Capítulo 2 — Olhos Que Não Lembram

591 Words
O sino da porta tocou baixo quando ele entrou. Você não ergueu o olhar de imediato. Estava acostumada a homens entrarem ali carregando pressa, fome ou frustração — todos iguais, todos passageiros. Continuou anotando pedidos, o corpo funcionando no automático que o cansaço ensinou. Mas algo… mudou. O silêncio não foi imediato, foi respeitoso. Como se o próprio ambiente tivesse reconhecido uma presença que não precisava se impor. Quando você finalmente levantou os olhos, sentiu o impacto sem saber explicar o motivo. Ele estava parado a poucos passos. Alto, impecável, deslocado demais para aquele lugar esquecido pelo tempo. O terno escuro parecia absorver a luz fraca do salão. O olhar — firme, atento, dolorosamente preso em você. Seu coração falhou uma batida. Não por reconhecimento. Por instinto. — Boa noite — você disse, profissional. A voz saiu firme, apesar da tensão repentina nos ombros. — Pode se sentar onde quiser. Ele não respondeu de imediato. Observava você como quem confirma uma verdade antiga. — Aqui está bom — disse por fim, escolhendo a mesa mais próxima. Enquanto anotava o pedido, sentiu os olhos dele acompanharem cada gesto seu. Não era invasivo. Era investigativo. Como se ele estivesse montando você a partir de fragmentos. — Trabalha aqui há muito tempo? — perguntou. — Tempo suficiente — você respondeu, sem se aprofundar. Ele assentiu lentamente. Um gesto pequeno, carregado de significados que você não podia acessar. Mas Claudio podia. Por dentro, o império que ele construiu tremia. Aquela postura contida. O jeito de medir palavras. O corpo treinado para suportar, não para viver. Eles quebraram você, pensou. Mas não conseguiram apagar tudo. Quando você se afastou, Claudio levou a mão ao bolso interno do paletó e tocou um objeto antigo: uma corrente fina, desgastada pelo tempo. O único vestígio que restou da noite em que falhou. Cinco anos atrás, alguém tinha dado a ordem. Não foi um inimigo distante. Foi alguém de dentro. O nome veio como veneno antigo: Vittorio Mancini. O homem que ele chamou de irmão. O sócio que conhecia cada rota, cada fraqueza. O único que sabia que você estava no carro naquela noite. Vittorio não queria o império. Queria controle. Você era a peça perfeita. — Ela não deve morrer — foi a ordem que ele deu. — Viva, ela é mais útil. Claudio apertou os dentes ao lembrar. Agora, Vittorio estava desaparecido… oficialmente. Mas homens como ele não somem. Eles observam. E naquela mesma noite, do outro lado da rua, uma sombra se movia. Um homem encostado em um carro simples demais para chamar atenção. Olhos atentos demais para serem casuais. Um telefone vibrando na mão. — É ela — disse ele em voz baixa. — Ele encontrou. A ameaça nunca foi embora. Apenas esperou. Quando Claudio se levantou para ir embora, deixou dinheiro demais sobre a mesa. Um gesto calculado. Não para impressionar você — mas para garantir que voltaria. Antes de sair, inclinou-se levemente, a voz baixa, controlada: — Cuide de si. Você franziu o cenho. — Eu sempre cuido. Ele quase sorriu. Quase. Do lado de fora, Claudio entrou no carro com o peito em guerra. O pai que falhou gritava por você. O homem que domina impérios sabia: trazê-la de volta significava guerra. E ainda assim… — Desta vez — murmurou para o vidro escuro — ninguém vai tocar nela. Você observou o carro desaparecer na rua, sentindo um peso estranho no peito. Não sabia quem ele era. Mas sabia de uma coisa. Aquele homem não tinha passado pela sua vida. Ele tinha retornado.
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