5- MORRO

1311 Words
Capítulo 5 EDUARDA NARRANDO Acordei com a luz entrando pelas frestas da cortina e os olhos inchados de tanto chorar. Passei a mão no rosto, ainda sentindo o ardor do pescoço onde os dedos dele tinham marcado. A memória da noite passada me atingiu de novo como um soco. Mas eu respirei fundo. Levantei devagar, como quem carrega o peso do mundo nas costas, e fui direto pro banheiro. Liguei o chuveiro quente e fiquei ali, parada, deixando a água cair sobre mim como se pudesse levar embora tudo. O medo é a dor. O trauma, o nome dele. Fechei os olhos e, por um instante, só ouvi o barulho da água e o som da minha própria respiração. Terminei o banho, me enrolei na toalha e fui até o quarto. Abri a mala que já tava pronta e vesti uma calça jeans confortável, uma blusa branca simples e um tênis. Prendi o cabelo num coque e passei um protetor solar no rosto. Nem maquiagem, nem disfarce. Hoje, eu só queria passar despercebida. Peguei o celular pra conferir o horário do voo e o coração disparou. 17 chamadas perdidas. Todos de números diferentes. Desconhecidos. Mas eu sabia. Era ele. Era o Fernando. Não precisava estar escrito. A insistência, o horário, o padrão… tudo gritava o nome dele. Bloqueei todos os números. Larguei o celular com força na cama e respirei fundo. — Você não vai me parar — sussurrei, pra mim mesma. Como se precisasse ouvir minha própria voz. Olhei pro relógio. Faltavam duas horas pra eu ir pro aeroporto. Peguei a mala, coloquei a alça no ombro, e com as mãos ainda trêmulas, tranquei a porta da minha casa, da minha história e do meu passado. Ali, naquele prédio, eu deixava pra trás a mulher calada, ferida e sufocada. E mesmo com o medo no peito. Era a primeira vez, em muito tempo, que eu me sentia no controle da minha vida. Chamei um táxi pelo aplicativo e esperei na calçada com a mala ao meu lado. O sol ainda era tímido, e a cidade parecia estar acordando aos poucos. As buzinas, os ônibus lotados, os portões se abrindo. E eu ali, tentando não olhar pra trás. O carro chegou em cinco minutos. — Aeroporto, por favor — falei baixo, entrando e tentando controlar a respiração. O motorista apenas assentiu. Durante o caminho, fiquei calada, olhando pela janela, observando os prédios, as pessoas andando apressadas, os faróis abrindo e fechando. Por dentro, eu só pensava em uma coisa: chegar no Rio. Chegar longe dele. Começar do zero. O trajeto parecia mais longo do que realmente era. Cada curva da cidade me arrancava uma lembrança, mas eu me forçava a olhar pra frente. Quando o carro entrou no pátio do aeroporto, meu coração deu um salto. Paguei a corrida, agradeci com um aceno e entrei no saguão puxando a mala. Fui direto pro totem de check-in. Digitei meus dados, imprimi a passagem, despachei a bagagem. Tudo automático, tudo rápido, como se eu quisesse evitar o mínimo de contato possível com o mundo. Depois, andei até uma padaria que tinha ali no canto do saguão. Meu estômago roncava, mas a ansiedade não deixava espaço pra fome. Mesmo assim, pedi um café preto e um pão de queijo. Sentei perto da janela, observando a movimentação de passageiros apressados e famílias se despedindo. E ali, naquele pequeno momento de pausa, eu senti um fio de paz. Talvez o primeiro em meses. Peguei o celular e coloquei no modo avião, mesmo sem ter embarcado ainda. Eu não queria mais ouvir toque, notificação, número desconhecido. Só queria silêncio. Só queria chegar. E quando anunciassem meu voo… Eu ia deixar pra trás tudo que me quebrou. Terminei o café devagar, sentindo o calor da xícara acalmar as mãos que ainda tremiam. Dei a última mordida no pão de queijo já frio, respirei fundo e me levantei. Hora de ir. Passei pelo raio-X, coloquei tudo