrando cada gesto, cada risada minha, cada conversa que eu permitia. Em um dos intervalos, um garçom me ofereceu uma taça de champanhe. Aceitei, e quando levei a taça aos lábios, vi Alessandro conversando com duas mulheres — ambas deslumbrantes — e inclinando-se para ouvir uma delas. O sorriso que ele deu… Foi c***l e direcionado para mim. "Ah, então vamos jogar assim?" Comecei a circular pelo salão, ouvindo investidores se gabarem de viagens internacionais, empresários oferecendo cartões, convites e oportunidades demais. Eu não queria absolutamente nada com nenhum deles. Mas queria que Alessandro me visse. Queria que sentisse. Que entendesse que, assim como ele, eu também sabia ocupar o espaço e chamar atenção. O salão brilhava sob os lustres de cristal. O tilintar das taças se misturava à música suave, enquanto o aroma de champanhe e flores frescas preenchia o ar. O calor do álcool me deixando mais solta, mais ousada, imersa naquele luxo absoluto. Cruzei o olhar com Alessandro do outro lado. Ele falava com dois homens elegantes agora, mas não tirava os olhos de mim. Passei a língua pelos lábios de propósito e vi o maxilar dele contrair na mesma hora. Um dos garçons me ofereceu outra taça de champanhe e, dessa vez, eu não apenas aceitei — bebi lentamente, encarando Alessandro o tempo todo. Ele deu um passo à frente, como se fosse atravessar o salão. Mas parou. Alessandro estava se contendo. Um dos convidados mais jovens se aproximou. Alto, cabelo loiro impecável, olhos azuis penetrantes, barba feita, corpo musculoso que destoava da aparência juvenil. Havia uma confiança natural no modo como se movia, e o olhar que lançou sobre mim fez meu coração acelerar, mesmo que por fração de segundo. — Uma preciosidade dessas sozinha é um crime — comentou, tocando levemente meu braço. Ele se apresentou: — Sou Jonas Hunter. — Thalyane Virelli— respondi, com um sorriso simpático, deixando que conduzissem meus passos até a pista de dança. Inclinei a cabeça, divertida, observando como ele mantinha a postura sem perder a delicadeza do gesto: — Então eu estava cometendo um delito? — Perguntei, provocativa. Ele se aproximou ainda mais, baixando a voz só para nós: — Dos graves. Ainda bem que cheguei a tempo. — E o que te faz achar que eu precisava ser salva? — Nada — ele sorriu. — Mas gosto da ideia de ter uma companhia inteligente. — Inteligente? — Arqueei a sobrancelha. — Ou conveniente? — As duas coisas podem coexistir — disse ele. — Você estuda o quê? — Psicologia — respondi, mantendo o olhar firme no dele. — E você? Enquanto rodopiava pela pista, senti o calor do olhar de Alessandro queimando minhas costas. Eu sabia que, a qualquer momento, ele poderia cruzar o salão, segurar minha cintura e me tirar dali — e ninguém teria coragem de impedir. — Administração. Meu pai acha que eu vou herdar o império dele. — E você acha? Jonas deu de ombros, sorrindo de lado. — Acho que ainda estou decidindo quem quero ser. Eu sorri. — Isso costuma ser mais interessante do que quem esperam que a gente seja. Quando a música terminou Jonas se aproximou mais, mas não foi para ultrapassar limites e sim inalar meu aroma, na qual ele elogiou com delicadeza, afastou uma mecha do meu cabelo, como se pedisse permissão sem usar palavras. — Você tem um perfume… diferente — comentou, inclinando-se o suficiente para inalá-lo novamente, sem tocar mais do que o necessário. — Não é comum. Sorri de leve. — Costumo ouvir isso. — Não é só o cheiro — Jonas acrescentou, a voz baixa. — É a intenção. Parece que você sabe exatamente o efeito que causa. — Ou talvez eu só não finja que não sei — respondi, sustentando o olhar. Ele sorriu, satisfeito com a resposta, mantendo a distância precisa entre curiosidade e respeito. — Psicologia explica isso? — Perguntou. — Explica o comportamento — corrigi. — Não justifica o interesse. O canto da boca dele se ergueu. — Então vou ficar só no interesse… por enquanto. Jonas inclinou a cabeça em direção ao bar, como se a ideia tivesse acabado de surgir. — Posso buscar outra bebida para você? — Perguntou. — A sua parece ter evaporado. Olhei rapidamente para o copo quase vazio em minha mão e sorri. — Pode ser. — Prefere repetir ou arriscar algo novo? — Me surpreenda — respondi, entregando o copo a ele. — Gosto disso — disse Jonas, já se afastando. — Volto já. Observei enquanto ele se misturava à movimentação do salão, consciente de duas coisas ao mesmo tempo: da liberdade leve daquela escolha… e do efeito exato que aquela espera teria sobre Alessandro. ♟♟♟ Ponto de vista: Alessandro Moretti Ela sabe exatamente o que está fazendo. E essa consciência me incendeia. Thalyane não é tola apesar do rostinho de menina inocente. Ela sabe onde põe a mão, o olhar e como provocar. Eu podia comprar aquela empresa dos Hunter inteira, afastar metade dos convidados com um estalar de dedos, virar a festa de cabeça para baixo só para ver o queixo dela cair. Mas nada disso importava. Agora, tudo o que eu queria era atravessar o salão, agarrar aqueles cabelos com as minhas mãos e deixar claro para ela e para quem estivesse olhando, que aquela mulher tinha dono. Mas eu não ia dar a ela o prazer de me ver perder o controle. Não aqui. Não na frente de todos. E principalmente… não depois de ela ter achado que podia me cutucar impunemente. Então eu fiz o que um homem como eu faz: joguei o jogo melhor que ela. Chamei uma das modelos da campanha da minha empresa. Alta, linda, óbvia. Ela sorriu assim que me viu deixando visível seus dentes brancos e perfeitamente alinhados e se pendurou no meu braço com a facilidade de quem já sabe que eu sou inalcançável. Mas que vai se dedicar a fazer o que eu mandar. E então, fiz questão de passar perto de Thalyane. Devagar, sentindo cada centímetro do seu olhar percorrer minha pele. Vi o cenho franzido, o leve bico se formando em seus lábios delicados — mesmo tentando disfarçar, não conseguiu me enganar. Aquele incômodo ardia no fundo dos seus olhos verdes, claro como fogo contido. Queria que ela visse. Que entendesse: eu posso ter qualquer mulher que eu desejar. E Thalyane deveria se sentir especial por eu ter escolhido dedicar minha atenção a alguém como ela, e não a qualquer outra.
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