O salão principal fervilhava com risos, música e conversas elegantes o retrato da alta sociedade em seu esplendor. Francesca Cavalcante, impecável como sempre, conversava com as esposas dos magistrados e investidores locais, o olhar atento percorrendo o salão com a precisão de uma ave de rapina.
Nada escapava aos olhos dela.
Nem um sussurro, nem um olhar, nem um passo fora do lugar.
E foi justamente por isso que notou, com um incômodo quase físico, a ausência do filho.
Ela parou de falar por um instante, fingindo sorrir enquanto seu olhar se movia discretamente em direção às portas laterais.
“Onde está Estefano?”, pensou, sentindo o coração apertar em irritação.
Chamou discretamente uma das criadas.
— Encontre o seu senhor Estefano. Agora. — A voz era suave, mas firme. — E diga-me onde ele está, antes que qualquer outro o veja.
A criada saiu às pressas. Francesca manteve o semblante sereno, mas os dedos tamborilavam sobre a taça de champanhe.
Ela já desconfiava.
Desde que o filho se tornara próximo demais da pequena Pérez, cada movimento dele parecia uma afronta direta à autoridade dela.
Minutos depois, a criada retornou — pálida, aflita.
— Senhora… o senhor Estefano… está… na cozinha.
Francesca arqueou uma sobrancelha.
— Na cozinha? — repetiu com ironia. — E o que, exatamente, ele está fazendo lá?
A criada engoliu em seco.
— Eu… acho que ele está com a moça Pérez, senhora.
O ar ao redor pareceu gelar.
Francesca colocou a taça sobre a mesa, o som seco do cristal reverberando entre as conversas.
O sorriso desapareceu de seus lábios.
— Entendo.
Sem mais uma palavra, ela virou-se e atravessou o salão, o vestido arrastando-se pelo chão de mármore com o mesmo som que antecede uma tempestade.
Na cozinha, Amélie ainda estava parada ao lado da mesa, o rosto corado pela vergonha e pela confusão. Estefano tentava acalmá-la, a voz baixa, os gestos gentis.
— Você não precisa ter medo, venha comigo— dizia ele.
Mas antes que ela pudesse responder, a porta se abriu com força.
O som ecoou como um trovão.
A figura de Francesca surgiu na entrada altiva, imponente, o olhar faiscando de indignação.
O silêncio tomou conta do ambiente.
— Então é aqui que o herdeiro da família Cavalcante se esconde — disse ela, a voz cortante, quase doce de tão fria. — Entre taças sujas e criadas.
Estefano se virou, o semblante endurecendo.
— Mãe, não começa—
— Silêncio! — interrompeu ela, sem elevar o tom, mas com autoridade suficiente para calar qualquer resposta.
O olhar dela se voltou para Amélie.
— E você… — disse, caminhando lentamente em direção à moça — …não cansa de se aproveitar da bondade dos outros, não é?
Amélie deu um passo para trás, as mãos trêmulas.
— Eu não fiz nada, senhora. Eu estava apenas trabalhando—
— “Trabalhando”? — Francesca riu sem humor. — É assim que chama agora? Roubar a atenção de um homem comprometido com deveres maiores que você?
— Calada! — Estefano avançou um passo, indignado. — Isso é o bastante!
Francesca girou o rosto lentamente em direção ao filho.
— Você vai me contradizer, Estefano? Diante dos empregados?
O jovem permaneceu firme, o olhar em chamas.
— Se for para defender quem está sendo injustiçada, sim.
Por um instante, o silêncio foi total.
Os criados pararam o que faziam; até o barulho da festa parecia distante.
Francesca respirou fundo, tentando controlar a fúria.
— Muito bem — disse enfim, em voz baixa. — Se é isso que deseja, que todos saibam. O herdeiro da família Cavalcante prefere se manchar com uma criada a honrar seu nome.
Amélie sentiu o rosto arder de vergonha, os olhos marejados.
— Senhora, eu juro que—
— Basta! — cortou Francesca. — Amanhã mesmo, você será enviada à ala dos serviços externos. Não quero mais vê-la dentro desta casa.
Estefano deu um passo à frente, a voz firme:
— A senhora não vai mandá-la a lugar nenhum!
Francesca sorriu — um sorriso tenso, glacial.
— Veremos, meu filho. Veremos quem tem a última palavra nesta casa.
Ela virou-se com elegância ensaiada e saiu, o som de seus passos ecoando como um castigo anunciado.
Amélie, imóvel, olhava para o chão, as lágrimas silenciosas caindo sobre o avental.
Estefano ficou ao lado dela, os punhos cerrados, o coração dividido entre a raiva e o desespero.
— Amélie... Me perdoa.— Estefano saiu irritado atrás de sua mãe.