Capítulo 5
A palavra é de prata, o silêncio é de ouro
Juliana
O dia passou voando. Logo eu teria que ir embora para casa, enfrentar o metrô lotado e o calor, estava até com preguiça de sair. Os saltos já tinham dado bolhas nos meus pés, eu estava um caco. De repente a porta da minha sala abriu. Era o turco.
— Já vai?
Ele parou na porta me perguntando.
— Já, daqui há pouco.
Ele adentrou a sala e eu ergui o olhar para observar seu comportamento estranho.
— Eu queria lhe agradecer por ter feito o que podia com o velho. Não pude te agradecer até agora.
Ergui o queixo depois do olhar e cruzei os braços.
— É uma pena que vão ter que construir mansões ao redor de uma pobre casa, mas é um direito dele.
— Sim, mas meu escritório falha como conciliadores se ele continuar sem vender e eu tiver que dar a péssima notícia. Mas notei uma coisa...
— Sim?
Estava curiosa de porque ele continuava com tanta atenção comigo.
— Você conseguiu tirar dele o motivo, até então ninguém sabia.
— Talvez não tenham ouvido o que ele tinha para dizer.
— Será que você consegue fazê-lo vender?
Ele fez umas expressões fofas de quem queria favores. O pior é que era extremamente sensual mesmo com cara de cachorro perdido.
— Eu não sei...
— Conseguiu pegar o documento para traduzir? — Colocou as mãos na cintura, de maneira impaciente.
— Sim, mas é extenso, vou precisar de uns dias.
— Certo, mas você tem cinco dias, espero que dê o seu melhor, preciso disso. — Ele olhou em volta — Pensei de ... — Ele ficou me encarando com a mesma cara de cachorro que caiu da mudança e depois se afastou — Esquece... Talvez você consiga fazer aquele velho vender a casa. Vamos tentar?
Minhas pernas debaixo da mesa já estavam balançando-se, impaciente que eu estava. O que ele queria dizer que não dizia de uma vez? Enfim, ele deslizou a mão pela porta e saiu me lançando um sorriso vacilante. Serkan fechou a porta atrás de si. Parei e fiquei pensando no que havia acontecido. Ele foi a minha sala somente para me perguntar se eu já iria embora? Ou que eu poderia convencer o velho a vender a casa? Não me pareceu nenhuma das duas coisas, mas eu não podia ficar ali tentando adivinhar, eu precisava ir embora para casa. Recolhi minhas coisas e fui. Ao chegar a rua, ouvi um carro parar ao meu lado. Virei o olhar, ajeitando meus cabelos. Era ele.
— Juliana, quer tomar um chá comigo?
— Chá? Eu não tomo chá. — Respondi.
— Humm, o que se toma nesse país?
Pensei bem e talvez eu me arrependesse.
— Açaí.
— É gelado?
Ele tinha um charme inegável, até mesmo quando tinha dúvidas, até mesmo quando estava contrariado. Eu estava parada em frente a porta do carro e fiquei olhando para ele. Aquilo não me parecia uma boa ideia, mas seria mais uma na lista de péssimas ideias que eu costumava ter.
— Quer experimentar?
— Sim, claro. Entra.
Levei a mão a maçaneta da porta e ouvi o trinco se abrir. Ao entrar, ele começou a falar enquanto eu puxava o cinto de segurança.
— Assim, você poderá me dizer como pretende convencer o homem.
Soltei o cinto de segurança com calma, fechando os olhos. Seria pedir demais que um homem fosse agradável uma vez na vida e não estivesse pensando em negócios até na hora de tomar um açaí? Naquele momento eu compreendi seu interesse no chá, ele apenas queria que eu conseguisse algo importante para seu trabalho. Ajeitei-me no banco e pigarreei.
— Claro, convencer o homem...
Ele deu partida no carro e mais a frente apontei uma açaiteria para que ele pudesse parar e terminar logo com aquilo. Ele assim o fez. Serkan olhava tudo com curiosidade, mas com pouca vontade.
— Escolha uma calda, um acompanhamento, um biscoito, e voilá! — Eu disse sem graça.
— É só isso? Tem cor de beterraba.
— Mas não é beterraba. Peça um, senhor.
— Eu vou provar o seu.
Ficamos nos olhando um tempo. Todos os beijos da boate voltaram a minha memória quando eu apenas queria esquecer. E assim que o rapaz me entregou o meu copo de açaí, ele pediu para provar.
— Me deixe ver se vou querer isso.
Serkan meteu a mão na minha colher, sem permissão e colocou uma colherada de açaí na boca sem saber se ia gostar.
— Por Allah, como gosta disso? Tem gosto de terra.
Ele fez umas caras muito engraçadas de nojo e foi impossível não rir.
— Quem não gosta de açaí é doido.
— Então você é doida. Isso é muito r**m, prefiro sorvete.
