Você passou o dia inteiro pensando nele.
Na forma como observava demais.
Na voz que parecia saber coisas que você não contou.
Na ligação da noite anterior — direta demais para ser coincidência.
Claudio Feretti.
Você não sabia o nome completo, mas agora sabia o suficiente para desconfiar.
Quando ele entrou novamente no restaurante, no fim da tarde, você sentiu antes de ver. O mesmo silêncio respeitoso se espalhou pelo ambiente. Ele sentou-se na mesma mesa. O mesmo terno escuro. O mesmo olhar que parecia atravessar camadas que você nem lembrava de ter.
Você se aproximou sem bloco de anotações.
— Você — disse, mantendo a voz baixa. — Por que está voltando aqui?
Claudio ergueu o olhar devagar. Não havia surpresa. Apenas cautela.
— Porque é um lugar seguro — respondeu.
Você soltou um riso curto, sem humor.
— Nada aqui é seguro. E você sabe disso.
Ele sustentou seu olhar por um longo segundo. Tempo demais.
— Você devia faltar hoje — disse por fim. — Não volte para casa sozinha.
Aquilo foi o suficiente.
— Quem você pensa que é? — sua voz tremeu, mas você não recuou. — Primeiro liga, depois aparece dando ordens?
— Alguém que—
— Chega.
Você se afastou, o coração acelerado. Não queria ouvir. Não podia. Algo em você gritava que ouvir significava lembrar — e lembrar parecia perigoso demais.
Do lado de fora, a ameaça se movia.
O homem do carro comum observava o restaurante, os olhos atentos. O telefone vibrava novamente.
— Ela está resistindo — disse ele. — O homem interfere demais.
Do outro lado da linha, Vittorio Mancini ouviu em silêncio.
— Então pressione — respondeu. — Sem machucar. Quero que ela lembre. O medo costuma abrir portas que o tempo fecha.
Naquela noite, ao sair do trabalho, você encontrou um envelope preso à porta do seu apartamento.
Sem remetente.
Sem explicação.
Dentro, uma foto antiga.
Um carro preto.
Uma mão masculina segurando a sua, pequena demais.
E, no verso, apenas uma frase:
Você já foi mais do que isso.
Suas mãos começaram a tremer. A memória veio em ondas curtas.
— Não tenha medo… — a voz ecoou na sua cabeça.
Você caiu sentada no chão, o peito apertado. O nome estava ali, na ponta da língua. Queimando.
Do outro lado da cidade, Alsean encarava o pai.
— Você está perdendo o controle — disse, direto. — Eles estão usando ela para te puxar para fora da sombra.
— Eu sei — respondeu Claudio.
— Então deixe comigo. — Os olhos de Alsean endureceram. — Vou resolver isso do meu jeito.
— Não ouse — Claudio respondeu, a voz baixa, perigosa. — Se você cruzar essa linha—
— Você já cruzou. Anos atrás.
O silêncio entre eles foi definitivo.
Alsean saiu sem esperar permissão. Pela primeira vez, não como herdeiro… mas como alguém disposto a agir.
No seu apartamento, você se levantou com esforço, respirando fundo. Olhou-se no espelho. O reflexo parecia diferente. Mais antigo. Mais cansado.
— Meu nome é… — você sussurrou.
A palavra saiu sozinha. Clara. Clara Feretti.
O ar ficou pesado.
A dor veio junto.
E, em algum lugar da cidade, Claudio levou a mão ao peito no mesmo instante.
O nome tinha sido dito.
E agora, nada mais permaneceria enterrado.