Capítulo 3 — O Que Se Move no Escuro

678 Words
Você não percebeu quando passou a ser seguida. No começo, foi apenas uma sensação incômoda. O pressentimento de estar sendo observada quando atravessava a rua depois do trabalho. O som de passos que diminuíam quando você diminuía. O reflexo de um carro parado tempo demais no mesmo lugar. Nada concreto. Nada que pudesse ser provado. E ainda assim, seu corpo sabia. Naquela noite, ao fechar o restaurante, o céu estava pesado, carregado de nuvens baixas. Você puxou o casaco com força ao redor do corpo, o frio entrando pelos ossos já cansados. Caminhava rápido, contando os passos até o ponto de ônibus, repetindo mentalmente que era só cansaço. Foi quando ouviu seu nome. — Alessa. A voz veio suave demais. Você se virou de imediato, o coração disparando. Um homem estava parado a alguns metros. Aparência comum. Rosto esquecível. O tipo de pessoa que não chama atenção — e por isso mesmo, perigosa. — Sim? — respondeu, mantendo distância. Ele sorriu de leve. — Trabalho com pessoas que gostam de ajudar. Soube que você anda passando dificuldades. Seu estômago revirou. — Não estou interessada — disse, firme, e tentou seguir em frente. Ele deu um passo na sua direção. — Não seja precipitada. Há gente disposta a oferecer p******o. Segurança. Um lugar melhor do que— — Eu disse não. Você passou por ele, sentindo o corpo inteiro em alerta. Não correu. Não gritou. Apenas caminhou mais rápido, como aprendeu a fazer quando a vida ensinou que reagir demais também era um risco. Você não viu quando ele levou o telefone ao ouvido. — É ela — murmurou. — Ainda não lembra de nada. Do outro lado da cidade, Claudio Feretti observava telas. Relatórios espalhados sobre a mesa. Fotos suas. Endereços. Horários. Rotinas. Tudo aquilo que ele jurou nunca mais permitir que fosse usado contra você — e que, ainda assim, agora estava novamente em mãos erradas. — Eles chegaram antes de você — disse uma voz jovem atrás dele. Alsean. O filho que cresceu vendo o pai governar o mundo com frieza. O herdeiro treinado para não hesitar. — Você está ultrapassando limites — continuou Alsean, o olhar fixo no pai. — Está expondo tudo por causa dela. Claudio não se virou. — Ela não é causa. — A voz saiu baixa. — Ela é consequência. Alsean cerrou o maxilar. — Você falhou uma vez. E agora quer consertar usando o império inteiro como escudo. — Eu falhei porque confiei na pessoa errada — respondeu Claudio, finalmente encarando o filho. — E não vou repetir isso. — Ou porque colocou sentimentos onde não devia. O silêncio entre eles foi pesado. — Observe — disse Claudio, quebrando-o. — Mas não interfira. Alsean sentiu algo que não conhecia bem: medo. Não da ameaça externa. Mas do que aquela obsessão poderia destruir. Enquanto isso, você chegava em casa com as mãos trêmulas. Trancou a porta, encostou-se nela, respirando fundo. O apartamento pequeno parecia ainda menor naquela noite. Foi então que a memória veio. Não inteira. Não clara. Apenas um fragmento. Luzes passando rápido pela janela. O som grave de um motor. Uma voz masculina dizendo: “Não tenha medo.” Você levou a mão à cabeça, o coração acelerado. — Que d***a… — sussurrou. Não sabia de onde aquilo vinha. Só sabia que não era imaginação. Na mesma hora, seu celular vibrou. Número desconhecido. Você hesitou. Atendeu. — Não aceite ajuda de estranhos — disse a voz do outro lado. Seu corpo gelou. — Quem é você? Uma pausa curta. Controlada. — Alguém que sabe que você está em perigo. — Ele respirou fundo. — E que não vai deixar que te machuquem de novo. — De novo? — sua voz falhou. — Do que você está falando? — Ainda não — ele respondeu. — Mas vai lembrar. A ligação caiu. Do outro lado da cidade, Claudio fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso de cada escolha que vinha pela frente. A ameaça já estava perto demais. Você começava a despertar. E o passado… não aceitaria mais silêncio.
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