Capítulo 4 — O Nome Que Não Devia Ser Dito

550 Words
Você passou o dia inteiro pensando nele. Na forma como observava demais. Na voz que parecia saber coisas que você não contou. Na ligação da noite anterior — direta demais para ser coincidência. Claudio Feretti. Você não sabia o nome completo, mas agora sabia o suficiente para desconfiar. Quando ele entrou novamente no restaurante, no fim da tarde, você sentiu antes de ver. O mesmo silêncio respeitoso se espalhou pelo ambiente. Ele sentou-se na mesma mesa. O mesmo terno escuro. O mesmo olhar que parecia atravessar camadas que você nem lembrava de ter. Você se aproximou sem bloco de anotações. — Você — disse, mantendo a voz baixa. — Por que está voltando aqui? Claudio ergueu o olhar devagar. Não havia surpresa. Apenas cautela. — Porque é um lugar seguro — respondeu. Você soltou um riso curto, sem humor. — Nada aqui é seguro. E você sabe disso. Ele sustentou seu olhar por um longo segundo. Tempo demais. — Você devia faltar hoje — disse por fim. — Não volte para casa sozinha. Aquilo foi o suficiente. — Quem você pensa que é? — sua voz tremeu, mas você não recuou. — Primeiro liga, depois aparece dando ordens? — Alguém que— — Chega. Você se afastou, o coração acelerado. Não queria ouvir. Não podia. Algo em você gritava que ouvir significava lembrar — e lembrar parecia perigoso demais. Do lado de fora, a ameaça se movia. O homem do carro comum observava o restaurante, os olhos atentos. O telefone vibrava novamente. — Ela está resistindo — disse ele. — O homem interfere demais. Do outro lado da linha, Vittorio Mancini ouviu em silêncio. — Então pressione — respondeu. — Sem machucar. Quero que ela lembre. O medo costuma abrir portas que o tempo fecha. Naquela noite, ao sair do trabalho, você encontrou um envelope preso à porta do seu apartamento. Sem remetente. Sem explicação. Dentro, uma foto antiga. Um carro preto. Uma mão masculina segurando a sua, pequena demais. E, no verso, apenas uma frase: Você já foi mais do que isso. Suas mãos começaram a tremer. A memória veio em ondas curtas. — Não tenha medo… — a voz ecoou na sua cabeça. Você caiu sentada no chão, o peito apertado. O nome estava ali, na ponta da língua. Queimando. Do outro lado da cidade, Alsean encarava o pai. — Você está perdendo o controle — disse, direto. — Eles estão usando ela para te puxar para fora da sombra. — Eu sei — respondeu Claudio. — Então deixe comigo. — Os olhos de Alsean endureceram. — Vou resolver isso do meu jeito. — Não ouse — Claudio respondeu, a voz baixa, perigosa. — Se você cruzar essa linha— — Você já cruzou. Anos atrás. O silêncio entre eles foi definitivo. Alsean saiu sem esperar permissão. Pela primeira vez, não como herdeiro… mas como alguém disposto a agir. No seu apartamento, você se levantou com esforço, respirando fundo. Olhou-se no espelho. O reflexo parecia diferente. Mais antigo. Mais cansado. — Meu nome é… — você sussurrou. A palavra saiu sozinha. Clara. Clara Feretti. O ar ficou pesado. A dor veio junto. E, em algum lugar da cidade, Claudio levou a mão ao peito no mesmo instante. O nome tinha sido dito. E agora, nada mais permaneceria enterrado.
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