Arruinada. É a única palavra que eu consigo pensar sobre tudo o que aconteceu. Não faz sentido.
Me encontro dentro da igreja, sentada nas escadas do altar e pensando que peça é essa que o destino está pregando em mim. Mais ou menos 500 pessoas presenciaram minha desgraça e ainda observam, amanha serei motivo de piada na cidade inteira. Como o dia que era pra ser o mais feliz da minha vida se transformou nesse conto de terror?
Hoje é o dia do meu casamento. Ou, pelo menos, era pra ser se eu não tivesse sido abandonada na igreja de última hora pelo meu noivo. Charles Hudson era meu noivo a mais de dois anos, foi tudo um acordo feito entre meu pai e o seu, de início não concordei nem um pouco com essa ideia, estava me sentindo uma moeda barata de troca mas tudo caiu por terra quando o vi. Glamoroso, charmoso e sexy, é como eu o descreveria naquele momento em que o vi pela primeira vez. O acordo foi feito para garantir que o pai de Charles não perdesse a empresa, pois estava atolado em dívidas.
Não demorou muito para que eu me apaixonasse por ele, que ao contrário de mim não parecia gostar nem um pouco da ideia e sempre foi muito distante em nossos encontros. Eu tinha apenas 18 anos quando o contrato foi assinado e achava que com o tempo ele viria a gostar de mim, ledo engano.
A cerimonialista está olhando para mim com uma expressão de pena. Odeio essa expressão com todas as minhas forças.
— Mande todo mundo embora, diga que a recepção contínua normalmente na casa dos meus pais. — Falo o mais firme que consigo para a cerimonialista. Não estou aguento o burburinho das pessoas e seus olhares de pena. Não preciso da pena deles.
Poucos minutos depois fica apenas eu e a cerimonialista, o padre já se foi e todos os outros também se dirigiram para o banquete pós casamento.
— Você precisa que eu faça alguma coisa com você? — Pergunta a cerimonialista, levanto os olhos e ela me olha com uma cara muito penosa, mas é tudo o que sou agora. Digna de pena.
— Não, vá descansar, obrigada por tudo. — Agradeço e vejo seus saltos se distanciando até perdê-los de vista totalmente.
Estou totalmente sozinha, meus pais e os de Charles saíram a procura dele assim que souberam que ele tinha fugido, mas ele tinha fugido uma hora antes do casamento bem no momento que estava todo mundo muito distraído, era impossível que o achassem depois de tanto tempo. Como ele pode fazer isso comigo? Se ele não queria casar comigo, que tivesse rompido o contrato.
Já era noite e as pessoas passavam lá fora alheia as suas vidas.
— Você vai demorar a ficar? Estamos fechando em cinco minutos. — Anunciou o coroinha com pesar e eu assenti me levantando. Não podia ficar ali para sempre mesmo.
Saio e todos que passam ficam olhando para mim, afinal, uma mulher vestida de noiva com uma calda quilométrica nunca passara despercebida por ninguém. Estou anestesiada com o sentimento de abandono e nem ligo se as pessoas estão olhando, só quero afogar minhas magoas.
— Droga, nenhum dos motoristas. — Claramente meu pai mandou todos em busca de Charles. Taco o f**a-se e saio andando sem rumo na rua, ando por um bom tempo sem nem pensar em que direção estou indo.
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De longe, um carro a seguia de maneira discreta e calma, apenas fazendo um reconhecimento da pessoa.
— Tem certeza que é ela? — Pergunto a Landon.
— Sim, nos sites de fofoca diz que ela foi abandonada no altar por Charles. Disseram que ele fugiu. — Landon passa o dedo indicador em seu tablet calmamente me passando as informações.
— Como assim abandonada no altar? E como assim diabos Charles fugiu me devendo quase meio milhão de reais? — Não acredito que o bastardo fez isso. Olho novamente a garota que parece perdida em pensamentos, não consigo ver seu rosto, mas ela anda sem rumo algum.
Quando procurei Charles cobrando a dívida há um mês e ele não tinha como me pagar, quis matá-lo, mas ai ele me deu como garantia sua noiva. Achei que seria um bom incentivo estar com a vida de sua noiva em minhas mãos, mas já vi que ele não valoriza ninguém além de si próprio.
— Se ele não me paga de um jeito, me paga de outro. Quero tudo pronto para daqui a uma semana. Vamos para casa.
Não criei meu império sendo benevolente.
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Andei sem rumo por mais ou menos uma hora seguida chorando, as lágrimas embaçavam tudo a minha frente e eu tenho certeza de ter esbarrado em muitas pessoas pelo caminho, até parar e sentar numa calçada qualquer. Olho para cima e estou perto do Pike Place Market no centro de Seattle.
Curto meu estado de topor por mais ou menos uma hora até um carro muito conhecido por mim parar ao meu lado. Me pergunto como ele me localizou.
— Senhorita, seu pai solicita sua presença. — Levanto-me e entro no carro de qualquer modo, meu vestido está imundo e rasgado das vezes que tropecei nele, a cauda já foi glamorosa um dia agora é apenas um trapo que foi arrastado pela cidade inteira. Estou descabelada e minha maquiagem provavelmente está uma bagunça mas isso tudo é o que menos me importa a essa altura. O motorista põe o carro em movimento levando-me a minha casa onde vivi a vida inteira e já tinha feito as malas para me mudar com Charles. Que i****a fui eu.
