Rei.
A quadra estava cheia de moradores, esse pai da Clara é mais safado que eu, se der mole já até matou alguém, assim que eu cheguei ele veio com uns assuntos estranhos, e eu que não sou bobo deixei ele falar e se abrir.
Fiquei aqui em baixo evitando aparecer nas filmagens só ouvindo o que ele estava falando com os moradores, os menor envolvidos estavam todos espalhados e escondidos para não serem filmados com as armas, essa foi uma exigência minha, aliás, filmar dentro da minha favela é proíbido, liberei por que nessa brincadeira, eu vou sair ganhando.
O velho estava lá, em cima do palanque improvisado no meio do Alemão, com o peito inflado e o olhar que tentava convencer. Tentava, porque para mim, era óbvio que aquelas palavras todas não passavam de jogo ensaiado, uma peça bem montada para agradar o público. Mas os moradores, famintos por mudança, ouviam cada frase com esperança.
— Boa tarde a todos! É uma honra estar aqui, no coração dessa comunidade tão vibrante e cheia de potencial! — começou ele, com aquele sorriso de político. — Quero deixar claro que eu sei dos desafios que vocês enfrentam diariamente. Eu vi de perto o quanto a desigualdade e a falta de oportunidades prejudicam cada um de vocês e suas famílias.
Ele fez uma pausa, olhou em volta como se estivesse absorvendo a energia do lugar, aquele olhar de quem quer parecer envolvido.
— Eu venho de uma família simples também, cresci vendo de perto o que é lutar para ter uma vida melhor. E é por isso que estou aqui, porque acredito que a nossa gente merece uma chance verdadeira, sem promessas vazias, sem falsas esperanças.
Eu observei as reações da multidão, gente humilde que não tinha escolha senão confiar. Ele continuou, aumentando o tom, buscando tocar no que mais doía.
— Vocês merecem segurança! Merecem escolas de qualidade para os seus filhos! Um posto de saúde que atenda a todos com dignidade! E é por isso que me comprometo, de corpo e alma, a fazer valer cada voto que vocês depositarem em mim.
Ele falava com uma confiança que impressionava.
— Comigo, vocês vão ter voz. Eu não vou me esconder atrás de um gabinete, não! Vou estar aqui, nas ruas, com vocês, ouvindo suas demandas, lutando para que essa comunidade tenha o respeito que merece.
Mais uma pausa, e eu pude ver o brilho nos olhos das pessoas. Era isso que ele queria — que acreditassem.
— Juntos, podemos construir um futuro onde cada criança daqui tenha oportunidades, onde cada mãe e pai possam viver sem medo. E vou lutar para que o morro do Alemão seja reconhecido não só pelos problemas, mas pela força e resiliência do seu povo!
Ele levantou o braço, apontando para as vielas, e concluiu:
— A mudança começa aqui, com cada um de vocês! Conto com o apoio de todos para fazer do Alemão um lugar melhor. Não para mim, mas para vocês, para nossas crianças, para o futuro!
Aplausos. Gritos. O povo engolia aquilo tudo como se fosse o melhor discurso que já tinham ouvido. Para mim, só mais um político falando bonito pra encher os próprios bolsos.
Olhei para os lados e vi Valesca descendo do palanque e vindo nainha direção, ela estava sorrindo e radiante como sempre, seus cabelos enrolados e cheios de volume era a marca registrada dela.
— Bom dia. — Ela falou e me deu dois beijos no rosto. — Ele ja vai finalizar, e ele perguntou se pode conversar um pouco com você.
— Ta, vou esperar ele na padaria la de baixo. — Ela sorriu sem graça e colocou a mão no meu braço.
— Ele pediu para ser algo mais particular. — Sorri pra ela entendeu sobre o que estava falando.
— Fala pra ele ir na minha casa, vou esperar ele la. — Falei olhando em volta. — E depois, tenho que te apresentar uma pessoa.
Ela sorriu balançando a cabeça e se afastou subindo de movo no palanque, fui andando até a moto e subi na mesma indo pra casa, não demorou muito eu ja estava na porta, abri a mesma e Clara estava na sala.