Enfiei a colher na boca sorrindo, porém, baixando a cabeça tentando não rir mais dele, afinal era meu chefe. Ele pediu um sorvete e assim que a espera começou, Serkan começou a me olhar sem parar. Acredito que ele queria me perguntar alguma coisa, mas apenas ficou rodando as chaves do carro na mão direita fazendo de tudo para não me encarar. Assim que o sorvete dele ficou pronto, fomos nos sentar em uma mesinha de plástico branca das que havia no local.
— Então, como vai fazer com o velho? — Inquiriu ele.
Olhei em seus olhos e só então me lembrei do homem do terreno.
— Eu não sei, talvez o senhor tenha alguma ideia melhor porque nada vem a minha mente.
Ele mostrou um sorriso sarcástico sem olhar para mim.
— Não são os brasileiros os reis do jeitinho? Foi o que ouvi.
Parei a colher dentro do meu copo de açaí e não esperei para ouvir mais nada. Ele tinha acabado de falar m*l do meu povo. Brasileiro é bicho estranho, só brasileiros podem falar m*l do Brasil, mais ninguém. Ele não era brasileiro, portanto, ele estava fora da lista de pessoas que podiam falar m*l do meu país. Senti-me profundamente acusada, aviltada, ultrajada. Levantei da cadeira e fui andando em direção ao metrô, jogando fora o açaí numa lata de lixo. Ouvi ele chamar. Não parei. Continuei andando com raiva. Senti uma mão tocar meu braço.
— Não me toque! O senhor me chamou de corrupta!
Virei-me para ele e por estar tão próximo, nos esbarramos fazendo com que o sorvete dele virasse em sua camisa branca por baixo do paletó.
— Meu Deus, me desculpa!
— Não, não Juliana, eu que devo pedir desculpas!
— Sua camisa!
Ele segurou meus braços me fazendo o olhar.
— Não importa a camisa! Eu tenho dezenas iguais! Eu só quero que entenda que eu sou um grosseiro às vezes e preciso pedir desculpas pelo que falei.
Nós nos encarávamos de tão perto que eu poderia beijá-lo. Pessoas passavam por nós, apressadas para a volta para casa, entretanto, para nós dois não existia mais ninguém ali. Eu estava magoada mais uma vez e ele queria desculpas. Como desculpar algo que foi dito com toda a intenção de machucar? Reparei em sua barba, seus lábios contraídos esperando uma resposta, o olhar de súplica.
— Porque minha desculpa é importante para o senhor?
— Por que você é minha primeira amiga nesse país. É importante que você me perdoe.
— É importante que o senhor comece a medir suas palavras. Eu perdoo, me deixe ir embora.
Ele me soltou e saí andando em direção ao metrô com vontade de chorar. Como pude me interessar e beijar um homem tão preconceituoso e vil? Eu estava me odiando mais do que a ele. Porém, sempre que nos encontrávamos e Serkan queria dizer algo, nunca me parecia ser o que realmente queria dizer. Ele fez aquilo de novo. Era como se o velho fosse somente um pretexto para estar perto de mim, ou eu queria que fosse esse o motivo.
O fato é que eu estava absolutamente caída por ele e não queria admitir para mim mesma. Ele não iria mudar, não ia me enxergar com outros olhos. Ele era meu chefe e eu precisava colocar isso na minha mente, precisava esquecer aqueles beijos de uma vez por todas. Quando pensava em mim, Serkan pensava em seus negócios como advogado. Ele apagara da mene que sentimos tanta atração um pelo outro a ponto de nos atracarmos aos beijos naquela noite.
Ao chegar em casa, estava exausta. Fui para o banho com uma sensação de derrota dupla. Eu não era responsável pelo velho vender sua casa, mas também não fui convincente o suficiente para que ele quisesse vender. Se eu pensasse em alternativas, talvez. Mas, depois de ter sido insultada, eu queria era que Serkan se desse m*l. Muito m*l. Jaqueline saiu de seu quarto e reparou em meu rosto.
— Que carranca, minha irmã, o trabalho vai bem?
— Nada vai bem, nada nunca vai bem para mim.
— Que dia difícil ein... Quer ver uma novela comigo? Saiu Bay yanlis com o gostoso do Can Yaman.
— A gente estava esperando muito por essa novela, né?
— Muito.
Enfim fui para o quarto dela para ver tv. A proximidade com a minha realidade daquelas novelas era imensa. Porque as funcionárias sempre se apaixonam pelo chefe? Que clichê batido e...delicioso. Sorri comigo mesma. O fato é que eu não conheci Serkan como sua funcionária, portanto, eu não me encaixava bem naquelas comédias românticas. O meu caso estava mais para um drama dark ou um filme de terror. Eu não sabia se ria ou chorava da minha vida. Acho que ambos caberiam na situação. Depois do primeiro e longo episódio, adormeci na cama da minha irmã e ela me expulsou para meu quarto. Pela manhã me lembrei de um pesadelo: Serkan, como o chefe, barman, advogado turco, tudo junto em um homem só, gritando comigo e me dando ordens absurdas. Meu cérebro tinha misturado todos os personagens caricatos na minha mente e aprontado uma sopa de homens clichê que caíam muito bem para Serkan Sadik. Tive que me levantar e me arrumar. Mais um dia me esperava naquele escritório.