Capítulo 39. De novo

748 Words
O salão principal fervilhava com risos, música e conversas elegantes o retrato da alta sociedade em seu esplendor. Francesca Cavalcante, impecável como sempre, conversava com as esposas dos magistrados e investidores locais, o olhar atento percorrendo o salão com a precisão de uma ave de rapina. Nada escapava aos olhos dela. Nem um sussurro, nem um olhar, nem um passo fora do lugar. E foi justamente por isso que notou, com um incômodo quase físico, a ausência do filho. Ela parou de falar por um instante, fingindo sorrir enquanto seu olhar se movia discretamente em direção às portas laterais. “Onde está Estefano?”, pensou, sentindo o coração apertar em irritação. Chamou discretamente uma das criadas. — Encontre o seu senhor Estefano. Agora. — A voz era suave, mas firme. — E diga-me onde ele está, antes que qualquer outro o veja. A criada saiu às pressas. Francesca manteve o semblante sereno, mas os dedos tamborilavam sobre a taça de champanhe. Ela já desconfiava. Desde que o filho se tornara próximo demais da pequena Pérez, cada movimento dele parecia uma afronta direta à autoridade dela. Minutos depois, a criada retornou — pálida, aflita. — Senhora… o senhor Estefano… está… na cozinha. Francesca arqueou uma sobrancelha. — Na cozinha? — repetiu com ironia. — E o que, exatamente, ele está fazendo lá? A criada engoliu em seco. — Eu… acho que ele está com a moça Pérez, senhora. O ar ao redor pareceu gelar. Francesca colocou a taça sobre a mesa, o som seco do cristal reverberando entre as conversas. O sorriso desapareceu de seus lábios. — Entendo. Sem mais uma palavra, ela virou-se e atravessou o salão, o vestido arrastando-se pelo chão de mármore com o mesmo som que antecede uma tempestade. Na cozinha, Amélie ainda estava parada ao lado da mesa, o rosto corado pela vergonha e pela confusão. Estefano tentava acalmá-la, a voz baixa, os gestos gentis. — Você não precisa ter medo, venha comigo— dizia ele. Mas antes que ela pudesse responder, a porta se abriu com força. O som ecoou como um trovão. A figura de Francesca surgiu na entrada altiva, imponente, o olhar faiscando de indignação. O silêncio tomou conta do ambiente. — Então é aqui que o herdeiro da família Cavalcante se esconde — disse ela, a voz cortante, quase doce de tão fria. — Entre taças sujas e criadas. Estefano se virou, o semblante endurecendo. — Mãe, não começa— — Silêncio! — interrompeu ela, sem elevar o tom, mas com autoridade suficiente para calar qualquer resposta. O olhar dela se voltou para Amélie. — E você… — disse, caminhando lentamente em direção à moça — …não cansa de se aproveitar da bondade dos outros, não é? Amélie deu um passo para trás, as mãos trêmulas. — Eu não fiz nada, senhora. Eu estava apenas trabalhando— — “Trabalhando”? — Francesca riu sem humor. — É assim que chama agora? Roubar a atenção de um homem comprometido com deveres maiores que você? — Calada! — Estefano avançou um passo, indignado. — Isso é o bastante! Francesca girou o rosto lentamente em direção ao filho. — Você vai me contradizer, Estefano? Diante dos empregados? O jovem permaneceu firme, o olhar em chamas. — Se for para defender quem está sendo injustiçada, sim. Por um instante, o silêncio foi total. Os criados pararam o que faziam; até o barulho da festa parecia distante. Francesca respirou fundo, tentando controlar a fúria. — Muito bem — disse enfim, em voz baixa. — Se é isso que deseja, que todos saibam. O herdeiro da família Cavalcante prefere se manchar com uma criada a honrar seu nome. Amélie sentiu o rosto arder de vergonha, os olhos marejados. — Senhora, eu juro que— — Basta! — cortou Francesca. — Amanhã mesmo, você será enviada à ala dos serviços externos. Não quero mais vê-la dentro desta casa. Estefano deu um passo à frente, a voz firme: — A senhora não vai mandá-la a lugar nenhum! Francesca sorriu — um sorriso tenso, glacial. — Veremos, meu filho. Veremos quem tem a última palavra nesta casa. Ela virou-se com elegância ensaiada e saiu, o som de seus passos ecoando como um castigo anunciado. Amélie, imóvel, olhava para o chão, as lágrimas silenciosas caindo sobre o avental. Estefano ficou ao lado dela, os punhos cerrados, o coração dividido entre a raiva e o desespero. — Amélie... Me perdoa.— Estefano saiu irritado atrás de sua mãe.
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