Elena
O perfume adocicado das rosas negras contrastava com o orvalho gelado que encharcava o jardim real dos Vitale. Sob a luz trêmula dos lampiões de ferro, os canteiros alinhados exibiam azaléias pálidas e trepadeiras de jasmim — símbolos de delicadeza em meio à brutalidade de uma família que dominava os becos da cidade com punho de aço. Era madrugada quando consegui escapar da vigilância, vestindo o manto de seda que me fora entregue com ordens expressas: “Não pises aqui sem permissão.” Porém, minha mente ansiava por brigar contra aqueles grilhões invisíveis que eu mesma assumira.
Cada passo ecoava num caminho de pedras pretas, ladeado por estátuas de anjos de mármore cujos olhos, esculpidos sem vida, pareciam acompanhar minha fuga silenciosa. Retraí os ombros, apertando o salto fino contra o solo úmido. O frio me invadia, mas nada comparável ao congelamento no peito que eu sentia desde que assinei o contrato. A etiqueta de “noiva por convenção” se tornara uma armadilha solene, convertendo meu amor de filha em moeda de troca.
Ao me deter junto à fonte central — cujas águas ainda deslizam com murmúrios — lembrei do passado, dos pilares de minha infância. Vi-me criança correndo pelos campos de terra batida, descalça, enquanto risos de liberdade voavam como pássaros acima de mim. Lembrei dos dias em que meu pai me abraçava sem peso de contrato ou ameaça, quando a palavra “familia” ainda não era escrita em sangue. E então a memória se tornou aguda: o instante exato em que ele, homem orgulhoso, se curvou diante do patriarca Vitale, firmando a aliança sombria que rasgou o tecido de nossas vidas.
Sentou-me na beira do chafariz, o frio do mármore gelando minha saia de seda. Deixei que o olhar se perdesse no reflexo cintilante da lua quase cheia. Meu coração latejava de raiva contida. Eu estava acorrentada a um destino que não escolhera, obrigada a ceder cada suspiro de vontade em favor dos interesses de uma máfia implacável. O ciclo de dor parecia interminável: quanto mais me rendia, maiores eram as cicatrizes invisíveis que sangravam em minha alma.
Levei as mãos ao rosto e pressionei as palmas contra as têmporas, tentando silenciar o tumulto de pensamentos. “Não aguenta isso”, sussurrei, como quem recusa uma sentença irrevogável. O vento trouxe o leve rangido de uma porta de ferro se abrindo. Ergui o corpo, pronta para correr, mas vi apenas a figura solitária de Vittorio, o mordomo de minha infância, aproximar-se sem pressa.
— Elena — disse ele, a voz rouca de anos de serviço. — Sua alteza espera por você no salão oriental.
Aqueles passos suaves me lembraram de que eu não pertencia àquele jardim de fantasmas. Mas, ao mesmo tempo, compreendi que fugir não era a solução final. Havia de existir um modo de reconquistar minha autonomia sem trair quem eu era.
— Obrigada, Vittorio — respondi, retirando-me com uma reverência contida. — Voltarei em breve.
Enquanto retornava ao corredor de colunas cilíndricas e tapeçarias negras, senti a determinação reacender-se em meu peito. “Você iniciará sua própria trama”, pensei. “Um xadrez sutil, para mover as peças certas sem despertar suspeitas.” A liberdade, percebi, não viria de um salto desesperado, mas de passos calculados, de alianças discretas e de segredos bem guardados.
Naquela noite, voltei ao quarto de hóspedes que me fora reservado. As paredes revestidas de damasco escarlate pareciam pulsar com lembranças de sussurros clandestinos. Sentei-me diante do espelho oval e afastei o véu que caíra sobre o cabelo ondulado. Vi o contorno esguio do rosto, os olhos escuros marcados pela insônia recente e as bochechas pálidas, lívidas. Tão pálida quanto a própria lua que brilhava nos jardins.
Peguei da escrivaninha uma pena de prata que me fora presenteada por Vincenzo após a dança de máscaras. A ponta lisa reluzia — distraí-me contemplando seu brilho e, então, ergui o olhar para a janela entreaberta. O vento frio trouxe o sussurro dos capangas no corredor. Não haveria tempo a perder.
Na página em branco diante de mim, rabiscai algumas palavras:
“Para sobreviver, preciso ser mais do que a noiva de fachada. Preciso me tornar a arquiteta do meu próprio destino.”
Respirei fundo, e Havia algo de mágico no ato de escrever — um gesto que me lembrava de quem eu fora antes de ser condicionada a cumprir ordens. A cada frase, sentia a armadura interna se fortalecendo.
Na manhã seguinte, adentrei o salão oriental, onde Vincenzo aguardava em meio a uma mesa baixa ladeada por quadros de antepassados. O ar ali tinha aroma de tabaco envelhecido e couro de poltrona. Ele ergueu a cabeça ao me ver entrar, as sobrancelhas arqueadas em curiosidade.
— Vejo que retornou antes do amanhecer — comentou, a voz fria. — Teve insônia?