— Princesa, preciso que você fique no quarto. — Ela me olhou e se levantou do sofá. — Seu pai ta vindo aqui.
— O que? — Ela arregalou os olhos. — Você disse que ele não vinha.
— Qual foi, fica de boa, ele não vai andar pela casa, só quero que você fique la em cima e presta atenção no que vamos falar aqui.
— Se ta querendo falar sobre quem é ele, eu sei muito bem. — Ela disse pegando a bolsa sobre o sofá e indo na direção da escada. — Aliás, meu pai é um grande babaca.
— Pelo jeito a Princesa é rebelde e vai contra as regras do velho. — Sorri vendo ela subir as escadas.
Não demorou muito e estavam batendo na porta, abri a mesma e la estava ele, com mais dois homens que eu acredito serem seus seguranças, estendi a mão pegando na dele que estava estendida na minha direção.
— Vomo vai, como posso te chamar? — Ele perguntou e eu encarei os homens com ele.
— Pode me chamar de Rei, e manda eles ficarem do lado de fora por favor. — Falei e dei passagem pro velho entrar, assim que ele passou por mim fechei a porta.
— Desculpa se falei algo que não deveria, mas sabe como é, política, pros de fora preciso mostrar que sou contra vocês. — Ele disse olhando em volta e em seguida se sentou.
— Eu sei. — Me sentei no outro sofá olhando pra ele, tirei a arma da cintura e coloquei sobre a mesa de centro. — O que quer falar comigo?
— Quero fortalecer tanto o meu quanto o seu lado, quero saber o que vocês precisam. — Sorri e me inclinei olhando nos olhos dele.
— Você sabe muito bem que esse jogo político e Traficante não tem fim né, que se tiver um vacilo seu, não vou pensar duas vezes. — Falei e ele não demonstrou nenhum pouco de medo.
Aquele sorriso frio dele me irritava, mas mantive o mesmo sorriso, sem dar a******a. Ele ajeitou a gravata, olhou ao redor, como quem avalia o território, e começou a falar, direto ao ponto, como sempre faz quem está acostumado a mandar.
— Sei que agora é você quem manda no Alemão, Rei. E sei também que tem mais controle aqui do que qualquer político jamais teve.
Ele sorriu, aquele sorriso falso, como se fosse meu amigo. Eu queria rir da cara dele, mas fiquei em silêncio, esperando.
— Preciso do seu apoio, Rei. A campanha está pegando fogo, e com você do meu lado, a vitória é certa. E antes que você me pergunte o que ganha com isso, deixa eu te dizer: quero tornar o Alemão intocável. Segurança reforçada, polícia sob controle, menos incursões… tudo no esquema pra ninguém atrapalhar os seus negócios.
O descarado falava como se estivesse me oferecendo o mundo. Eu sabia que nada ali era de graça. Ele continuou, com aquela calma que só gente cheia de dinheiro tem.
— Em troca, você mantém a paz aqui. Nada de guerra entre facções, nada que me traga problemas nas manchetes. E claro, uma parte dos lucros passa a vir pra mim. Um investimento, digamos assim… pra garantir que essa parceria seja boa pros dois lados.
Ele me estudou por um segundo, esperando minha reação, mas eu não dei a ele essa satisfação. Continuei quieto, ouvindo.
— Pense nisso, Rei. Com o meu apoio, você terá o morro nas mãos sem interferência. E eu vou ter o poder que preciso pra ir ainda mais longe.
Olhei bem pra ele, tentando entender até onde aquele desgraçado achava que podia chegar. O velho estava oferecendo paz em troca de dinheiro sujo e favores políticos. Ele queria que eu mantivesse o morro em ordem, e, em troca, me prometia controle absoluto, sem polícias nos meus calcanhares.
Era a proposta dele: um pacto entre o sistema e o crime. Mas a pergunta que ecoava na minha cabeça era se eu estava disposto a fazer esse tipo de aliança com alguém como ele.