O trajeto até minha casa foi silencioso. Lara dirigia devagar, lançando olhares de canto pra mim.
— Cê sabe que eu posso falar com o Caique, né? — ela soltou de repente. — Se o seu pai fizer qualquer coisa, qualquer merda...
— Não. — Cortei rápido. — Não quero isso.
— Ele ia resolver em cinco minutos, Sarah.
— Eu sei. E é por isso que não quero. Eu só preciso... ir. Antes que ele acorde e comece a gritar.
Ela apertou o volante com força.
— Eu odeio que você tenha que viver assim.
— Eu sei.
Quando chegamos à minha rua, o clima mudou. Casas simples, fachadas descascando, janelas fechadas. Nada da luz, vida e barulho que existiam na casa da Lara.
Era outro mundo e eu pertencia a esse.
— Me manda mensagem — Lara pediu. — Eu quero saber se deu tudo certo.
— Mando sim.
Ela segurou minha mão antes que eu abrisse a porta.
— E... volta logo. Tá?
— Volto.
Desci do carro devagar. A rua estava silenciosa, o vento leve, mas meu corpo congelado. Cada passo parecia levar embora aquele respiro de felicidade que eu tinha sentido na casa deles.
Quando cheguei na porta, minha mão tremia. Girei a chave devagar, tomando cuidado pra não fazer barulho. Como sempre. E entrei. Como quem volta pra uma versão de si mesma que não tem escolha.
A porta m*l tinha fechado atrás de mim quando ouvi o barulho da televisão desligando. Aquela pausa seca no som da casa sempre anunciava problema.
Meu estômago virou.
— Onde você tava? — a voz do meu pai veio da sala, rouca, irritada, carregada de álcool mesmo sendo cedo.
Engoli em seco, tentei respirar fundo e respondi baixo:
— Dormi na casa da Lara. Avisei pra mãe ontem...
Ele levantou do sofá com um movimento brusco, tropeçando no próprio chinelo. O olhar dele era o mesmo de sempre quando bebia: vermelho, pesado, procurando motivo pra brigar.
— Casa da Lara, é? — ele repetiu com deboche. — É casa de macho, isso sim.
— Não é isso, pai...
— CALA A BOCA! — ele gritou, tão alto que meu corpo inteiro tremeu.
Minha mãe apareceu no corredor, assustada, ainda com o avental da cozinha.
— Ela tava só com a amiga, deixa a menina em paz...
Ele avançou. Nem consegui reagir.
O tapa veio rápido, seco, ardido. O corpo virou pro lado com a força, e um gosto metálico subiu na boca. A sala pareceu girar.
— Sem vergonha! Vagabunda! — ele continuou, cuspindo as palavras. — Passando a noite na rua como se fosse gente grande. Tava é com macho, né? Fala!
Levei a mão ao rosto ardendo, mas não respondi. Responder era pior.
— Não tava com ninguém... — consegui sussurrar.
— MENTIROSA! — Ele ergueu a mão de novo.
Minha mãe entrou na frente.
— Chega, bem! Ela não fez nada!
— Sai da frente, mulher!
Ela tentou segurar o braço dele e foi aí que ele acertou nela também. Um tapa tão forte que ela caiu de lado no chão, com um grito curto.
— Mãe! — me joguei pra ajudar, mas ele puxou meu braço com força, me fazendo bater no armário.
— Eu não criei filha pra virar p**a! — ele cuspiu, o rosto tão perto que eu senti o cheiro forte de álcool.
— Eu não... — a voz falhou. — Eu tava com a Lara...
Foi a pior resposta. Ele me empurrou contra a parede.
— Lara tá é cheia de macho naquela casa! Você acha que eu sou i****a? Hein? Você acha que eu não sei?
— Para, por favor... — minha mãe pediu, ainda no chão. — Ela é só uma menina...
Ele a ignorou.
Segurou meu queixo com força, tão forte que doeu.
— Se eu descobrir que você tava dando pra alguém, eu juro que...
— Pai, por favor...
— CALA A BOCA! — e me empurrou de novo.
Meu corpo bateu na quina da mesa. A dor foi imediata, mas eu não chorei. Não na frente dele. Nunca na frente dele.
Minha mãe tentou levantar e recebeu outro empurrão, menor, mas suficiente pra fazê-la cair de joelhos.
— Para... por favor... — ela repetia, a voz fraca.
Ele finalmente parou quando percebeu que eu não reagia. Que eu estava quieta. Imóvel. Olhando pro nada.
— Vai pro quarto. E não sai. Hoje você não pisa lá fora.
Apontou pra porta como se fosse uma sentença. Eu não respondi só fui.
Fui para o meu quarto devagar, com o corpo doendo e o peito apertado, como se algo estivesse sendo espremido por dentro. Cada passo era um lembrete: eu não tinha saída. Não ali.
Fechei a porta do quarto, encostei a testa nela e inspirei fundo.
O cheiro do sabonete do banho de ontem ainda estava na camiseta que Lara me emprestou. Um cheiro que não combinava com nada naquela casa.
E foi aí, naquele silêncio pesado, que a mente me levou de volta a uma imagem específica: Caique sentado na varanda, sozinho, tragando devagar, com o olhar longe.
Uma imagem que eu não queria lembrar. Mas que apareceu sem pedir. E, sem perceber que eu desejei estar em outro lugar.
Qualquer lugar. Menos ali.