12. Sarah

880 Words
O trajeto até minha casa foi silencioso. Lara dirigia devagar, lançando olhares de canto pra mim. — Cê sabe que eu posso falar com o Caique, né? — ela soltou de repente. — Se o seu pai fizer qualquer coisa, qualquer merda... — Não. — Cortei rápido. — Não quero isso. — Ele ia resolver em cinco minutos, Sarah. — Eu sei. E é por isso que não quero. Eu só preciso... ir. Antes que ele acorde e comece a gritar. Ela apertou o volante com força. — Eu odeio que você tenha que viver assim. — Eu sei. Quando chegamos à minha rua, o clima mudou. Casas simples, fachadas descascando, janelas fechadas. Nada da luz, vida e barulho que existiam na casa da Lara. Era outro mundo e eu pertencia a esse. — Me manda mensagem — Lara pediu. — Eu quero saber se deu tudo certo. — Mando sim. Ela segurou minha mão antes que eu abrisse a porta. — E... volta logo. Tá? — Volto. Desci do carro devagar. A rua estava silenciosa, o vento leve, mas meu corpo congelado. Cada passo parecia levar embora aquele respiro de felicidade que eu tinha sentido na casa deles. Quando cheguei na porta, minha mão tremia. Girei a chave devagar, tomando cuidado pra não fazer barulho. Como sempre. E entrei. Como quem volta pra uma versão de si mesma que não tem escolha. A porta m*l tinha fechado atrás de mim quando ouvi o barulho da televisão desligando. Aquela pausa seca no som da casa sempre anunciava problema. Meu estômago virou. — Onde você tava? — a voz do meu pai veio da sala, rouca, irritada, carregada de álcool mesmo sendo cedo. Engoli em seco, tentei respirar fundo e respondi baixo: — Dormi na casa da Lara. Avisei pra mãe ontem... Ele levantou do sofá com um movimento brusco, tropeçando no próprio chinelo. O olhar dele era o mesmo de sempre quando bebia: vermelho, pesado, procurando motivo pra brigar. — Casa da Lara, é? — ele repetiu com deboche. — É casa de macho, isso sim. — Não é isso, pai... — CALA A BOCA! — ele gritou, tão alto que meu corpo inteiro tremeu. Minha mãe apareceu no corredor, assustada, ainda com o avental da cozinha. — Ela tava só com a amiga, deixa a menina em paz... Ele avançou. Nem consegui reagir. O tapa veio rápido, seco, ardido. O corpo virou pro lado com a força, e um gosto metálico subiu na boca. A sala pareceu girar. — Sem vergonha! Vagabunda! — ele continuou, cuspindo as palavras. — Passando a noite na rua como se fosse gente grande. Tava é com macho, né? Fala! Levei a mão ao rosto ardendo, mas não respondi. Responder era pior. — Não tava com ninguém... — consegui sussurrar. — MENTIROSA! — Ele ergueu a mão de novo. Minha mãe entrou na frente. — Chega, bem! Ela não fez nada! — Sai da frente, mulher! Ela tentou segurar o braço dele e foi aí que ele acertou nela também. Um tapa tão forte que ela caiu de lado no chão, com um grito curto. — Mãe! — me joguei pra ajudar, mas ele puxou meu braço com força, me fazendo bater no armário. — Eu não criei filha pra virar p**a! — ele cuspiu, o rosto tão perto que eu senti o cheiro forte de álcool. — Eu não... — a voz falhou. — Eu tava com a Lara... Foi a pior resposta. Ele me empurrou contra a parede. — Lara tá é cheia de macho naquela casa! Você acha que eu sou i****a? Hein? Você acha que eu não sei? — Para, por favor... — minha mãe pediu, ainda no chão. — Ela é só uma menina... Ele a ignorou. Segurou meu queixo com força, tão forte que doeu. — Se eu descobrir que você tava dando pra alguém, eu juro que... — Pai, por favor... — CALA A BOCA! — e me empurrou de novo. Meu corpo bateu na quina da mesa. A dor foi imediata, mas eu não chorei. Não na frente dele. Nunca na frente dele. Minha mãe tentou levantar e recebeu outro empurrão, menor, mas suficiente pra fazê-la cair de joelhos. — Para... por favor... — ela repetia, a voz fraca. Ele finalmente parou quando percebeu que eu não reagia. Que eu estava quieta. Imóvel. Olhando pro nada. — Vai pro quarto. E não sai. Hoje você não pisa lá fora. Apontou pra porta como se fosse uma sentença. Eu não respondi só fui. Fui para o meu quarto devagar, com o corpo doendo e o peito apertado, como se algo estivesse sendo espremido por dentro. Cada passo era um lembrete: eu não tinha saída. Não ali. Fechei a porta do quarto, encostei a testa nela e inspirei fundo. O cheiro do sabonete do banho de ontem ainda estava na camiseta que Lara me emprestou. Um cheiro que não combinava com nada naquela casa. E foi aí, naquele silêncio pesado, que a mente me levou de volta a uma imagem específica: Caique sentado na varanda, sozinho, tragando devagar, com o olhar longe. Uma imagem que eu não queria lembrar. Mas que apareceu sem pedir. E, sem perceber que eu desejei estar em outro lugar. Qualquer lugar. Menos ali.
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