nas bandejas, ouvi o bip liberando meu caminho. A cada etapa, check-in, revista, portão, parecia que eu deixava um pedacinho da velha Eduarda pra trás. Quando chamaram meu voo pra embarque, apertei a alça da mochila contra o peito e segui a fila. Sem olhar pro lado, sem pensar em número desconhecido nenhum. Sentei na janela, 18F. O avião taxiou, ganhou pista e, no momento em que as rodas desgrudaram do asfalto, fechei os olhos. Era como se a gravidade que me mantinha presa a Blumenau tivesse soltado de vez. Lá de cima, as nuvens pareciam algodão calmo, bem diferente da bagunça que era meu peito, uma mistura de medo, alívio e um fio de expectativa. Duas horas depois, o piloto anunciou a descida. Pela janela, vi o recorte do Pão de Açúcar e o mar esverdeado abraçando a cidade. Rio de Janeiro, 10h47 da manhã. O coração disparou: não era passeio, era fuga, mas também era recomeço. O pouso foi suave. Peguei a mala na esteira, ainda sentindo o zumbido do voo nos ouvidos. Do lado de fora, o ar quente do Rio me envolveu como um choque, o cheiro de sal, gasolina e vida acontecendo alto. Liguei o telefone apenas para avisar: — Cheguei, mana. – Já estou te esperando na contenção do morro. Ela respondeu em seguida e eu já desliguei antes que qualquer notificação estragasse o momento. Chamei um carro de aplicativo e, quando a porta se fechou atrás de mim, olhei pela janela: prédios, viadutos e, lá ao fundo, o morro dos Prazeres esperando. Apertei o cinto. Agora, não tinha volta. O carro arrancou, saindo do aeroporto e mergulhando no trânsito intenso da cidade. O motorista era um homem de uns cinquenta anos, óculos escuros e camiseta regata, dirigia com uma calma que parecia não combinar com o caos lá fora. Fiquei em silêncio por alguns minutos, observando a cidade passar pela janela. Tudo era novo, barulhento, quente. O contraste com Blumenau era gritante. Lá, o silêncio doentio. Aqui, o barulho que parecia gritar vida. — A moça é daqui do Rio? — ele perguntou, com aquele sotaque arrastado e curioso. Balancei a cabeça. — Não. Primeira vez aqui. — Primeira? Tá indo pra um morro? — Sim. Morro dos Prazeres — respondi, sem pensar muito. O silêncio dele durou dois segundos inteiros. Depois ele olhou rápido pelo retrovisor e soltou um assobio curto. — Morro dos Prazeres? Sozinha? Assenti, tentando manter a voz firme: — Minha irmã mora lá. Tô indo visitar. Ele fez um som com a boca, tipo um “hum…” desconfiado, e continuou dirigindo. — Olha, não é querendo assustar não, tá? Mas a senhora tem que ficar ligeira. Ali é área de risco. Comunidade pesada. Tem dias que a bala come feio… principalmente se tiver operação ou coisa errada rolando. Engoli seco. — Eu sei. Quer dizer… mais ou menos. Mas minha irmã vive lá, tá tudo certo. Ele suspirou, ajeitou a posição na direção. — Tem muito lugar bonito no Rio, moça. Praia, Zona Sul, museu, parque. Morro… só vai quem precisa mesmo. Ou quem ama alguém que mora lá. Fiquei em silêncio. Ele não sabia, mas a frase dele acertou em cheio. Era isso. Eu tava indo por amor. Pelo amor de irmã. Pela única pessoa que eu ainda tinha no mundo. Pela única que nunca soltou a minha mão, mesmo de longe. O carro atravessava bairros e avenidas, e eu sentia que a cidade ia mudando de cor, de cheiro, de ritmo. Quanto mais a gente subia, mais o asfalto dava lugar a ladeiras estreitas, muros pichados, e olhares desconfiados nas esquinas. O motorista diminuiu a velocidade. — Daqui pra frente, só a pé ou mototáxi. Se eu entrar demais, posso tomar enquadro dos menor ali. Melhor evitar. Assenti e agradeci. — Obrigada por trazer até aqui. Pode me deixar nesse ponto mesmo. – Falei pagando ele. Continua ......
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