6- MORRO DOS PRAZERES

1019 Words
CAPÍTULO 6 EDUARDA NARRANDO Respirei fundo, puxei a mala com uma mão e segurei a alça da mochila com a outra. O motorista já tinha ido embora e eu tava ali, parada na entrada da comunidade, olhando pra cima como quem encara o desconhecido de frente. O Morro dos Prazeres parecia outro mundo. O sol batia forte, refletindo nas paredes descascadas, nas roupas penduradas nas varandas, no vapor que saía de alguma panela em alguma casa. As vielas apertadas, os olhares atentos, os barulhos todos misturados… era muita coisa ao mesmo tempo. Comecei a subir com esforço. A mala batendo nos degraus irregulares, a blusa já grudando no corpo de tanto calor, e o coração acelerado… não só pela ladeira, mas pelo medo do novo. Pelo medo de dar errado. Pelo medo de ser tarde demais. Olhei pra frente e tinha uma contenção, tipo uma parede de pneus, com vários homens ali, armados. Ali deveria ser a tal da contenção que ela me falou. Foi então que eu ouvi o ronco de um motor. Levantei o olhar. Uma caminhonete preta vinha descendo devagar pela ladeira, se destacando no meio do cenário. Os vidros eram escuros, a lataria brilhava. Era o tipo de carro que impunha respeito. Na hora, pensei: – Deve ser de alguém importante aqui. Mas quando o veículo se aproximou mais… o vidro do carona baixou. — DUDA! — ouvi a voz familiar gritar, com um sorriso escancarado no rosto. Era ela. Minha irmã. Milena desceu da caminhonete antes mesmo do carro parar completamente. Tava linda. Bronzeada, com um vestido justo, o cabelo preso num coque bagunçado e uma pulseira de ouro no pulso. Tinha um brilho no olhar que eu não via fazia tempo. Ela correu até mim, me puxando pra um abraço apertado. Senti o cheiro doce do perfume dela. — Meu Deus, mana… você tá aqui. Você veio mesmo — ela sussurrou, emocionada. Eu só consegui abraçar de volta. — Eu vim. Precisei fugir… e só consegui pensar em você. Ela segurou meu rosto com as duas mãos e olhou nos meus olhos. — Aqui você tá segura. Ninguém vai encostar um dedo em você, eu juro. — Eu espero que sim… — falei, baixinho. — Vem, deixa eu te apresentar quem vai te proteger de tudo. — ela disse, puxando minha mão e me guiando até a caminhonete. O vidro do motorista tinha abaixado agora. E eu finalmente vi o cara que dirigia. Moreno, forte, tatuagens subindo até o pescoço, um cordão grosso brilhando no peito. Usava óculos escuros e uma camisa preta justa. A energia dele era intensa, pesada. Dava pra sentir que ele não era qualquer um ali. Milena abriu um sorriso orgulhoso. — Duda, esse é o Kelvin… meu marido. Ele tirou os óculos devagar, me encarou com aqueles olhos escuros e firmes, depois fez um leve movimento com a cabeça em cumprimento. — Seja bem-vinda, cunhada. Aqui ninguém mexe contigo. A voz dele era grave, firme, cheia de poder. Do tipo que não precisava gritar pra impor respeito. Eu apenas assenti. Era isso. Milena me ajudou a colocar a mala na parte de trás da caminhonete, toda empolgada, como se aquilo fosse só mais um dia comum. Mas pra mim… era tudo novo. Tudo intenso. Tudo um pouco assustador. Entrei no banco de trás, ajeitei a mochila no colo e fechei a porta. A caminhonete era espaçosa, cheirosa, com o ar gelado contrastando com o calor lá de fora. Kelvin já tava com a mão no volante, tranquilo, como se tivesse no controle do mundo inteiro. Milena entrou na frente e puxou o cinto. — Relaxa, Duda. Aqui dentro, você tá protegida — ela disse, virando pra trás pra me olhar com aquele sorriso que sempre me acalmava. Assenti, meio sem fala. A caminhonete começou a subir devagar, contornando as curvas estreitas do morro, e Milena foi apontando as coisas com naturalidade, como se tivesse me mostrando o bairro onde a gente cresceu, só que não era. — Ó, aqui é o bar do Tico. Abre até de madrugada. Se quiser uma cerveja gelada ou um pastel, já sabe onde ir. Mas não vai sozinha não, viu? — ela riu, e Kelvin soltou um “hum” abafado, como se concordasse. — Aqui do lado esquerdo é a quadra, é onde rola o baile. Todo sábado é lotado. E aqui, ó, essa vendinha aqui é da dona Dete. Se quiser alguma coisa, vai lá e diz que é minha irmã. Ela vai te tratar bem. Eu só observava, tentando processar tudo. As crianças correndo descalças, os fios elétricos cruzando o céu, os grafites coloridos, o som alto vindo de algum canto… O morro tinha um ritmo próprio. Vivo. Caótico. Quente. — Esse prédio meio destruído aí era uma escola. Agora tá abandonada, mas dizem que vão reformar. Já faz uns dois que tão prometendo — ela falou, revirando os olhos. — E ali… — ela apontou pro alto — é onde a gente mora. Bem ali em cima. Tem uma vista linda da cidade. Dá pra ver o Cristo e tudo. — Vocês moram aqui há quanto tempo? — perguntei, ajeitando no banco. — Quase dois anos. No começo foi difícil. Mas o Kelvin… — ela olhou pro marido com carinho — ele me deu tudo. E aqui é o lugar dele, entende? Ele cuida dessa área. É respeitado. Kelvin não falou nada. Só manteve os olhos na estrada, com uma expressão fechada. Mas dava pra ver… ele ouvia tudo. — Mas e você? Tá bem? — ela perguntou, virando um pouco pra mim. — Tô melhor agora — respondi baixo, com um sorriso fraco. E era verdade. Por mais que o morro me assustasse, que a presença dele me intimidasse, estar com minha irmã me trazia uma sensação de abrigo. E depois de tudo que vivi, qualquer canto com amor já era mais do que eu tinha antes.O carro fez mais uma curva e subiu o último trecho de ladeira. — Chegamos — Milena avisou animada. Eu respirei fundo, era só o começo da minha nova vida. Continua...
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