Mantive-o no olhar, escondendo o brilho do meu plano nascente.
— Apenas decidi explorar as belezas desta propriedade — respondi, com um tom casual. — É um lugar realmente impressionante.
Ele sorriu, uns lábios que raramente se curvavam com gentileza.
— Fico satisfeito que a encontrem agradável. Mas lembre-se: esses salões são tanto refúgio quanto prisão.
Aquelas palavras soaram como aviso, mas não como ameaça nova. Eu afirmara meu controle sobre minha mente: minha prisão era certa, mas não minha rendição.
— Compreendo — respondi, inclinando levemente a cabeça. — Também me pergunto…
Ele me lançou um olhar interrogativo.
— O que me pergunta?
Aproximei-me da mesa e com toque leve arrastei um dos retratos antigos — o de uma ancestral, de olhar severo.
— Se esta jovem tivesse tido escolha, seguiria o mesmo caminho? — minha voz se deixou embrenhar pela emoção contida. — Ou lutaria por liberdade, como estou aprendendo a fazer?
Vincenzo franziu o cenho. Aquela era a primeira vez que eu o via hesitar. Seus dedos pousaram sobre o retrato, tocando o verniz com cautela.
— A ancestral… — murmurou ele. — Imagino que, se tivesse vivido em outra época, teria lutado sim. Mas aqui, agora… são diferentes as regras do jogo.
“Isso mesmo”, pensei. “Preciso jogar conforme as regras, mas com inteligência.” Aquele instante mostrou que Vincenzo reconhecia minha semente de rebeldia — um risco e uma oportunidade.
— Então estamos de acordo — concluí, recompondo o retrato no lugar — que devo aprender a jogar?
Ele me fitou, a máscara de indiferença retornando.
— Sim. Mas cuidado para não ultrapassar os limites.
Saí do salão com o coração acelerado. A determinação cresceu em meu íntimo: construir uma estratégia em camadas, firmar acordos secretos com servos de confiança, colher informações nos corredores escuros e, assim, me fortalecer. Se o orgulho era minha corrente, então meus pensamentos, minhas alianças sutis e minha astúcia seriam as ferramentas para arrebentar o ferrolho que me prendia.
Durante os dias seguintes, passei a cumprimentar discretamente os criados que me lançavam olhares de piedade — especialmente Amália, a copeira-chefe, que sempre derramava uma lágrima ao me servir o chá matinal. A cada conversa furtiva, eu sugeria ideias sobre melhorias na cozinha ou no armazenamento de vinhos, mas, sob a superfície, eu sondava lealdades e cultivava confiança. Cobri minhas ausências nos jardins noturnos com desculpas de insônia e inspiração artística. Pintei pequenas aquarelas dos canteiros floridos, suficientes para me dar razão de perambular sem despertar suspeitas.
Enquanto isso, mantive o olhar frio para Vincenzo, que me observava com crescente interesse. Em nosso último encontro no escritório, perguntei casualmente sobre um trecho do contrato:
— Senhor Vitale, na cláusula 7, existe menção a uma “visita anual à propriedade de Castel Vecchio”. Poderia explicar melhor?
Ele se inclinou, surpreso pela pergunta.
— Ah, sim. — Abaixou a voz, quase um sussurro — é uma reunião reservada entre chefes de família. Pouco altruísta em seu propósito, mas tradicional.
Anotei mentalmente cada sílaba, decorei os detalhes e demonstrava interesse genuíno. Em troca, ganhei de Vincenzo um raro momento de cortesia: um sorriso contido que espantou o frio de seu semblante.
— Obrigado pela curiosidade, Elena. — Ele permitiu-se um brinde leve — Saber as regras do jogo é metade da vitória.
Aquele momento foi combustível. Eu compreendia agora que, para conquistar minha liberdade, precisaria dominar não apenas o protocolo, mas também os sussurros dos caporegimes, o teor das reuniões secretas e as fraquezas de meu marido. Cada informação seria peça-chave para que, um dia, eu trocasse as correntes do orgulho pelo poder sutil de minha própria vontade.
De volta aos jardins naquela noite, senti as correntes internas já se partirem, lentamente. A cada respiração, minhas cicatrizes invisíveis ardiam, mas ardiam como brasas vivas — não como feridas supurantes. Eu renascia ali, sob o luar, não mais apenas como Elena, filha de um homem subjugado, mas como a protagonista de minha história.
Enquanto o vento sussurrava entre as folhas, prometi a mim mesma: não descansaria até romper todos os grilhões, até tocar a liberdade — fosse ela distante ou traiçoeira. E, na escuridão que me circundava, havia agora um fogo interior, alimentado pela memória do passado e pela esperança de um futuro conquistado.
Sim, as correntes mais fortes seriam as do orgulho – mas eu as forjaria em alianças, as teceria no silêncio e as despedaçaria no momento exato. Pois, por mais invisíveis que fossem, as cicatrizes que eu carregava eram também fontes de força.
Nesse ápice de determinação, fechei os olhos e sorri, pronta para dançar meu próprio tango sombrio até o mundo ceder ao desejo ardente de minha liberdade.