Quando chegamos ao nosso destino, não espero que ele abra a porta e eu mesma abro e saio. É hora de secar as lágrimas e seguir em frente, pelo menos por agora. Ao lado da mansão está acontecendo a recepção do casamento mesmo sem o casamento, está a todo vapor e as pessoas estão curtindo a minha desgraça.
Subo as escadas arrancando os sapatos, depois arranco a saia grande do vestido deixando apenas uma saia curta que havia por baixo, vou em direção ao escritório do papai e entro sem bater. Ele está sentado na cadeira e parece cansado.
— Ouvi dizer que desejava falar comigo. — Falo o mais firme que consigo.
— Seu noivo fugiu e não conseguimos localizá-lo. Sinto muito, filha. — Ele me olha com olhos muito piedosos, igual todos os outros me olharam hoje. Estou cansada desse olhar.
— Não o chame de meu noivo, não gosto nem de me lembrar que me casaria com alguém tão frio, eu nunca me casaria com alguém que me deixou plantada na frente da igreja e jogou nosso nome ao relento. — Rosno.
— Nunca forçaria você a fazer algo que não quisesse. — Me sinto m*l por ter rosnado para ele, afinal ele não tem culpa dos erros de Charles. — Tem algo que eu gostaria de falar também. Mas recomendo que se sente.
— Estou perfeitamente bem em pé. — Falo firme para provar o meu ponto. Nada mais dito hoje me surpreenderia.
— Charles não fugiu sozinho. Fugiu com Ariela. Foi tudo que conseguimos descobrir. — Eu cambaleio e sento-me no sofá. Desgraçada. Por isso ela tem passado todos esses dias estranha e com um olhar distante.
Traída pelas duas pessoas que eu mais amava. Uma parte de mim que acreditava no amor e na amizade como sentimentos puro se apagou nesse momento. O amor é uma fraqueza, na primeira oportunidade que tiverem vão se aproveitar do sentimento para acabar com você.
Saio em silêncio e meu pai me para.
— Onde você vai?
— Para onde mais? Curtir minha festa de casamento, muito tempo e dinheiro foram investidos ali, se não me casei pelo menos vou curtir e fazer valer a pena o dinheiro gasto. — Falo de forma despreocupada.
— Ah minha filha, sempre tão forte. — Puxa-me e me dá um abraço e um beijo na bochecha. Sempre foi eu e ele desde que a minha mãe morreu, sou filha única e sua atenção sempre foi toda minha. Sei que tudo que ele faz é pensando no melhor para mim.
— Vejo você depois. — Digo e saio seguindo até o meu quarto. É hora de mudar de roupa, retocar a maquiagem e fingir que nunca amei aquele grande saco de lixo.
No meu quarto, procuro em meu closet um vestido que seja preto e escandaloso em homenagem ao meu amor que acabou de morrer junto com a fuga de Charles. Tomo um banho rápido e visto o vestido rapidamente, calçando um salto 15 e retocando minha maquiagem logo em seguida. Olho me no espelho e vejo que ainda estou com o penteado do casamento, um pouco bagunçado mas ainda está aqui. Tiro todos os grampos que seguravam o penteado e saio jogando para o ar, não estou nem ai para nada. Passo uma escova e deixo solto caindo nas costas. Mando um beijinho para a nova eu no espelho e saio do quarto.
Desço as escadas até o saguão, indo para o lado de fora e atravessando o gramado logo em seguida em direção a recepção.
Quando eu entro, todos os olhos se dirigem a mim, muitos cochichos e olhares dirigidos em minha direção. Atravesso a multidão pegando uma taça de champanhe no caminho e vou até o palco onde faríamos nossos discursos, peço que o DJ baixe a música e pego um microfone.
— Boa noite a todos. — Sorrio. — Hoje é uma noite de comemoração, por favor, compartilhem desse momento comigo. Ao destino, por sempre mostrar o que é melhor para nós. — Levanto minha taça e todos repetem o gesto. Desço do palco logo depois indo para a pista de dança.
Estranhamente, o sentimento de tristeza que eu estava sentindo foi substituído por algo mais forte, mas eu não faço ideia do que seja.
Estou a uma hora na festa e, por incrível que pareça, estou me divertindo como nunca antes me diverti. Provavelmente é porque eu nunca saia, sempre vivi de trabalho e de casa, Charles não gostava que eu frequentasse baladas pois dizia que os outros homens ficariam olhando demais para o meu corpo. Agora vejo que era pelo puro prazer de me controlar, e eu como uma trouxa fazia de tudo para agradá-lo em tudo. Quero me bater quando me lembro de tudo que me submeti a fazer para agradar a ele.
A festa está a todo vapor e estou dançando na pista como se não houvesse amanha, minha taça nunca fica vazia e eu simplesmente não tenho nenhuma preocupação nesse momento. no meio da minha dança, vejo que há um homem me olhando, ele tem lindos olhos azuis e me encara descaradamente. Sorrio para ele e ele continua com a mesma expressão em minha direção, faço um movimento para ir até ele, mas quando eu olho em sua direção ele já não existe mais.
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