Vasco narrando
Saí dali com o coração descompassado.
A moto desceu a viela, mas minha cabeça ficou parada na frente da casa dela.
No portão.
No jeito que ela me olhou antes de entrar.
Eu já enfrentei tiroteio, já perdi gente, já mandei e desmande aqui dentro…
Mas nada disso chega perto do que eu senti quando deixei a Laura em casa.
O beijo ainda tava na minha boca.
Não era desejo só.
Era cuidado.
Era medo misturado com vontade de proteger.
Desci mais um pouco, parei a moto, desliguei e fiquei ali, sentado, olhando pro nada.
Respirei fundo várias vezes, tentando organizar os pensamentos.
— Tu tá fudido, Vasco… — murmurei pra mim mesmo.
Porque não era só atração.
Não era só querer.
Era aquela sensação perigosa de se importar demais.
A Laura mexe comigo de um jeito que ninguém nunca mexeu.
Ela não sabe… mas quando ela me olha daquele jeito calmo, sem medo, parece que ela enxerga algo em mim que nem eu consigo mais ver.
E isso assusta.
Porque quem eu sou não combina com a vida que ela merece.
Meu nome pesa.
Meu caminho é torto.
E o futuro que eu posso oferecer é cheio de risco.
Mas mesmo assim…
quando ela encostou em mim, quando pediu pra eu ir com cuidado, algo dentro do meu peito amoleceu.
Eu não queria ser só mais um erro na vida dela.
Não queria ser a história que ela vai contar com dor depois.
Subi na moto de novo e segui pro QG, a noite já caindo, o morro acendendo luz por luz.
Os vapores me cumprimentaram, mas eu só acenei com a cabeça.
Por fora, tudo normal.
Por dentro, um caos.
Abri o caderno, tentei me concentrar no corre, nas contas, nos problemas…
Mas toda vez que fechava os olhos, vinha a imagem dela sorrindo de leve.
Eu sei que ainda vou ter que decidir muita coisa.
Vou ter que escolher entre o que eu sou…
e o que eu tô começando a sentir.
E pela primeira vez na vida, eu não sei qual dos dois vai ganhar.
Só sei de uma coisa:
se eu continuar perto da Laura, não vai ter mais volta.
Cheguei no QG com a cabeça a milhão, o peito ainda apertado por causa da Laura.
Mas no morro não tem espaço pra sentimento quando o problema bate na porta.
E naquela noite, bateu forte.
Um dos vapores chegou apressado, o rosto tenso.
— Chefe… deu r**m.
— Fala. — respondi seco.
— Roubaram uma casa lá na Baixa. Dizem que foi gente de fora… mas teve ajuda de alguém daqui.
Aquilo me subiu o sangue na hora.
Aqui dentro tem regra.
Tem ordem.
E uma delas é clara: morador não se mexe.
Levantei da cadeira com tanta força que ela arrastou no chão.
— Chamou quem tava de plantão naquela área? — perguntei, já caminhando.
— Tá todo mundo lá fora esperando.
Saí do QG com passos largos.
A revolta já tava tomando conta.
Não é só pelo roubo — é pela quebra de confiança.
Quando alguém vacila aqui dentro, coloca todo mundo em risco.
Cheguei na roda. Uns quatro rapazes, cabeça baixa.
Olhei um por um.
Não precisei gritar.
— Quem foi? — minha voz saiu baixa, dura.
Silêncio.
Esse silêncio me irrita mais do que resposta errada.
— Eu perguntei QUEM FOI.
Um deles levantou o rosto, tremendo.
— Chefe… foi ideia do Juca. Ele trouxe dois caras do morro vizinho. Disse que era fácil…
Fechei os olhos por um segundo.
Respirei fundo pra não perder a linha.
— Fácil pra quem? — perguntei. — Pra vocês morrerem depois? Pra polícia subir aqui amanhã?
Olhei em volta, garantindo que todo mundo escutasse.
— Aqui ninguém rouba morador. Ninguém mexe com trabalhador. Quem faz isso não tá só roubando uma casa — tá roubando a paz do morro.
A raiva queimava por dentro.
Talvez porque eu já tava revoltado antes mesmo de saber do roubo.
Talvez porque eu tava tentando segurar coisa demais dentro de mim.
— Quero o que foi levado de volta. Tudo. — continuei.
— E o Juca não pisa mais aqui. Se aparecer, vocês sabem o que fazer.
Os meninos assentiram rápido.
Virei as costas e saí andando, acendendo um cigarro com a mão tremendo de raiva.
Não era só o roubo.
Era o caos tentando entrar no lugar que eu luto pra manter de pé.
Encostei num muro, puxei a fumaça fundo.
Na minha cabeça, a imagem da Laura voltou.
O sorriso.
O jeito doce.
A paz que ela trazia só de existir.
E foi aí que a revolta apertou mais ainda.
Porque enquanto eu tento ser ordem nesse inferno,
eu sei que essa vida que eu levo
é exatamente o que pode tirar ela de mim.
Joguei o cigarro no chão e pisei com força.
— Não hoje. — murmurei. — Hoje não vai dar errado.
Mas no fundo, eu sabia:
quanto mais eu tento controlar tudo ao redor,
menos controle eu tenho do que tá acontecendo dentro de mim.