Elena A noite tinha um peso próprio naquela ala da mansão: um silêncio de museu, onde cada móvel parecia guardar uma história que ninguém deveria tocar. Empurrei a porta dos meus aposentos e, por um instante, desejei que o cansaço apagasse o mundo. O abajur de vidro leitoso lançou um halo ameno sobre a penteadeira, o véu das cortinas tremia com uma corrente de ar quase imperceptível, e o perfume que deixei de manhã ainda pairava no quarto, transformado em fantasma. Foi quando o vi. Um envelope pardo, no centro exato da penteadeira — milimetricamente alinhado com o espelho, como uma oferenda. Nenhum lacre. Meu nome, “Elena”, escrito com letra de quem sabe controlar a mão mesmo no escuro. O coração errou o compasso. Chamei mentalmente por uma razão simples: eu havia trancado a porta. Fec

