Cap 18

1004 Words
Maria narrando Sou Maria. Tenho 47 anos, e uma vida inteira carregada nas costas. Sou mãe de seis: Laura, Rodrigo, Paula, Carlos, Gustavo e Marciel. Nem todos nasceram de mim… mas todos saíram do meu peito do mesmo jeito. Aqui ninguém passa fome, ninguém anda sozinho. Foi assim que eu criei. Laura e Marciel foram os que mais ficaram nos meus braços. Fui eu que acordei de madrugada, que fiz mingau ralo virar refeição, que enxuguei lágrima escondida. O que ninguém sabe — e nem ela mesma — é que Laura é filha de criação. Nunca contei. Não por mentira… mas por proteção. Ela sempre foi minha. Sempre vai ser. Laura é diferente. Sempre foi. Doce, educada, respeitosa demais pra esse mundo bruto onde a gente vive. Enquanto o morro endurece as pessoas, ela continuou leve. E isso me assusta. Ultimamente, eu venho percebendo coisas. Coisas que mãe sente antes de todo mundo. O olhar do Vasco. O jeito como ele fica quando ela passa. Não é olhar de homem qualquer… é olhar de quem quer, de quem deseja, mas também de quem luta contra isso. Vasco é o dono do morro. Homem temido, respeitado, perigoso. Aqui dentro ninguém levanta a voz pra ele. E é justamente por isso que meu coração aperta. Já ouvi cochichos. Comentário baixo na feira. Sussurro na escada. — “O chefe tá de olho na filha da dona Maria.” — “Dizem que ele anda diferente por causa dela.” Eu finjo que não escuto. Mas escuto tudo. Observo minha filha chegando mais quieta, o olhar perdido, o choro preso na garganta. Vejo quando ela sobe pro quarto sem fome. Quando se assusta fácil demais. Quando olha pela janela como quem espera… ou teme. Eu sei que algo aconteceu. Talvez não tudo. Mas sei que minha menina perdeu um pedaço da inocência dela. E quando vejo Vasco rondando, aparecendo demais, eu sinto medo. Não dele machucar ela de propósito… mas do mundo dele engolir a minha filha. Porque amor no morro nunca vem sozinho. Vem com perigo. Vem com escolha que não tem volta. Vem com dor. Se Vasco gosta da Laura — e eu sei que gosta — isso pode ser tanto proteção quanto destruição. E eu, como mãe, fico no meio disso tudo. Sem poder falar. Sem poder contar a verdade. Sem saber se devo afastar… ou vigiar de perto. À noite, quando a casa silencia, eu rezo. Peço a Deus que cuide da minha filha. Que se esse homem entrar na vida dela, que seja pra proteger, não pra ferir. E que, se um dia a verdade sobre quem ela é tiver que vir à tona… que não seja tarde demais. Porque no fundo do meu peito, o maior medo não é o Vasco. É o amor acontecer onde a violência manda. Chamei a Laura no fim da tarde. A casa tava quieta, só o barulho distante do morro respirando lá fora. Ela veio devagar, como quem já sabe que a conversa não vai ser leve. — Senta aqui, minha filha. Ela sentou na ponta da cadeira, mãos juntas no colo. Olhos baixos. Esse jeito dela diz mais do que qualquer palavra. Respirei fundo antes de falar. Mãe sente… mas também precisa ter coragem. — Laura… eu tô vendo. Ela levantou o olhar rápido. — Vendo o quê, mãe? — O que tá acontecendo entre você e o Vasco. O silêncio caiu pesado. Ela engoliu seco, os olhos encheram de água na hora. — Mãe, eu… — Não precisa se explicar ainda. — interrompi, com a voz firme, mas sem dureza. — Primeiro eu quero te ouvir. Ela respirou fundo, como se o peito doesse. — Eu não planejei sentir nada. — disse baixo. — Eu tentei ignorar. Mas ele… ele me protegeu quando eu mais precisei. Ele me olhou como ninguém nunca olhou. Aquilo doeu em mim. Porque eu sei o peso que isso tem. — Você gosta dele? — perguntei direto. Ela demorou, mas respondeu. — Gosto. Só essa palavra já foi um soco no meu peito. — Laura, minha filha… — passei a mão no rosto, tentando manter a calma. — Esse homem não é pra você. Ela balançou a cabeça, chorando. — A senhora não conhece ele como eu conheço. — Eu conheço o mundo que ele vive. — respondi. — E é isso que importa. Levantei da cadeira e fiquei de frente pra ela. — Vasco manda no morro. Onde ele pisa, tem sangue, tem medo, tem inimigo. Você acha mesmo que amor sobrevive no meio disso? — Ele disse que pode mudar… — ela sussurrou. Meu coração apertou. — Homem nenhum muda por amor quando o poder fala mais alto. — falei com firmeza. — E mesmo que mudasse… o passado dele não muda. Segurei o rosto dela com as duas mãos. — Você é nova, Laura. Tem estudo, tem futuro, tem vida fora daqui. Não aceita pouco, não aceita migalha de carinho misturada com perigo. Ela chorava silenciosa, os ombros tremendo. — Eu não quero te ver chorando por homem armado. — continuei. — Nem enterrando sonho por causa de morro. Ela puxou minhas mãos. — Mãe, dói. — Eu sei. — respondi, sentindo minha própria voz falhar. — Mas dor agora pode ser livramento depois. Me afastei um pouco, respirando fundo. — Enquanto você morar nessa casa, esse relacionamento não vai pra frente. Ela arregalou os olhos. — A senhora não pode mandar no meu coração! — Não mando. — respondi. — Mas eu mando no que entra e no que não entra na minha família. O silêncio voltou. Pesado. Definitivo. Ela levantou devagar, sem me olhar. — Eu só queria que a senhora entendesse… — Eu entendo mais do que você imagina. — respondi, segurando o choro. — E é justamente por isso que eu não aceito. Ela subiu pro quarto. Eu fiquei ali, sozinha. Com o coração em pedaços, fazendo o papel mais difícil de uma mãe: proibir não por raiva, mas por amor.
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