Eu cresci em uma casa antiga, cercada por livros de magia e cheiro de velas. Meus pais, dois bruxos poderosos, me ensinavam a arte da magia desde que eu era pequena. Eu era uma criança curiosa, sempre querendo saber mais, sempre querendo aprender.
Liam, meu pai, era um bruxo de fogo, com olhos verdes e cabelos ruivos. Ele me ensinou a controlar as chamas, a fazer dançar as velas e a criar fogos de artifício. Minha mãe, Lyra, era uma bruxa de água, com olhos azuis e cabelos pretos. Ela me ensinou a controlar as ondas, a criar fontes e a curar as feridas.
Eu era uma criança feliz, cercada por amor e magia. Mas havia algo em mim que era diferente. Eu sentia uma conexão com a natureza, uma conexão que meus pais não entendiam. Eu podia sentir o coração da terra, o pulsar das estrelas e o sussurro do vento.
Meus pais me chamavam de "Luna", a lua, por causa da minha pele pálida e meus cabelos pretos. Eu gostava do nome, porque me fazia sentir especial.
Eu tinha três anos quando comecei a ter visões. Visões de um lobo, um lobo grande e forte, com olhos amarelos. Ele me olhava com carinho, e eu sentia uma sensação de segurança.
Mas as visões começaram a mudar. O lobo começou a uivar de dor, e eu sentia uma sensação de desespero. Eu não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que algo estava errado.
E então, um dia, tudo mudou. Meus pais estavam mortos, e eu estava sozinha. O bruxo sombrio, com olhos vermelhos, estava lá, e eu sabia que ele era o responsável.
Eu me lembro do cheiro de fumo e de sangue, do som de gritos e do sentimento de terror. E então, eu me lembro de nada mais...
Eu... eu não me lembro de muito. Apenas fragmentos, imagens distorcidas e gritos. O bruxo sombrio, com olhos vermelhos, me pegou e me levou para um lugar escuro e frio. Eu tinha apenas três anos, e não sabia o que estava acontecendo.
Ele me torturou, tentando me quebrar, tentando me fazer revelar segredos que eu não sabia que tinha. Eu me lembro do cheiro de sangue e de suor, do som de chicotes e de gritos. Eu me lembro de sentir dor, uma dor intensa e constante.
Mas então, um dia, tudo mudou. Um senhor, um bruxo poderoso, apareceu. Ele me salvou, me tirando das mãos do bruxo sombrio. Eu estava fraca, quase morta, mas ele me levou para um lugar seguro.
Ele me deixou em uma escola interna para crianças bruxas órfãs, um lugar onde eu poderia aprender a controlar minha magia e a me proteger. A escola era um lugar frio e austero, mas era um refúgio, um lugar onde eu poderia me esconder do mundo.
O senhor, o bruxo que me salvou, me olhou com olhos tristes e disse: _Você é especial, Luna. Não deixe que eles a quebrem._ E então, ele se foi.
Eu nunca mais o vi, mas nunca esqueci suas palavras. Eu as usei para me manter viva, para me manter forte. E eu jurei que um dia, eu seria forte o suficiente para me vingar, para encontrar o bruxo sombrio e fazê-lo pagar por tudo o que ele fez.
Eu estava deitada na cama, no dormitório da escola, cercada pelas minhas duas melhores amigas, Ana e Patrícia. Elas eram as únicas que sabiam o que eu havia passado, as únicas que me entendiam.
Ana era uma bruxa de terra, com olhos verdes e cabelos castanhos. Ela era forte e determinada, sempre pronta a lutar. Patrícia era uma bruxa de ar, com olhos azuis e cabelos loiros. Ela era rápida e astuta, sempre pronta a voar.
Nós três éramos inseparáveis, e eu sabia que eu podia contar com elas para qualquer coisa.
Mas naquela noite, eu tive um sonho. Um sonho com o lobo. O lobo que eu havia visto quando era pequena. Ele estava correndo, correndo pela floresta, com os olhos amarelos brilhando na escuridão.
Eu o segui, sentindo uma conexão com ele, uma conexão que eu não entendia. Ele me levou a uma clareira, e lá, eu o vi. Ele se virou para mim, e nossos olhos se encontraram.
Eu senti um choque, um arrepio na espinha. Eu não sabia quem era ele, mas eu sabia que eu o conhecia. Eu sabia que ele era importante.
E então, o sonho mudou. O lobo começou a uivar, um uivo de dor e desespero. Eu tentei correr para ele, mas meus pés estavam paralisados. Ele me olhava, com olhos tristes, e eu sabia que eu o havia decepcionado.
Eu acordei, ofegante, com o coração batendo forte. Ana e Patrícia estavam me olhando, preocupadas.
-O que foi, Luna?- Ana perguntou, sentando-se na cama.
Eu balançei a cabeça, tentando entender o que havia acontecido.
_Eu tive um sonho", eu disse. _Com um lobo."
Patrícia franziu a testa.
_O lobo que você viu quando era pequena?"
Eu acenei com a cabeça.
_Sim. Ele estava correndo, e eu o segui. Ele me levou a uma clareira, e... e eu o vi.
Ana e Patrícia trocaram um olhar.
-O que você viu? _Ana perguntou.
Eu balançei a cabeça.
_Eu não sei. Eu não entendi. Mas eu senti... eu senti que ele é importante.
Eu me levantei da cama, tentando afastar o sonho da minha mente. Ana e Patrícia estavam dormindo, e eu não queria acordá-las. Eu precisava de um momento para mim mesma.
Fui ao banheiro, iluminado apenas pelas velas que Patrícia havia acendido mais cedo. A luz suave das velas dançava nas paredes, criando sombras estranhas.
Eu me aproximei do espelho, sentindo um arrepio na espinha. Eu sabia o que eu ia ver. As cicatrizes.
Eu levantei a camisa, e as velas iluminaram as marcas em minhas costas. Cicatrizes de queimaduras, de cortes, de tortura. Eu senti a dor novamente, a dor que eu havia sentido quando era pequena.
Eu me lembrei do bruxo sombrio, dos seus olhos vermelhos, da sua risada. Eu me lembrei da dor, da sensação de impotência.
Eu fechei os olhos, tentando conter as lágrimas. Eu não queria chorar. Eu não queria mostrar fraqueza.
Mas a dor era demais. Eu senti as lágrimas escorrendo pelas minhas bochechas, quentes e salgadas. Eu me senti pequena, vulnerável, como se eu tivesse três anos novamente.
Eu me olhei no espelho, e por um momento, eu não me reconheci. Eu vi uma criança assustada, uma criança que havia sido quebrada.
Mas então, eu me lembrei das palavras do senhor que me salvou.
_Você é especial, Luna. Não deixe que eles a quebrem.
_ Eu não vou deixar ele me quebrar.
Eu respirei fundo, e a dor começou a diminuir. Eu me endireitei, e olhei para as cicatrizes no espelho. Elas eram parte de mim, parte da minha história.
Eu não era mais aquela criança assustada. Eu era Luna, uma bruxa de dez anos, com poder e determinação. E eu não ia deixar que ninguém mais me quebrasse.