7-IRMÃS

1070 Words
CAPÍTULO 7 EDUARDA NARRANDO Assim que a caminhonete parou, senti o coração apertar no peito. Era como se, naquele instante, eu tivesse cruzando uma fronteira invisível, da dor pra tentativa de paz. Kelvin desligou o motor sem dizer nada, saiu do carro e foi direto pra parte de trás. Com uma facilidade que só quem tá acostumado tem, ele puxou minha mala pesada como se fosse de papel. Fiquei olhando por uns segundos, em silêncio, tentando entender quem era aquele homem tão quieto… mas que, só de estar por perto, já fazia todo mundo ficar em alerta. Milena desceu do carro e me estendeu a mão com um sorriso caloroso. — Vem, mana. Agora você vai conhecer seu novo lar. Saí do banco de trás e senti o sol bater forte no rosto. O lugar era alto, o vento batia mais fresco ali. As casas ao redor eram simples, mas muito bem cuidadas. O chão varrido, vasos com plantas, cortinas nas janelas. Um rádio tocava um pagodinho suave em algum canto, e por um instante, pareceu até que o mundo desacelerou. — Essa casa aqui, ó — Milena apontou com orgulho. A fachada era pintada de branco, com detalhes em azul claro. Uma porta de madeira escura, uma varanda pequena com dois vasos pendurados e uma rede encostada no canto. — Vocês moram aqui? — perguntei surpresa. — Moramos sim. Kelvin reformou tudo antes da gente casar. Fez do jeitinho que eu queria. Ela abriu o portãozinho baixo e Kelvin entrou com a mala na frente, sem falar nada, já conhecendo cada canto daquele espaço. Quando atravessamos a varanda e entramos na casa, eu parei. — Meu Deus… Era tudo novo. Perfeito. O chão de porcelanato claro refletia a luz do sol que entrava pelas janelas. A sala era decorada com móveis modernos, mas aconchegantes. Sofá cinza, cortina bege, uma televisão enorme na parede e um aroma de lavanda no ar. — Eu… eu não esperava isso — falei, ainda de pé na entrada. — Pois é, né? Muita gente acha que só porque é morro, tem que ser tudo bagunçado. Mas não, aqui é nossa casa. Nosso canto. — ela disse com orgulho. — E você agora faz parte disso também. A cozinha era integrada com a sala, bancada de mármore, armários planejados, tudo muito limpo e organizado. Kelvin deixou a mala encostada no canto e sumiu pela porta do fundo sem dizer uma palavra. — Ele é sempre assim? — perguntei, rindo de leve. Milena riu também. — Ele fala pouco, mas vê tudo. Não se preocupa. Ele gostou de você. — Sério? Porque ele não parece muito… receptivo — falei, meio envergonhada. — É o jeito dele. Mas ele protege quem é nosso. E agora você é. Ela pegou minha mão e me levou até o quarto. A porta era branca, com um coração de palha pendurado. E lá dentro… cama de casal com lençol limpo, janela com vista pro morro lá embaixo, ventilador de teto girando devagar. Um armário pequeno, mas vazio. Um canto só meu. — Esse vai ser seu quarto enquanto ficar aqui. Pode ajeitar do jeito que quiser, tá? Se quiser comprar uma colcha nova… tudo bem. Eu respirei fundo e me sentei na beirada da cama. — Milena… obrigada. De verdade. Eu não sei o que seria de mim sem você. Ela se abaixou, me abraçou e sussurrou no meu ouvido: — Agora é você por você. Mas eu vou tá do seu lado em cada passo. Você vai recomeçar. Vai ser feliz. Eu prometo. Tava sentada ali na beirada da cama, olhando pro quarto, sentindo aquele silêncio confortável que só a casa da minha irmã conseguia ter. Ela tava encostada no batente da porta, com os braços cruzados e um sorrisinho de canto, me observando. Suspirei fundo. — Amanhã mesmo eu vou dar uma olhada em uns apartamentos por aqui perto — falei, tentando manter o tom leve. Milena franziu a testa na hora. — Como assim? Que apartamento, Eduarda? Você não precisa disso, mulher. Aqui tem espaço, tem cama, tem comida, tem amor. Cê vai sair por quê? — Porque eu preciso ter o meu canto — falei, com a voz meio falha. — Você me abriu as portas, mas eu não quero te atrapalhar. Nem você, nem ele. Ela se aproximou devagar, sentou ao meu lado na cama e segurou minha mão. — Tu nunca vai ser um peso pra mim, mana. A gente só tem uma a outra, lembra? E se agora você precisa de abrigo, esse abrigo é aqui. Eu não deixo ninguém mexer contigo. E nem vou deixar você se afastar assim. Senti os olhos arderem, mas respirei fundo, tentando manter o controle. — Hoje à noite tem uma conferência no centro. Eu vou — falei, limpando a garganta. — É da área de saúde. Quero começar a me movimentar, ver se rola alguma oportunidade. Não vim pra viver de favor, Mi. Já vou deixar meu currículo em umas clínicas. — Você acabou de chegar, mulher! Respira um pouco, vive um dia sem pressão, sem medo, sem correria — ela insistiu. Balancei a cabeça. — Não dá, mana. Eu não vim pro Rio a passeio. Eu vim… pra fugir daquele monstro. Preciso ocupar minha mente. Minha voz tremeu. E quando percebi, as lágrimas já tavam escorrendo. Baixei a cabeça, tentando conter, mas o nó na garganta explodiu. — Eu não ia ficar aqui. Eu só ia passar uns dias. Mas depois de tudo o que aconteceu ontem… — minha voz falhou de novo — depois do que ele fez, do que eu senti… eu percebi que não posso voltar mais. Que se eu voltar, eu morro. Eu morro por dentro. Ou ele me mata de vez. Milena me puxou pra um abraço forte, daqueles que só irmã sabe dar. Eu desabei ali, no ombro dela, sentindo o perfume familiar e o carinho que eu tanto precisava. — Você vai recomeçar, Duda. Aqui. Do seu jeito, no seu tempo. Ninguém vai mais te ferir. E se esse tal de Fernando ousar aparecer por aqui… ele que se prepare. Porque agora você tem uma família de verdade. E a gente protege os nossos até o fim. Fechei os olhos e deixei as lágrimas caírem. Talvez fosse a primeira vez, em muito tempo, que eu chorava por alívio e não só por dor. Continua... 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