A festa rolou até de madrugada, mas eu não lembro de nada depois de ter feito o brinde quando cheguei na festa, lembro apenas de lindos olhos azuis que me perseguiram o resto da noite e que fiquei procurando a cada rosto que via. Claramente minha mente está me pregando peças, e os olhos não pertencem a ninguém que eu já conheça, eu me lembraria de tamanha intensidade. Quando olhei para eles, foi como se houvesse um ímã que me puxava em sua direção, parecia coisa de corpo, mente e alma.
Acordo soterrada em caixas e mais caixas de presentes de todos os tamanhos e formatos, minha cama parece estranha e a minha cabeça não está nem um pouco bem. O que aconteceu noite passada?
Levanto empurrando presentes e minha cabeça gira, a noite passada é praticamente um borrão em minha mente e quero entender o que exatamente aconteceu. Abro os olhos lentamente me acostumando com a claridade, olho o ambiente e imediatamente me lembro. Aquele traidor de uma figa me abandonou no altar.
Gemo alto sem esconder meu descontentamento. A essa hora toda a cidade provavelmente já sabe, essas coisas se espalham como pragas. Ouço batidas na porta.
- Entre. - Minha voz sai rouca e nasalada, nada parecida com minha voz. Maria, a empregada, entra com uma bandeja de café da manhã recheada de quitutes.
- espero que tenha dormido bem, senhorita. - sei que suas palavras são totalmente sinceras, ela sempre cuidou bem de mim.
- lamento te decepcionar, mas eu acordei como se tivesse sido atropelada por um caminhão, então não acho que eu tenha dormido tão bem assim.
- você bebeu demais, vai se sentir melhor depois que comer algo. Comece pelo café, fiz bem forte pra você melhorar. - Aceno e tomo pequenos goles do café, está mesmo bem forte e eu faço careta ao tomar.
- que horas são? - dependendo do horário vou trabalhar hoje, pra ocupar minha mente e não pensar em Charles
- bem, já passa das dez da manhã. Seu pai disse que não a acordassemos. - Meu pai sempre pensa em tudo mesmo.
Tomo meu café perdida em pensamentos enquanto Maria vai organizando o quarto, empilhando os presentes que tomam uma parede inteira.
- o que fará com tantos presentes? - Boa pergunta, digo para mim mesma. O que farei?
- bom, não se preocupe. Vou ficar com todos, não devolverei. Em breve abrirei todos. - Devolver uma ova, já basta toda a vergonha que passei, vou ficar com todos para mim.
Depois do café me sinto 50% melhor, realmente a comida faz milagres. Tomo banho e visto um terninho básico que eu sempre uso para trabalhar, tenho vários deles.
- Vai trabalhar? Mas já está tarde.
- Se eu não fizer algo para ocupar minha mente, vou enlouquecer pensando nos motivos que o levaram a me abandonar e porque justamente com minha melhor amiga. O melhor é que eu vá para a construtora e ocupe minha cabeça.
- Tudo bem menina, mas não perca seu tempo pensando nele, não vale a pena. - Fala Maria e sai logo em seguida deixando tudo impecável. Como ela arrumou tudo em tão pouco tempo? Devo estar bem desligada do mundo mesmo.
Olho me no espelho e decido aparecer ao natural hoje, meu pai sempre disse que eu sou linda de qualquer jeito e as pessoas sempre elogiam minha pele. E considerando pelo que passei ontem, tenho pelo menos o direito de aparecer como quiser. Penteio meus cabelos e calço um scarpin nude. Menos é mais.
Desço até o saguão, indo direto para fora e encontrando o motorista a postos perto do carro.
- Para a construtora, por favor. - Falo entrando no carro, mas mudo de ideia imediatamente. - Pensando bem, por deixar que eu mesma vou no meu carro. - Falo saindo do carro. Nunca mais o dirigi e sinto saudade.
Subo as escadas e vou até meu quarto pegar a chave do meu bebê vermelho, descendo logo em seguida com pressa.
- Cuidado com as escadas, vai acabar caindo algum dia. - Grita Maria, pois eu subi correndo e desci correndo também.
Entro na garagem procurando com os olhos minha linda Lamborghini vermelha, indo até ela com pressa e entrando logo em seguida. Me senti feliz como não me sentia a dias, amo carros e amo mais ainda carros bonitos. Ligo o rádio e aciono o controle para abrir as portas da garagem, arrancando assim que possível.
Pelas ruas de Seattle, dirijo sem nenhum problema e preocupação, agora percebo como o casamento me deixou sem tempo para nada. Paro no Starbucks e desço rapidamente para comprar um latte, sempre melhora meu humor.
- Um latte, por favor. - Peço a atendente quando chega minha vez.
- Certo. - Ela me olha analisando todo meu rosto e eu não compreendo. Nesse momento percebo que toda a cafeteria está olhando para mim e cochichando. Merda, esqueci que provavelmente estou em todos os jornais e toda a cidade já me conhece como a abandonada na igreja. Gemo e saio sem pegar o latte. Isso azedou todo o meu humor que eu construí ao longo da manhã.
Dirijo com pressa para a empresa antes que alguém mais me reconheça. Estaciono de qualquer jeito e aciono o elevador. Já estou me arrependendo de ter saído da minha cama quentinha.
Quando as portas do elevador se abrem, entro e aperto para o penúltimo andar rezando para que ninguém mais entre. Felizmente, ninguém entrou e consegui chegar ao meu destino sem grandes problemas.
No meu andar, assim que as portas se abrem, a primeira coisa que vejo é a minha secretária fofocando com outras mulheres do setor e, convenientemente, não me dou bem com nenhuma.
Meu salto anuncia minha chegada e a minha cara mostra meu descontentamento com a fofoca.
- Na minha sala, agora. - Passo pisando duro e elas pulam na cadeira. Minha secretária me segue.
- Qual a agenda de hoje? Se está com tanto tempo assim para fofocar, posso muito bem te dar um pouco mais de trabalho. - Ela baixa a cabeça e passa toda a agenda, sendo dispensada logo em seguida.
Caio na cadeira derrotada, quanto tempo será que terei que aguentar isso?